terça-feira, 27 de outubro de 2026

José Feldman (Livro da Saudade)

No meu livro de lembrança,
ainda sem conclusão,
saudade é aquela esperança
que compôs a introdução…
Vanda Fagundes Queiroz 
(Curitiba/PR)

Escrever a própria história é um exercício de paciência arqueológica. O tempo passa e nós nos tornamos os autores de uma obra que só se encerra com o último suspiro. Olhar para trás e folhear as páginas internas é deparar-se com o verso preciso da poetisa: “a vida como um livro de lembrança, ainda sem conclusão”. Estamos sempre no gerúndio, rascunhando capítulos, corrigindo parágrafos e rasgando páginas inteiras de arrependimento.

Contudo, o nó cego da nossa existência reside na primeira página. A trova nos oferece um diagnóstico cirúrgico da alma ao inverter a cronologia dos afetos: “saudade é aquela esperança que compôs a introdução”.

Geralmente, pensamos na saudade como um olhar voltado para trás. Julgamos que ela é o resíduo do que passou, a poeira que fica na sala depois que a visita vai embora. Mas a filosofia do tempo nos ensina que a saudade morde mais fundo por outro motivo: ela não é a falta do passado, mas a falta do futuro que havíamos projetado. Quando recordamos com dor ou melancolia um amor que acabou, uma infância distante ou um porto que deixamos, não choramos apenas pelo que foi. Choramos pela esperança que tínhamos naquela época.

A introdução do nosso livro de lembrança é sempre escrita com a tinta fresca da expectativa. Quando somos jovens, ou quando iniciamos um novo ciclo, cada passo é dado em direção a um horizonte luminoso. Vestimos o mundo com os nossos melhores desejos. Essa esperança inicial é o prefácio de tudo o que virá.

Com o avançar dos capítulos, a realidade impõe sua revisão textual. O tempo, esse editor implacável, corta nossos excessos, cancela personagens que amávamos e muda o rumo da narrativa sem nos pedir licença. É aí que a esperança original, aquela que abriu o livro, muda de nome. Ela não morre; ela se transmuta. O desejo pelo que poderia ser torna-se a falta daquilo que poderia ter sido. A esperança, quando envelhece, vira saudade.

Portanto, haver saudade na nossa introdução significa que fomos corajosos o suficiente para começar a história com entusiasmo. Um livro que não guarda saudades na abertura é um livro que nasceu frio, escrito por quem nunca ousou esperar nada da vida. A saudade que carregamos não é um sinal de derrota diante do tempo, mas a prova biográfica de que nossa introdução foi rica em promessas.

O livro continua sem conclusão. Novas páginas estão em branco, prontas para o dia de amanhã. O bom autor da própria vida sabe que não pode apagar a introdução, nem deve passar o resto dos dias relendo o mesmo início. A sabedoria consiste em aceitar que a saudade é o lastro poético da nossa caminhada. Olhamos para ela com respeito, fechamos aquele primeiro capítulo com um sorriso melancólico e voltamos a segurar a caneta. Afinal, a história ainda está sendo escrita, e cada novo parágrafo é uma chance de reinventar o que a esperança começou.
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José Feldman (1954) 
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. 
        Com 10 livros publicados, entre eles: Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital. (excerto biográfico por Cailin Dragomir)

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