quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (Talvez, lá no distante da curva...)

 
BERREDO MACIEL estava sentado na mesa de número 15, numa cadeira de plástico, num canto escondido da padaria, observando o movimento da avenida movimentada como quem tenta decifrar um código secreto, tipo do de Dan Brown. O barulho das xícaras batendo, o chiado da máquina de café e, ao fundo, o som distante de um ônibus atrasado que nunca chegava no horário. Na cabeça de Berredo Maciel, uma frase martelava impiedosa: “Eu só queria morrer em paz”. Não era um grito de desespero incontido, mas um suspiro cansado, desgostoso, como quem amargurado e descontente com a vida que levava, pedia silêncio em meio a um barulho ensurdecedor que não dava um minuto de trégua.

 A seu lado, uma garota de uns quinze anos lembrava a Liesel Meminger*, aquela órfã que roubava livros e havia chegado de bicicleta fazendo um pequeno barulho ao cruzar por ele, como se a sua passagem espalhasse folhas secas pelo chão ladrilhado. O vento ameno que vinha da porta de entrada onde ficava o forno trouxe o cheiro de pão recém saído, e por um instante, em vista do pequeno barulho, ele fechou os olhos e deixou o aroma penetrar seu nariz, pensando que talvez a paz não fosse um destino final, mas um ponto de parada inesperado entre um suspiro e outro. Lembrou que não precisava de um funeral pomposo tipo o de Elvis Presley, ou mais recentemente do Renner, da dupla com Rick. Bastava um momento calmo de silêncio acolhedor, um copo grande de café com leite e açúcar e a certeza de que ainda havia algo que cheirava à vida.

  Quando a porta do “vai e vem” se abriu, (voltando, de novo a mocinha parecida com a Liesel Meminger) dando acesso ao interior do estabelecimento, recordou momentaneamente que com ela entrou uma réstia tênue de luz clara vinda, tipo assim, de uma tarde que insistia em ser quente mesmo no inverno que cobria a cidade. Ele se levantou, passou no caixa, pagou o café e saiu. Foi sem saber se a frase ainda ecoava dentro de seu “eu”, ou se fazia pulsante com aquela sensação de que, talvez, só talvez, a paz fosse simplesmente caminhar ao lado dele, devagar, de modo que pudesse andar despreocupado, sem pressa de chegar à lugar nenhum. Nesse cenário, Berredo Maciel, entre o barulho da avenida e o cheiro de pão, numa espécie de estalo vindo de algum lugar desconhecido, aprendeu, ou melhor se deu conta de que “morrer em paz” poderia ser só um jeito de viver um pouco mais... um pouco mais livre, leve e solto.

 Coisa de vinte minutos depois, Berredo Maciel deixou definitivamente o lugar onde estava e com os passos ainda meio arraigados, o coração batendo em um ritmo menos pesado. Logo adiante, na mesma calçada, uma multidão se estranhos se movia como um rio que nunca parava, e ele, por uns segundos permitiu ser apenas mais uma gota (ou algo parecido) naquele fluxo intermitente. Ao virar a esquina, avistou a velha biblioteca municipal, colada ao prédio da prefeitura, aquela que ainda tinha o cheiro inebriante de papel velho misturado ao perfume de rosas que a bibliotecária, dona Maria Celeste, sempre deixava no hall de entrada. Ele ingressou, e o silêncio pesado e ao mesmo tempo mavioso, no interior, lhe fez pensar num abraço que ele não sabia que naquele instante precisava.

 Sem ser convidado, passou a mão num livro e se sentou numa das mesas. Escolheu um do Mário Quintana e se acomodou numa pequena mesa com duas cadeiras de madeira. Ao se acomodar, o assento rangeu. Só então ele abriu o livro ao acaso e leu: “A paz não é a ausência de ruídos, mas a capacidade de encontrar melodias no que conhecemos como caos.” Essa frase ficou assim, ecoando na sua cabeça, remexendo em seu cérebro como um sussurro que não conseguia apagar. Enquanto lia, a luz forte que entrava por uma janela de fundo, desenhava sombras que pareciam dançar ao aconchego de um velho samba de Adoniram Barbosa que vinha possivelmente do barzinho do Nicanor, do outro lado da rua frente à prefeitura. Cada nota parecia dizer que a vida, mesmo nos seus dias mais cinzentos, ainda tinha ritmo e conservava um resto de felicidade. Ele fechou o livro, se levantou e caminhou vagarosamente até a janela.

 Lá fora, um garoto descalço vendia balões coloridos. Um deles lhe escapou das mãos e subiu, subiu... foi assim, até desaparecer no céu de fim de tarde. O balão, leve como um pensamento, fez Berredo Maciel sorrir. Pensou que talvez a paz fosse exatamente isso: deixar que as coisas que não podia segurar subisse e aceitar que, enquanto houvesse alguém para observar, ainda haveria espaço para a esperança. Saltitante e tentando despistar o choro, voltou para a rua, agora com o sol da tarde se pondo em tons de esperança. Uma esperança envolvente e indescritível.  Percebeu que o barulho da pequena cidade já não era mais um grito. Se assemelhava a uma canção envolvente de fundo enternecedor. Cada passo que dava, emanava a um verso que ele ainda não sabia que estava escrevendo.

 E, ao chegar na sua rua e ao se encontrar em casa, ao fechar a porta da sala, vagarosamente, sussurrou para si mesmo:

— Talvez eu não precise morrer em paz. Quem sabe, eu só careça avivar um pouco mais o silêncio terno dentro de mim.

 Seguiu até seu quarto, deitou a cabeça no travesseiro, respirou fundo, e, pela primeira vez naquele fim de dia, sentiu o peso da frase “Eu só queria morrer em paz”. Por pura magia, ou algo parecido, seu resto de dia se transformou em algo mais leve: “Eu só queria viver e morrer em paz”. Naquele simples ato de respirar, incrivelmente extasiado, Berredo Maciel encontrou a tranquilidade que tanto buscava.

 Envolto nela, ficou ali deitado coberto pela penumbra do quarto, enquanto a frase que havia carregado por tanto tempo ainda ecoava nos cantos e recantos de sua mente: “Morrer pedindo perdão às minhas ex-esposas, às minhas filhas e filhos que abandonei…”.

 O peso das palavras parecia apertar o peito, mas, ao mesmo tempo, lhe trazia uma estranha clareza de espírito. A mesma que certo dia invadiu a mente sonhadora do francês Júlio Verne e fazer seus sonhos imorredouros se tornarem reais na pele do doutor Samuel Ferguson. Pensou nos rostos que ainda habitavam seus devaneios, reviu as imagens das mulheres que partiram, (ou melhor dito, das que ele não soube dar uma vida mais decente e expressiva) avivou os sorrisos tímidos das filhas que não sabiam como chama-lo de “pai”.

 Reacendeu a ausência do único filho homem, que desde garoto cresceu e aprendeu a andar sem ele. Cada lembrança fazia um ponto de luz que furava a escuridão tênue do quarto, mas também trazia um lembrete doloroso do tempo que se esvaía cada vez mais escasso.

 Então levantou-se devagar, acendeu a luz de um abajur, sentou na beira da cama e, com a mão trêmula, pegou o velho caderno que mantinha guardado num criado-mudo. Começou a escrever, grafar sem pretensão de arte, apenas para colocar para fora o que ainda não tinha dito:

“Perdão, se ainda houver alguém que me escute. Não há desculpas que justifiquem o que fiz, mas nesse momento preciso confessar que ainda me questiono se um dia poderei ser mais do que a sombra negra que deixei estrada à fora”.

 Fez uma breve pausa e continuou: “A vocês, a todos vocês que carregam o peso da minha ausência, e a escassez grandiosa de uma ausência sem explicação, eu humildemente ofereço o que resta de mim: e o que é? A promessa de tentar, mesmo que inexplicavelmente tarde, ser alguém um bocadinho melhor.”

 Enquanto a tinta da caneta esferográfica se fazia viva, ouviu o canto distante de um galo anunciando um novo amanhecer. Ele adormeceu e nem sentiu o peso do sono. O som, simples e puro, trouxe uma sensação de recomeço. Não seria fácil, nem instantâneo, mas ali, naquelas folhas de caderno, ele se deparou com as primeiras linhas de um pedido sincero de socorro. Berredo Maciel sonolento, pegou o caderno que havia caído no chão ao lado da cama.

 Respirou fundo e, pela primeira vez, em muito tempo, sentiu dentro de si que talvez a paz não fosse um destino final, mas uma senda infinda e ainda não usada que poderia trilhar, tipo um passo de cada vez, suportando o remorso enorme e pesado do arrependimento, mas também, igualmente, com a esperança imorredoura à flor da pele, de encontrar lá no distante da curva desse carreiro, ainda com vida e pulsante, os pedaços espalhados de seu coração.
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* Liesael Meminger = protagonista do livro "A menina que roubava livros", do escritor australiano Markus Zusak.
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

Fontes:
(Texto enviado pelo autor.) 
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

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