quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Nilto Maciel (Amapa)


Liana Bennato sorriu e fez mais uma pergunta. Se Amapa conhecia o Amapá. O grande astro também sorriu e tudo nele brilhou: os dentes, os olhos, os brincos, o cabelo.

O homem e a mulher não despregavam os olhos da televisão, enquanto as crianças brincavam, sentadas a um canto da sala.

— Não façam barulho.

Amapa não parava de sorrir e brilhar, e a bela repórter enrodilhava-se toda diante dele. O grande público certamente delirava à frente dos televisores. Como o homem e a mulher que ralhavam com as crianças em brincadeira.

— E a origem de seu nome?

— Eu já havia escolhido meu nome artístico, quando uns amigos criaram Amapa. Segundo eles, muito mais comercial.

Liana Bennato repetiu para os telespectadores o vasto nome de batismo do artista: André-Maria Ampére Parente.

— Alguma homenagem, Amapa?

— Acredito que à eletricidade. Meu pai era eletricista.

— Você se refere à palavra ampère, não é? E de onde vem André-Maria?

O homem e a mulher sacudiram-se no sofá e chamavam a atenção das crianças para a entrevista.

— André e Maria, vejam, vejam!!!

— Que coisa mais linda! — derretia-se a mulher.

A loira repórter também brilhava diante das luzes: qual teria sido então o nome artístico dado a si mesmo por Amapa?

— A. Parente.

— Não, não ia ficar bem — considerou o homem.

— Eu preferia Amperente — luziu a mulher.

Nem assim os dois pequenos desviaram a atenção de suas bugigangas.

— Amapa, fale-nos de seus planos para este ano.

O grande astro falou primeiro do disco a ser gravado nos Estados Unidos e, em seguida, passou à turnê pela Europa.

O homem e a mulher continuavam ligados à tevê, olhos arregalados, ouvidos abertos, respiração presa. Amapa cativava ambos os sexos, agradava a gregos e troianos, compunha, cantava, dançava. Um poeta inimitável.

— Compre o disco novo do Amapa — ordenava a mulher.

— Já comprei — adiantava-se o homem.

Ora, então ia deixar de ter à mão aquela voz maravilhosa? Há mais de dez anos acompanhavam o sucesso de Amapa. Desde o primeiro LP.

— Você se lembra, meu bem?

— Claro que me lembro.

Havia até um cantor muito parecido com ele.

— Quem era, hem?

— Não me lembro agora.

As crianças não ligavam para a televisão, nem para o homem e a mulher extasiados diante dela. Preferiam brincar. E tudo lhes servia de brinquedo. Tudo o que não interessava mais ao homem e à mulher.

— Me dá isso, pai.

E a velha lista telefônica virava aeroporto. Os aviões nem sempre tinham asas e só faltavam se espatifar na hora do pouso.

— Não façam barulho, filhinhos.

No televisor, Amapa cantava trechos de uma das músicas do novo disco. A repórter delirava. O homem e a mulher deram-se as mãos.

  — Amapa, sempre Amapa.

Os pequenos esfregaram um objeto no chão da sala. Uma velha capa de disco. Ora, aquilo irritava. Parassem já com a esfregação.

— Amapa, conte-nos aquela história da festa – pediu Liana.

O astro sorriu e tudo nele brilhou: os dentes, os olhos, os brincos, o cabelo. Acreditava no destino. Desde menino sonhava com o sucesso. Um dia, descobriu que se parecia naturalmente com certo cantor de nome L. Veríssimo, então no auge da fama. E resolveu aproveitar-se daquilo, apesar de ser muito mais novo do que o cantor.

— A festa não tinha nada a ver com a música. Era o casamento da filha de um político importante, que, aliás, já morreu. E eu simplesmente fui à recepção, como se fosse L. Veríssimo.

— E ninguém desconfiou de nada?

— Não sei. Só sei que olhavam muito para mim. O resto você sabe.

O homem e a mulher gargalhavam, batiam palmas, faziam o maior barulho, enquanto as crianças rasgavam livros e capas de discos antigos.
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Nilto Maciel (1945 - 2014)
        O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Nilto Maciel. As insolentes patas do cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

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