quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Cantinho do Frata (Retrato do ontem)

Riscos de nuvens vermelhas coloriam o céu de verão enquanto o sol ia sendo empurrado como moeda grande num cofrinho no horizonte. Era a noite que chegava de manso. A poeira levada pelo vento para aqui e ali petecava qual jogo de moleques, e tingia de marrom as folhas dos pés de mamona, o casario da avenida, as roupas dos varais para desassossego das mães. Que sujeira, meu Deus! - Lamentavam.

Estávamos ali há algum tempo, minha irmã e eu sentados na soleira do portão quando, lá no começo da rua, sinais de fumaça mostraram o último ônibus do dia da Viação Garcia.

Rimos coniventes. Em pouco chegou bufando e gemendo, mas impoluto e poeirento foi manobrado e estacionou na estação rodoviária. O sopro do ar dos freios foi o último barulho forte que ouvimos. Parecia que o ar comprimido saía dizendo: Arre! Ainda bem que chegamos... No mais, pessoas desciam do monstrengo em busca de malas e embalagens retiradas do bagageiro do teto. Tudo empoeirado, mas fazer o quê?

Meu pai estava entre eles. Era vendedor-viajante que saía na segunda de madrugada para voltar apenas na sexta naquele horário. Vestia um sobretudo de algodão e sob ele o terno escuro com paletó de seis botões e chapéu de feltro que lhe davam ar senhorial, como eram as vestimentas sóbrias dos anos cinquenta. Parecia cansado como o ar dos freios.

Corremos ao seu encontro com as boas vindas semanais e arrancamos dele um largo sorriso, um abraço apertado de pai, um passar de mãos nas cabeças e uns trocados tirados do bolso do paletó, reservados talvez para a ocasião. O deixamos com a mala de couro e corremos ao Bar do Zé Enxerga.

Como era gostoso sorvete de palito com guaraná! Uma mordida na massa gelada e um gole no líquido efervescente que espirrava respingos no nariz davam sensação de prazer. Nossos olhos brilhavam, nossos rostos irradiavam felicidade e nossas bocas, mãos e braços se lambrecavam de sorvete escorrido. Mas quem se importava? A cada mordida e a cada gole parecia que os anjos das lombrigas bailavam de contentamento, fazendo festa ern nossas barrigas.

O tempo com seu cofre de esconder sol passou rápido e cobriu de asfalto a estrada e a avenida, e a poeira infernal diminuiu para alegria das mães; os ônibus que bufavam foram substituídos, o Zé Enxerga vendeu o bar, meu pai trocou de emprego, a soleira do portão não serviu mais de assento para nós que crescemos e nos esticamos para o mundo; e Bandeirantes, como uma flor de lis que desabrocha na madrugada para enfeitar o dia, se tornou uma bela e pujante cidade e vive um momento de crescimento, cria condições melhores para o futuro com suas escolas e com seu povo que desde o desbravador ao empreendedor atual, continuam a escrever com maestria, orgulho e com pontinhos de saudade do ontem a sua história. É um retrato que enternece pela lembrança boa que produz.

Muita coisa mudou de lá para cá; só não mudou o sabor inigualável de sorvete de palito com guaraná.
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Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes: 
Livreto dos XXVIII Jogos Florais de Bandeirantes – 2014: Jubileu de Carvalho de Bandeirantes. Santo Antonio da Platina/PR: JK Artes Gráficas, 2014.
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

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