segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cantinho do Frata (A primeira professora)

   Depois de tempos, visitei a escola que me ajudou a crescer. Seus muros altos, o portão soberbo e a fachada precisando de tinta nova, deram-me vontade de começar tudo de novo. 
  Parado na esquina sob uma sombra, por momentos ouvi gritos, algazarras, enquanto um nó apertava-me a gravata. 
Era domingo e foi somente impressão. Não dei às pessoas que estavam comigo qualquer razão para se importarem, mas meus olhos se umedeceram. A saudade que entrava neles e ficava ali a mexer para em seguida, caminhar em gotas até o nariz e a garganta. Sabia que a saudade se veste de lágrima?
Nada que um pigarrear e uma passada de lenço não resolvesse. E resolveu. Para mim, contudo, transformou-se numa vontade enorme de voltar ao pátio, invadir os corredores com passos curtos, rever as salas, apagar a lousa e de falar — muito — com a primeira professora, pedindo-lhe a bênção. 
Desculpas pelas diabruras, birras, garranchos, malquereres e palavrões e, mais que isso, por sua dedicação não só a mim, mas por igual aos meus colegas. E, feito isso, pedir-lhe desculpas por ter crescido e a abandonado sem lhe ter dito ao menos uma vez, obrigado! Pela preocupação com nossos piolhos catados à unha, os bichos-de-pé retirados com agulhas fininhas. 
Então, mesmo tardio, obrigado, mestra, por tudo o que fez ao pegar em minha mão para ajustar as letras nas linhas, e com elas me dar um Norte. Obrigado especialmente por ter sempre no semblante um rosto de mãe, enquanto alicerçava meu amanhã.
Algo em mim, porém, naquele momento que assim pensava, fez-me distanciar do grupo a fim de me compenetrar, e nessa conversa rápida com o íntimo, a consciência fez um ato de contrição. 
O tempo de reconhecer erros chegara e agora, que eu cumprisse o que o coração pedia. 
Então perguntei por ela, mas ganhei olhares furtivos e interrogativos. Os mais novos não a conheciam e os mais velhos, preocupados com as próprias vidas, não se lembravam, até que um deles, botando o dedo na testa a apontar para a lembrança, expressou entusiasmo: 
"Sim, me lembro, claro. Também foi minha professora. Aposentou-se, enviuvou e foi morar com o filho.”
A emoção não se desfez, nem o sentimento de débito eternizado enquanto não puder substituí-lo por uma conversa franca e um abraço de agradecimento. 
Mas, enquanto isso não acontece, registro a boa lembrança que ela deixou em mim ao me ensinar o B-A-BÁ. 
É como uma placa de ouro que não derrete e nem se perde diante da alegria e da tristeza que a vida produz.
A todas as professoras, o sincero e reconhecido respeito.
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Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

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