Lúcio resolvera não trabalhar e aproveitar sua voz e a habilidade para tocar violão. Em um barzinho na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, começou a apresentar-se, recebendo R$50 mais o jantar.
Em um pequeno palco improvisado no canto do estabelecimento, cantava algumas músicas sertanejas, acompanhado pelos frequentadores.
Lécio, já meio embriagado, sentou na beira do palco e começou a fazer a segunda voz nas canções.
Incomodado para ver se inibia o inoportuno, chamou-o ao palco. Cantaram alguns sucessos sertanejos conhecidos, e para sua surpresa, foram aplaudidos, inclusive com a chegada ao bar de pessoas que passavam pelo local e ouviram a dupla cantar.
Sucesso repentino, com o dono do estabelecimento oferecendo R$200 para a dupla apresentar-se na noite seguinte.
Os dois rapazes que sequer se conheciam, no final da noite, tomando uma cerveja, perceberam a coincidência dos nomes Lúcio e Lécio, que poderiam aproveitar como nome artístico de uma dupla sertaneja.
Combinaram de ensaiar na garagem de uma tia, que quase enlouqueceu com o barulho que fizeram, pois chamaram João Mecânico, amigo de Lúcio, sanfoneiro de fim de semana, para acompanhá-los.
O bar encheu de curiosos que ouviram comentários na internet sobre uma nova dupla na noite da cidade.
Os familiares de Lúcio, mesmo sabendo que ainda não havia gravações, ligaram o dia todo para as rádios locais, solicitando que tocassem a canção da dupla, simulando que eram várias pessoas encantadas com o sucesso.
No dia seguinte, um vídeo gravado por um anônimo, viralizou nas redes sociais. O dono do bar ofereceu R$500 por nova apresentação, imediatamente recusado pelo tio de Lúcio, que arvorou-se em empresário da dupla.
Um convite para realizarem uma “Live”, com boa compensação financeira, aceita pela dupla, tornou-se um fenômeno na cidade, alastrando-se por todo o Estado.
Notando o aparecimento da dupla, um empresário do ramo ofereceu o estúdio para a gravação do primeiro DVD. Mas impôs a condição de terem que ser acompanhados pelos músicos da gravadora, o que implicaria no afastamento do sanfoneiro João Mecânico. Isto causou revolta em Lúcio, seu amigo de infância, e que o considerava como um irmão.
Para não atrapalhar o futuro da dupla, tiveram que aceitar essas condições. O sucesso foi estrondoso com a venda e a enorme quantidade de shows pelo país com alta remuneração.
Lécio começou a perceber a alteração no comportamento de seu parceiro, que a todo momento mostrava-se inconformado com o que ele considerava ter sido uma traição ao amigo sanfoneiro, bebendo muito após os shows e também em outras horas.
Lúcio engordava a olhos vistos e nunca aparentava ser feliz, mesmo com o sucesso e o assédio das fãs, sempre lembrando o nome do amigo João.
Até que em uma noite, apresentou-se embriagado para o show, comprometendo a performance da dupla.
Conversaram longamente e optaram por uma internação em clínica especializada na recuperação de alcoólatras.
Depois de alguns meses de tratamento, foi autorizada pelos médicos a visita de familiares e amigos.
Nessa ocasião, Lécio e João Mecânico foram até lá, e após um longo e emocionado abraço, resolveram refazer o antigo trio musical. Foi o que bastou para a recuperação total de Lúcio, que em pouco tempo obteve a alta da clínica.
Voltaram à noite em Campo Grande, agora com cachês bem menores, mas cantando com a felicidade que o sucesso anterior lhes roubara. Formaram um quinteto inseparável, composto pela Gratidão, Amizade, Lúcio, Lécio e o amigo João.
Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: imponderáveis. Volume 3. Santos/SP: Bueno Editora, 2022. Enviado pelo autor

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