quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Luís Fernando Verissimo (Papos)


- Me disseram...

- Disseram-me.

- Hein?

- O correto é "disseram-me". Não "me disseram".

- Eu falo como quero. E te digo mais... Ou é "digo-te"?

- O quê?

- Digo-te que você...

- O "te" e o "você" não combinam.

- Lhe digo?

- Também não. O que você ia me dizer?

- Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?

- Partir-te a cara.

- Pois é. Parti-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.

- É para o seu bem.

- Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mais uma correção e eu...

- O quê?

- O mato.

- Que mato?

- Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?

- Pois esqueça-o e para-te. Pronome no lugar certo e elitismo!

- Se você prefere falar errado...

- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem-me?

- No caso... não sei.

- Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não?

- Esquece.

- Não. Como "esquece"? Você prefere falar errado? E o certo é "esquece" ou "esqueça"? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.

- Depende.

- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas não sabes-o.

- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.

- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que mas dás. Mas não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.

- Por que?

- Porque, com todo este papo, esqueci-lo.
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Luís Fernando Veríssimo (1936 – 2025)
LUÍS FERNANDO VERISSIMO (Porto Alegre/RS, 1936–2025) foi um dos mais populares, brilhantes e queridos escritores contemporâneos do Brasil. Conhecido internacionalmente como o mestre absoluto da crônica de humor, ele herdou o gênio literário de seu pai, o romancista Érico Verissimo, mas construiu uma identidade artística única, vendendo mais de 5 milhões de livros ao longo de cinco décadas de produção ininterrupta. Teve uma formação cosmopolita, tendo vivido parte da infância e juventude nos Estados Unidos devido às aulas que seu pai lecionava em universidades americanas. Antes de viver exclusivamente da literatura, sua carreira transitou por múltiplos ofícios. Iniciou a carreira na imprensa escrita no fim dos anos 1960 no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, como copidesque e repórter. Mais tarde, suas colunas semanais tornaram-se leitura obrigatória em gigantes da mídia como O Estado de S. Paulo, O Globo e a revista Veja. Atuou como redator publicitário e revisor de textos em agências de propaganda e editoras no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O jazz era uma de suas maiores paixões. Verissimo era um exímio saxofonista e tocou por anos no conjunto Jazz 6, apresentando-se com frequência em festivais e casas de show. Trabalhou intensamente traduzindo clássicos literários e escrevendo roteiros humorísticos de sucesso para programas da Rede Globo.
Estreou tardiamente no mercado de livros, publicando sua primeira coletânea de crônicas, O Popular, em 1973, quando já tinha 37 anos. A partir dali, sua produção foi avassaladora, somando mais de 80 títulos publicados entre crônicas, contos, romances e histórias em quadrinhos. Sua vida literária ficou marcada pela criação de tipos satíricos inesquecíveis que se integraram à cultura popular: O Analista de Bagé (1981): Um psicólogo gaúcho ortodoxo e machista que tratava seus pacientes com a icônica "terapia do joelhaço", vendendo mais de 1 milhão de exemplares; A Velhinha de Taubaté (1983): Personagem icônica criada durante a ditadura militar que ficou famosa por ser "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo"; Ed Mort: Um hilário detetive particular carioca, atrapalhado e pessimista, cujos casos sempre terminavam em confusão completa, gerando adaptações para o cinema e quadrinhos; Obras-primas do humor cotidiano como Comédias da Vida Privada (1994) e As Mentiras que os Homens Contam (2000), além de romances policiais refinados como O Clube dos Anjos (1998).
A relevância de Luis Fernando Verissimo para a literatura brasileira repousa em sua capacidade de fazer rir sem jamais abrir mão do pensamento crítico:
1. Democratização do Hábito de Leitura: Verissimo quebrou barreiras acadêmicas e levou literatura de altíssima qualidade técnica para milhões de brasileiros. Seus textos limpos, diretos e extremamente rítmicos tornaram-se as maiores referências pedagógicas para o ensino da crônica e interpretação de texto em escolas de todo o país.
2. A Crônica como Espelho Social: Seguindo a tradição microscópica de Machado de Assis, Verissimo transformou o miúdo — filas de banco, discussões de casal, o fanatismo por futebol e jantares de família — em um espelho das grandes contradições éticas e políticas da classe média brasileira.
3. Consolidação do Humor Inteligente: Ele provou que o humor não precisava ser apelativo ou agressivo. Sua escrita misturava uma ironia fina, sátira política ácida e um profundo viés humanista, mostrando que o absurdo da vida cotidiana merece ser enfrentado com inteligência e leveza.

Fontes:
VERÍSSIMO, Luís Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
Biografia = Wikipedia; Diplomatique; Ebiografia; Revista Cândido; Academia Brasileira de Letras; Brasil Escola; Estadão; Itaú Cultural, etc.

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