O céu tossiu. Um pigarro seco, nervoso e seguiu-se um tremor. Trovões rugiram na imensidão cinzenta.
E, sem muito esperar, grossos pingos frios e violentos, puseram-se a fustigar o telhado, o quintal ladrilhado, o gramado. A entortar arbustos, a retorcê-los em furor.
Novos clarões riscaram o céu amarelando por instantes o cinza-escuro.
Em meio a repetidos estrondos, o vento assoviou nos varais de arame. Também nas antenas bambas, nas frestas de vitrôs mal fechados. E o clarão do dia, como a sentir medo, fugiu.
Eu, da janela, observava.
Lá fora, apenas o aceso das lâmpadas impunha-se à escuridão. Até que um estrondo maior as assoprou como velas, para pôr o escuro penumbroso em plena manhã.
Mais uma vez, a força vencera.
— Coisas do fim do inverno, pensei.
Mas, ainda ali parado, observei que o próprio céu selecionava nuvens. Trocava-as de lugar, espichava-as, encurtava-as, esgarçava-as. Botava-lhes nervuras. Levava e trazia e, não satisfeito, repetia a operação deixando apenas as que soprassem mais forte.
Assim permaneceu nessa seleção por mais tempo do que eu poderia imaginar.
Mas elas devem ter se cansado.
Uma a uma –– algumas sobrepondo-se na pressa, passaram. Ganharam distância e deixaram entre si um vazio.
Um leve rasgo no céu. Por onde uma réstia, também pequena mas brilhante como holofote, passou a se fazer sol.
Bem no meu jardim.
E ali ficou, como um facho a lembrar que a natureza conhece o quanto e o quando. Por mais que pensemos no tudo.
O resto?
Bem, o resto, eu contarei na próxima chuva…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.
(Texto enviado pelo autor.)

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Solicito que coloque o seu nome após o comentário, para que o mesmo seja publicado. Somente serão aceitos comentários relativo às publicações, outros que sejam políticos, pessoais, chulos, etc. serão excluídos. Veja política de conteúdo na página inicial. Outros assuntos relativos a postagens, use o formulário de contato na coluna à direita ou envie para o email gralha1954@gmail.com
Não coloque nos comentários telefones, emails, dados pessoais para não cair em golpes de terceiros.