terça-feira, 20 de outubro de 2026

José Feldman (Sonho tristonho)

Texto tendo por base a trova de Aparício Fernandes
Acari/RN (1934 - 1996) Rio de Janeiro/RJ
No sonho estavas sorrindo, 
mesmo assim fiquei tristonho: 
- de que vale um sonho lindo, 
se dura apenas um sonho?

Há uma melancolia sutil que só pertence aos que acordam. O instante exato em que as pálpebras se abrem e a realidade retoma o seu império é, quase sempre, um pequeno luto doméstico. A trova acima nos coloca diante desse paradoxo afetivo: ver quem se ama sorrindo, no território protegido da mente, e ainda assim despertar tristonho. A tristeza aqui não nasce do pesadelo, mas justamente da beleza daquilo que se viveu na fantasia. É a dor da lucidez.
A pergunta do trovador ecoa como um questionamento filosófico profundo: de que vale um sonho lindo, se dura apenas um sonho? Ela nos confronta com o problema da efemeridade. Temos a tendência quase obsessiva de medir o valor das coisas pela sua duração. Julgamos que o que é eterno ou duradouro tem mais valor do que aquilo que é breve. Sob essa lógica fria, o sonho seria uma moeda sem valor, um bem volátil que se desfaz no primeiro raio de sol.
No entanto, a filosofia nos convida a inverter esse olhar. E se o valor do sonho lindo estivesse justamente na sua impermanência?
Se o sorriso sonhado durasse para sempre, ele deixaria de ser um refúgio e se tornaria uma paisagem estática, uma rotina da mente. É a finitude que confere urgência e poesia à experiência humana. O sonho lindo dura apenas um sonho porque ele não foi feito para ser uma habitação permanente, mas um vislumbre. Ele funciona como um espelho retrovisor da alma, mostrando-nos a pureza de um sentimento ou de um desejo que a dureza dos dias acordados teima em soterrar.
Ficar tristonho diante do belo que se desfaz é o preço que pagamos por termos consciência do tempo. O animal dorme e acorda no presente contínuo; o homem acorda carregando o peso da memória e a saudade do que acabou de perder. Essa tristeza não é um defeito, mas a prova da nossa sensibilidade. Só se entristece com o fim do sonho quem foi capaz de habitá-lo com verdade.
A utilidade do sonho efêmero não está na sua capacidade de durar, mas na sua potência de transformar quem acorda. O sonho lindo dura apenas um instante, mas o eco daquele sorriso sonhado permanece nas frestas do nosso dia. Ele nos lembra de como a vida poderia ser, do que ainda somos capazes de sentir e do formato exato da alegria que esquecemos como desenhar no rosto.
Portanto, o valor do sonho lindo não se mede pelo relógio, mas pelo impacto. Ele dura o suficiente para nos salvar, por alguns minutos, da gravidade do mundo real. E, ao acordarmos tristonhos, recebemos de volta a tarefa mais bonita da existência: a de tentar construir, no chão firme e difícil da realidade, o mesmo sorriso que o sonho nos deu de graça.
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José Feldman (1954)
Nascido em São Paulo, capital, JOSÉ FELDMAN é um escritor, poeta, trovador,  professor, enxadrista e gestor cultural radicado no Paraná desde 1999. Sua trajetória literária e profissional foi moldada por influências familiares precoces, orientação de nomes como André Carneiro, Izo Goldman, Eunice Arruda e Artur da Távola, além de uma sólida formação multidisciplinar e atuação de destaque no xadrez e na promoção cultural. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. 

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Excerto Biográfico por Cailin Dragomir

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