A alva bruma que enverdece
os campos das pradarias
me faz dizer velha prece,
no entardecer dos meus dias!
Almejem sempre a vitória,
em todos empreendimentos,
que ficarão na memória,
pelos seus merecimentos.
A lua no céu passeia
num chão coberto de estrela,
deixa o sol, que tanto anseia
louco de amor, para vê-la.
Amar-te, pra mim, foi vício,
doença que não tem cura;
e este foi grande suplício
que me levou à loucura.
Amor é doce tormento!
Amor é vício sem cura!
É o amor um linimento
entre a razão e a loucura!
Amor, palavra tão doce
que nos enche de prazer;
é, às vezes, como se fosse
dor, a nos fazer sofrer!
A nora desesperada,
ao ver a sogra na porta.
lendo a receita trocada,
pôs formicida na torta.
Ansioso, meu coração,
vive, sempre, nesta espera:
de uma nova floração
da dourada primavera.
Ao chegar o meu outono,
sensato, hoje sou bombeiro:
quando jovem, perdi sono
por querer fazer braseiro!
Ao idoso, honra e venera,
a sua sabedoria;
na velhice, que te espera,
terás tu, a primazia...
Ao Novo Tempo a vitória,
neste concurso de paz:
pois, já bem merece a glória
quem pela trova assim faz.
Ao ter fé em Nosso Senhor,
levo a vida em linha reta,
pois, com fé, esperança e amor,
minha vida se completa.
Ao ver a Lua Bailando,
com tanto brilho e esplendor,
eu já me ponho rezando:
- Obrigado, meu Senhor!
Aposentou-se o freguês…
e a pobre esposa reclama
que, banho, é só um por mês,
mas, sem tirar o pijama!
Árido, feito um deserto,
meu coração sofredor
anseia, disto estou certo,
ser fértil com teu amor!
As flores todas são belas,
mesmo as que nascem em abrolhos,
mas, as mais lindas, dentre elas,
são as que vêm nossos olhos.
As folhas mortas que, ao vento,
bailam e caem ao chão,
me evocam, por um momento,
os ventos de uma paixão!
As marcas do teu batom
deixadas no meu cristal,
têm sabor e têm o tom
de um grande amor, no final...
As marcas que a tua ausência,
deixou em meu coração,
são as marcas da pungência
da nossa separação.
As trovas de um trovador
são belas, ricas em rimas
pois são feitas com amor,
verdadeiras obras primas!
A trova que é dita ao vento
tal qual o vento é fugaz;
existe, por um momento...
...e o próprio vento a desfaz!
A vida, às vezes, malvada,
traiçoeira, inconsequente;
nos tira a pessoa amada
e não tem pena da gente.
Bailando sempre a procura
do néctar de belas flores,
o beija-flor, com ternura
não se importa com as cores.
Beber da fonte hipocrátlca
para o médico é um dever,
é a fórmula democrática
da medicina exercer!
Beijando, a brisa, meu rosto,
meiga, me faz relembrar,
com saudade e muito gosto,
o amor que pude lhe dar.
Bela musa, encantadora!
Igual eu nunca vi;
meiga e doce inspiradora;
foste tu que eu escolhi!
Carrego, dentro do peito,
a cicatriz de uma dor
que jamais me dá o direito,
de reaver teu amor!
Casamento - ação esperta!
Isto já está definido,
onde uma parte está certa
e a outra é sempre o marido!
Combater, do fumo o vício
para o médico é um mister:
exaltar seu malefício
como a ética requer!
Combater com veemência
o triste vício do fumo,
sem dó e sem clemência,
pra saúde andar no rumo!
Com grande amor e trabalho,
carinho e dedicação,
do meu amor eu me valho,
pra fisgar teu coração!
Como é bonito o Direito,
quando se julga uma ação
e, ao exercê-lo, perfeito,
sempre o que impera é a razão.
Como pode uma criança,
ser vítima de agressão,
se tem, cheio de esperança,
o inocente coração?
Como são belas as serras
do Estado do Paraná!
Que têm cobertas as terras
das cores do manacá!
Completa felicidade
é, por certo, uma utopia;
pois quem já sentiu saudade,
já sofreu melancolia.
Compondo versos eu sonho,
que trovador, inda, serei
e, nos versos, que componho
no teu nome já pensei!
Contigo sinto que a vida
tem sentido e fulgor,
pois teus carinhos, querida,
dão esteio ao meu amor!
Cuida, ao contar um segredo,
em quem tu vais confiar:
é a liberdade, bem cedo,
que, ao certo, vais entregar...
Dando fim às duras penas,
nossa princesa c'oa mão,
com dois artigos, apenas,
aboliu a escravidão...
Daquele beijo roubado,
em pausa de tua festa,
sinto o gosto adocicado,
o bom sabor que me resta.
Das felizes madrugadas,
sozinho, curto a saudade...
– Que alegria, nas noitadas,
dos tempos da mocidade!
Das folhas, vendo o cair,
pressinto o chegar do inverno
e o coração, a invadir,
saudade... do lar paterno,
De areia, fiz um castelo,
nas dunas, em vastidão,
e o vento, sem ter rasteio,
soprou...pôs tudo no chão.
Decidido e corajoso,
à tua porta eu bati,
foi o susto mais gostoso
que eu já pude dar em ti.
Dentre as coisas que cultivo,
para evitar vida obscura,
o saber é o incentivo
que aumenta minha cultura.
Dentre tantas namoradas,
que já tive em minha vida
e de todas as jornadas,
foste tu a escolhida!
Descrente, sou eu, de tudo...
muito mais sou de sereia
mas, é no verão, contudo,
que vejo tanta na areia!
Desde o dia em que partiste,
triste está meu coração:
este pobre não resiste
a dor da separação.
Desta vida, na escalada,
cada degrau tem a altura,
muito bem delimitada
no tamanho da cultura.
Distante de ti, amor,
noites insones, eu passo
fazendo a Deus um clamor:
pra ver-te, um dia, em meu braço!
Do amor, divino expressar,
a encantadora seresta
faz da janela um altar,
de apaixonados, em festa.
Do pai seguiu a carreira,
com amor, dedicação:
Tinha a semente certeira
plantada em seu coração!
Do sol em raios envolta
vi-te passar tão ditosa,
com puros gestos, tão solta,
tendo a beleza da rosa.
Dos corações, sempre em festa,
o amor, divino expressar...
faz com que cada seresta
torne a janela um altar!
Dos teus carinhos, distante,
na insônia de cada noite,
fico a pensar, num instante,
esta distância é um açoite.
É indizível a tristeza,
dum sabiá na gaiola;
cabisbaixo e sem beleza
nem à amada, cantarola!
É nobre de coração,
o médico pediatra:
dá amor, carinho e afeição,
à toda criança que trata!
É tão atroz a distância
a nos separar, amor,
que só a saudade, em constância
ameniza a minha dor.
É tão linda esta menina!
Linda? Parece boneca...
Mas, se namora na esquina,
logo vira uma sapeca.
É uma escultura, bem-feita,
de uma costela qualquer:
criada por Deus, perfeita,
que lhe deu nome...: mulher!
É verdadeira a amizade,
quando nunca se destrói,
com tempo vira irmandade
e faz do amigo um herói!
Hoje sou um moribundo
nas cinzas do teu amor
e não vejo, neste mundo,
remédio para esta dor!
Insone, em noites frias
e em permanente vigília
de mamãe com as ave-marias
recomendava a família.
Irradiantes de alegria!
façamos trovas de amor,
para louvar, no seu dia,
o poeta Trovador!
Já inventaram um remédio,
de um certo tom azulado,
que tira moço do tédio
e deixa velho… assanhado!
Já no ocaso desta vida,
com tanta conta a ajustar,
peço a Deus, seja abatida
a despesa.. por te amar!
Lembranças da mocidade
são um espelho em que a gente
só vê, com tanta saudade,
o passado... no presente!
Lembro de ti, com saudade,
nos tempos que longe vão;
tu eras felicidade,
dentro do meu coração!
Lindos traços, no teu rosto,
que harmonizam a beleza,
me fazem exclamar com gosto:
-Tu és, sim, minha princesa!
Meu amor da mocidade
foi efêmera ilusão:
dele só resta a saudade,
nas cinzas de uma paixão.
Meu coração é um deserto
por falta do teu amor,
se me ofertares, por certo,
virará, um jardim de flor!
Minha herança não tem ouro,
um conselho é o meu legado:
– Meu filho, mais que um tesouro,
vale um homem muito honrado!
Minha paixão foi loucura
por amar-te tanto assim;
hoje estou nesta tortura:
- Por que tu foges de mim?
Pobre é a nação sem cultura,
sem heróis e sem memória,
cujo povo não procura
resgatar a sua história!
Poesia, versos de amor
nascidos no coração;
versos em que o rimador
exprime a sua paixão.
Poeta! Sou trovador!
Que todos possam saber:
faço trovas por amor,
faço trovas por prazer.
Regressaste!.... Que alegria!
E a saudade se desfez!
Hoje minha alma irradia
felicidade outra vez!
Restou tão grande a distância,
que nos separa no amor,
que já não dou importância,
se minha vida se for.
Saibam todos que o trabalho,
ao bom homem enobrece,
mas, quem não pega no malho,
seu espírito empobrece!
Salve, ó verão de mil cores,
ao despertar o manacá
que cobre, todas, de flores
as serras do Paraná!
São Francisco, nas veredas,
feito um pobre vagabundo,
despido de suas sedas,
encheu, de amor, este mundo!
Saudade... dor da lembrança
de alguém que distante está;
é o sentir de uma esperança
de que esse alguém voltará!
Saudade é uma dor silente
que nos ataca e vem mansinha;
entra no coração da gente,
toma posse e ali se aninha!
Saudade, saudade e meia,
é o que sinto de você;
meu coração serpenteia,
- só você é que não vê!
Saudade! Triste amargor!
Dolorosa e tão pungente,
a nos causar tanta dor;
só a entende quem a sente!
Se encontro, ao voltar pra casa,
as tuas mãos carinhosas,
o meu amor já se abrasa,
com teu perfume de rosas.
Segue, meu filho, na estrada,
os trilhos da retidão:
sê firme em cada pisada
que as honras te seguirão!
Sigo, na vida, o caminho
penoso, porém, correto,
que aprendi, desde meu ninho,
com meu pai severo e reto.
Sim, nas cores do arrebol,
Deus, o mais perfeito esteta,
sob a luz do pôr do sol,
dá inspiração ao poeta..
Singrando mares incertos,
marujo, audaz, varonil
achou montes, recobertos
com flores: Eis o Brasil.
Sinta o perfume das flores
nas serras do Paraná,
tem árvores de mil cores:
– primaveras ou manacá.
Teu charme, encanto e beleza
dão aos poetas um tema,
ó encantada Fortaleza,
linda Terra de Iracema!
Teu conselho, pai querido,
de retidão e de amor,
faz-me, hoje, já envelhecido,
mais entender seu valor!
Teve um infarto, na cama,
a noiva, que é tão frajola,
ao ver que, em vez do pijama,
o noivo pôs camisola!
Tico-Tico seresteiro
que vives, sempre, a cantar,
põe teu ninho em meu terreiro;
vem comigo avizinhar!
Vai, meu filho! Não tropeces
nas pedras do teu caminho:
a Deus, faze tuas preces
e não seguirás sozinho!
Vejo uma gota de orvalho
pairando sobre uma rosa:
de Deus, é mais um trabalho
para tomá-la formosa.
Vendo-a sentada no ninho
ditosa mamãe beija-flor,
vejo que há muito carinho
neste seu gesto de amor.
Vi beleza… colhi flores
nesta vida, em seus caminhos,
mas às vezes senti dores
causados por seus espinhos!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Maurício Friedrich (1945 – 2020)
MAURÍCIO NORBERTO FRIEDRICH foi um destacado médico, advogado e um dos nomes mais relevantes do movimento trovadoresco contemporâneo no Sul do Brasil. Assim como outros grandes trovadores radicados no Paraná, ele uniu a dedicação à ciência e à saúde com a sensibilidade da poesia da trova. Nasceu em Porto União/SC, em 1945, filho da trovadora e professora Araceli Rodrigues Friedrich. Faleceu em Curitiba/Prem 2020, aos 74 anos de idade. Embora tenha nascido em Santa Catarina e estudado no Rio de Janeiro, ele estabeleceu sua residência e sua vida familiar definitiva em Curitiba. Formou-se em 1972 pela Faculdade de Medicina de Campos (Rio de Janeiro). Especializou-se em Cardiologia e Medicina do Trabalho. Atuou na clínica privada, trabalhou na Secretaria Estadual de Saúde, na Fundação Copel e chefiou por cinco anos a Divisão Hospitalar do Instituto de Previdência do Estado (IPE). Paralelamente, também concluiu a graduação e formou-se em Direito.
Sua paixão pela trova foi herdada de sua mãe. Ao longo dos anos, Friedrich tornou-se uma das lideranças institucionais mais respeitadas no meio literário da trova, atuando em nível nacional e estadual. Ocupou Cadeira da Academia Paranaense da Poesia, Presidente da UBT Estadual do Paraná e da Seção Curitiba. Participava ativamente de concursos de trovas em todo o país e teve composições premiadas e classificadas em diversos Jogos Florais. Suas publicações literárias focavam-se prioritariamente em coletâneas coletivas, antologias poéticas e revistas culturais de trovas, registrando sua herança lírica no Paraná.
A importância de Maurício Friedrich para a literatura reside em sua forte liderança e articulação institucional do movimento trovadoresco. Em uma época de transição e renovação das letras, Friedrich trabalhou ativamente na administração da UBT (tanto municipal, quanto estadual) para manter viva a tradição da trova. Ao organizar eventos, gerir as seções literárias do Paraná e produzir poesias que traduziam sentimentos universais com simplicidade, ele garantiu o fortalecimento e a união da comunidade de trovadores do Sul do Brasil.
Fontes:
Luiz Hélio Friedrich. Maurício Norberto Friedrich. Família Friedrich em Trovas. Curitiba/PR: Centro de Letras do Paraná, 2018.
Sites Consultados = Singrando Horizontes (dados enviados pelo trovador), Conselho Regional de Medicina do PR, etc.

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