O relógio do Cartório do 1º Ofício de Registro Civil marcava dez da manhã, mas o clima no salão de espera lembrava o desembarque de um aeroporto em véspera de feriado, combinado com a queima de estoque de uma loja de departamentos.
Três casamentos civis estavam agendados com intervalos de exatos dez minutos. Devido a um atraso crônico do juiz de paz — que, segundo boatos, tentava desatolar o carro de uma poça de lama —, a sala de recepção tornou-se um caldeirão de ternos apertados, estresses pré-nupciais e salgadinhos contrabandeados em bolsas de madrinhas.
Havia três núcleos distintos que, inevitavelmente, começaram a colidir:
1. O Casamento Tradicional-Ostentação: Comandado por Beto e Marcela. Ela usava um vestido sereia com uma cauda de três metros que funcionava como uma rede de arrasto para poeira e canapés.
2. O Casamento Rocker-Gótico: Estrelado por Igor e Trevas (nascida Cleide). Ambos de preto, com coturnos pesados e convidados que pareciam saídos de um filme do Drácula.
3. O Casamento Natureba-Hippie: Liderado por Cauã e Luna. Roupas de linho cru, coroas de flores naturais e um aroma persistente de incenso de sândalo que brigava com o perfume adocicado das madames.
— Alguém tira o salto daquela mulher de cima do meu véu! — sibilou Marcela, os dentes trincados, apontando para uma convidada gótica.
— Relaxa, noiva, tudo é energia — disse Cauã, oferecendo um sorriso pacífico enquanto tentava ajeitar sua guia de miçangas sobre a bata branca. — O espaço é público, o amor é livre.
— Livre vai ser a minha mão na sua cara se você não tirar esse cheiro de defumador de perto de mim! — retrucou o pai de Marcela, um senhor cujo pescoço já estava roxo de tanto que o colarinho o sufocava.
Nesse momento, as portas da sala de audiências se abriram de chofre. Um escrevente magro, com óculos na ponta do nariz e cara de quem não dormia desde 2014, gritou com a voz pastosa:
— Próximo casal! Documentos na mão! Rápido, que o juiz está faminto!
O que se seguiu foi o equivalente humano a uma manada de antílopes cruzando um rio cheio de crocodilos.
O cerimonialista de Marcela empurrou um grupo; a mãe de Igor soltou um grito de guerra; as madrinhas de linho de Luna começaram a cantar um mantra para "limpar o ambiente". No empurra-empurra, o véu de Marcela enganchou no coturno de Igor, que tropeçou em Cauã, que caiu nos braços da mãe de Beto.
Quando a poeira baixou e a porta da sala de assinaturas se fechou administrativamente, o cenário lá dentro era de pura demência burocrática.
O escrevente, sem olhar para cima, batia carimbos como se estivesse jogando fliperama.
— Nome do noivo! — exigiu ele.
— Carlos Roberto, mas me chamam de Beto... — começou o rapaz do casamento tradicional, olhando em volta, atordoado. Ele percebeu, com um sobressalto, que a mulher ao seu lado não tinha três metros de cauda. Tinha mechas roxas no cabelo e um batom preto retinto. Era Trevas.
— Nome da noiva! — cortou o escrevente.
— Trevas do Apocalipse. Mas no RG tá Cleide Souza — respondeu a noiva gótica, achando graça da gravata borboleta rosa-choque de Beto.
— Ótimo. Assina aqui, assina ali. Testemunhas!
Duas pessoas deram um passo à frente. Uma era a tia carola de Marcela, segurando um terço de ouro; o outro era um rapaz com uma tatuagem de guilhotina no pescoço e três piercings no supercílio.
— Espera aí! — gritou Beto, tentando puxar a caneta. — Ela não é a minha Marcela! Cadê a Marcela?
Enquanto isso, no corredor, a verdadeira Marcela avançava furiosa contra a porta trancada, segurada pelo braço por... Igor.
— Me solta, seu morcego de terno! — bofetava ela. — Beto! Beto! Estão roubando meu marido!
— Moça, meu nome é Igor e você está pisando no meu pé — disse o gótico, calmamente, embora seu delineador estivesse borrando com o suor. — E, tecnicamente, quem me pegou pelo braço e me arrastou até aqui foi a sua mãe.
— O quê?! — A mãe de Marcela olhou para o rapaz de preto, depois para o terno que tinha escolhido para o genro. — Valha-me Deus, achei que o Beto tinha mudado de estilo de última hora para me provocar!
Do outro lado do saguão, Cauã olhava encantado para Luna, que por sua vez estava de mãos dadas com um padrinho de smoking que chorava copiosamente de nervoso.
— Olha, Luna, a sincronicidade do universo — filosofou Cauã. — Fomos separados pela correnteza do destino, mas nossas almas continuam vibrando na mesma frequência.
— Cauã, seu pateta, aquela ali na mesa do juiz assinando os papéis com o seu nome é a noiva do terno rosa! — gritou Luna, apontando pela fresta do vidro.
Lá dentro, o caos se oficializava. O escrevente, operando no mais puro modo automático de fim de expediente, já estava na terceira certidão.
— Então fica assim: Carlos Roberto casado com Cleide Souza. Cauã Silva casado com Marcela Albuquerque...
— O QUÊ?! — Marcela arrombou a porta com uma ombrada digna de um zagueiro de futebol, desmanchando o coque de três mil reais. — Eu casada com um bicho-grilo que cheira a capim-santo? Nunca! Beto, o que você fez?!
— Eu não fiz nada! Essa moça de preto assinou primeiro! — defendeu-se Beto, desesperado.
— Ah, agora a culpa é minha? — protestou Trevas. — Você que pegou na minha mão e disse "vamos logo que eu não aguento mais essa burocracia, meu docinho de coco".
— Eu achei que era a Marcela! Eu estava tão nervoso que nem percebi!
O juiz de paz, um senhor de oitenta anos que até então parecia cochilar acordado atrás da mesa, bateu com o martelo de madeira na mesa.
— Silêncio no tribunal... digo, no cartório! Quem está casando com quem aqui? Organizem-se em pares!
A tentativa de organização foi ainda pior. Como as testemunhas e padrinhos já tinham entrado misturados, ninguém sabia quem deveria assinar o livro de quem. O padrinho gótico acabou assinando como testemunha do casamento hippie, enquanto a tia carola de Marcela, em estado de choque, carimbou o dedão no documento do casal gótico.
— Pronto — anunciou o escrevente, limpando o suor da testa com um lenço encardido. — Já foi para o sistema.
Um silêncio sepulcral caiu sobre a sala.
— O que foi para o sistema? — perguntou Beto, com a voz fina.
— O casamento de Carlos Roberto com Cleide Souza, e o de Cauã com Marcela. Parabéns aos noivos. Podem beijar... quem quer que seja que vocês casaram.
Marcela olhou para Cauã, que lhe ofereceu um ramo de arruda. Ela soltou um grito estridente, agarrou a cauda do próprio vestido como se fosse uma corda e começou a abanar o rosto. Beto olhou para Trevas, que deu de ombros e disse: "Se você curtir heavy metal, a gente pode tentar fazer funcionar".
— Tem como cancelar? — perguntou Igor, que ainda estava perto da porta, segurando o buquê de flores do campo de Luna.
— Só por processo de divórcio ou anulação por erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge — recitou o escrevente, finalmente sorrindo. — Mas a taxa do divórcio é o dobro. Próximo!
No final das contas, os três casamentos foram desfeitos e refeitos judicialmente ali mesmo, numa sessão extraordinária regada a muitas ameaças de processo, choro e duas fatias de bolo gótico que Luna aceitou comer porque "não continha glúten".
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José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.
Com 10 livros publicados, entre eles: Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (excerto biográfico por Cailin Dragomir)

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