quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Eduardo Martínez (Almeidinha e o senegalês)

Não sei se você sabe, mas o meu grande amigo Almeidinha já passou um tempo em Londres, onde fazia parte da tripulação de um barco de turismo no famoso rio Tâmisa. Ele ajudava na cozinha e servia os clientes à bordo. Corria para cá, corria para lá, atendia a todos os pedidos com até certa gentiliza, levando-se em conta o seu temperamento nem sempre tão polido. Mas como estava na Inglaterra, isso poderia até passar despercebido, pois todos poderiam supor que aquele era o jeito da população local.

 Mas eis que um dia o Almeidinha, praticamente um inglês na pontualidade, chegou atrasado. O encarregado disse para ele e outro funcionário, um enorme senegalês que também havia chegado mais tarde, lavarem a louça da viagem anterior. O meu amigo, que não é de muita conversa, foi logo pegando uma esponja e o sabão e, em seguida, começou a cumprir a tarefa recebida. Já o seu companheiro de labuta se sentou na bancada logo atrás e começou a descascar uma banana calmamente. O Almeidinha olhou aquilo com certa raiva, mesmo porque os dois não se bicavam há tempos.

Quase dez minutos se passaram, e lá estava o meu amigo esfregando uma enorme panela cheia de restos de comida. Ele deu uma olhada para trás e viu o senegalês comendo outra fruta, desta vez uma maçã. O Almeidinha, ainda com a panela e a esponja nas mãos, perguntou: "Ei, se você for ficar aí me olhando trabalhar, melhor ir lá pra fora". 

Nisso, o senegalês, que tinha quase dois metros de altura e um corpo digno de um fisiculturista, respondeu: "Estou na minha hora de folga". Pra quê? 

O Almeidinha, que é até atarracado, mas não é maior que eu, que não sou alto, jogou a enorme panela na direção do senegalês. Este ainda conseguiu se desviar, mas uma comédia pastelão se instalou em plena cozinha, pois o Almeidinha, na ânsia de pular no pescoço do colega de trabalho, escorregou e caiu sentado no chão. E, antes que uma tragédia maior acontecesse naquele ambiente cheio de facas, eis que o encarregado apareceu e pôs fim àquela contenda. 

O chefe perguntou que bagunça era aquela, e o meu amigo explicou o ocorrido, já se pondo à disposição para ser despedido. Todavia, para surpresa do Almeidinha, o senegalês é que foi mandado embora. Tudo parecia resolvido, até que o enorme africano olhou para o meu amigo e, com o indicador de uma das mãos, passou no próprio pescoço e disse: "Eu vou te matar!" Logicamente, o Almeidinha tremeu todo de medo, pois percebeu que o seu temperamento de pinscher miniatura havia arrumado confusão justamente com o pitbull do local. Aliás, um pitbull com o tamanho de um fila. 

Seja como for, o senegalês, que havia sido despedido, foi embora mais cedo, o que foi até um alívio para o Almeidinha. No entanto, assim que chegou a sua hora de também ir para o lar, doce lar, o meu amigo percebeu que, do outro lado da linha do metrô que ele pegava, lá estava aquela montanha de músculos esperando por ele. 

O meu amigo, antes do senegalês dar a volta na estação do metrô, entrou em uma linha, que nem era a sua, simplesmente para não tomar uma surra daquelas. E, ao entrar no vagão, para a sua sorte, encontrou um local vazio. Infelizmente, logo percebeu, pela umidade do fundilho da calça, que precisava aprender a controlar seu temperamento impetuoso.
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Eduardo Martínez (1967)
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez), radicado em Porto Alegre, consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. É autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). 
Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum. Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino. Fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 10 de abril de 2022.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

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