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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Gislaine Canales (Tertúlia da Saudade)

 

 1
A minha vida é uma Trova,
trova de ilusão perdida,
pois a vida é grande prova,
que prova a Trova da vida!
2
A minha vida é um romance,
pois sonhando sou feliz...
Eu deixo que o vento trance
os sonhos que eu sempre quis!
3
A mistura de mil cores
e toda a luz do universo,
mais o perfume das flores,
desejo pôr no meu verso!
4
Amor à primeira vista,
foi isso, mar, que eu senti!
Ninguém há que te resista,
quando está diante de ti!
5
A noite recebe a tarde
num momento de magia...
No pôr-do-sol, o céu arde
e tudo vira poesia!
6
A paz mundial é utopia
dizem uns...Não é verdade,
se buscarmos na Poesia
as armas da Humanidade!
7
Aquela ponte que unia
nossas vilas ribeirinhas
une ainda, por magia,
suas saudades e as minhas.
8
A saudade da saudade,
varreu, de mim, a alegria,
levando a felicidade
que eu pensava que existia!
9
As eternas madrugadas
me encontram sempre a chorar.
A vida, cheia de nadas,
não me deixa mais sonhar!
10
A vida é renovação,
(é amor, é sonho e alegria),
é feita só de emoção,
recomeça a cada dia!
11
Cada livro é uma vitória
na memória de um País,
pois nos diz de sua glória
e é, da história, a geratriz!
12
Caminhei pelo infinito,
vaguei por milhões de espaços...
Até lá estava escrito
o meu regresso aos teus braços!
13
Canto as estrelas nos versos,
com minha alma apaixonada...
Vou acendendo Universos...
"Criando luzes...do nada!" 
14
É contrastante a ironia,
nesta verdade contida:
lindo o entardecer do dia,
triste o entardecer da vida!
15
É de ternura o momento
em que o Sol sorri do espaço,
se faz vida e sentimento
e lança ao mar seu abraço!
16
É mais que um deslumbramento
ver o sol nascer no mar,
é mágico esse momento
que vem as águas dourar!
17
Em meu coração alterno
as estações...todo o dia,
tornando, assim, meu inverno,
lindo verão de poesia!
18
"Enganam-se os ditadores"
que pensam poder tirar
do mundo, nós, trovadores
e o nosso jeito de amar!
19
Era da tecnologia
não deve afastar pessoas,
mas uni-las na alegria,
na curtição de horas boas!
20
Era noite e a escuridão
pensou que raiava o dia,
ao sentir com emoção
a luz da tua poesia!
21
Essas algemas partidas
representam liberdade,
salvação de muitas vidas,
e um mar de felicidade!
22
Eu gosto de navegar
nesse mar de azul infindo
formado por teu olhar.
Não existe mar mais lindo!
23
Eu prossigo o meu caminho,
procurando um grande amor,
que me envolva com carinho
e me aqueça com calor!
24
Eu quero poder cantar
meus versos aos quatro cantos,
talvez possa transformar
em risos, todos os prantos.
25
Eu tenho um sonho bonito:
Caminhar por sobre as águas
e ao chegar ao infinito,
esquecer todas as mágoas!
26
Fotos mostrando uma vida,
namoro, noivado e então,
a essência nela cumprida:
os filhos do coração!
27
Letras que formam poesia,
nos abraçam com carinho,
deixam rastros de alegria
em todo o nosso caminho!
28
Lutemos pela conquista
da paz mundial no universo,
numa guerra pacifista,
usando as armas do verso!
29
Menino e o sonho da bola,
pés descalços,  no campinho,
e esse chute desenrola
a visão do seu caminho!
30
Me envolve com mil abraços,
com mil beijos de afeição,
esse mar, de doces braços
com seus lábios de paixão!
31
Meu interior é risonho,
e posso a todos dizer
"que trago um mundo de sonho"
no meu modo de viver!
32
Meus lábios apaixonados
bebem o orvalho dos teus,
desses teus lábios molhados,
que sonham com os lábios meus!
33
Meu verso é meu companheiro
no cenário da ilusão
e o universo, imenso, inteiro,
se torna pequeno, então!
34
Não lembro de ti, passado,
pois, consegui te esquecer;
agora, só tenho ao lado
os sonhos que vou viver!
35
Não posso viver em vão,
eu preciso um filho ter,
plantar em fecundo chão
e um livro bom, escrever!
36
Na Primavera, chegando,
cheia de cor e beleza,
os jovens seguem cantando,
num aplauso à Natureza!
37
Navegando em meu veleiro,
num  mar , assim, tão bonito,
procuro meu companheiro,
nesse meu sonho infinito!
38
Nesta vida tão inquieta,
o meu consolo é pescar.
Sou pescadora-poeta,
que pesca versos no mar!
39
Numa troca de carinhos,
dois sorrisos se irmanaram,
e os dois, antes, tão sozinhos,
juntos, pra sempre, ficaram !
40
Nunca mais fiquei sozinha,
pois na Internet eu namoro
e essa solidão, que eu tinha,
não mora mais onde eu moro!
41
O amor é pura magia
e a ternura da emoção
traduz-se nessa alegria
plantada no coração!
42
O espelho mau me mostrou
algo que eu nem suspeitava…
Agora, eu sou como estou,
e nunca como eu sonhava!
43
Olhando o mar, eu diviso,
a areia branca a esperar
um beijo feito sorriso,
que as mansas ondas vêm dar!
44
Olhava o mar com temor,
numa espera preocupada:
nem peixes…nem pescador!
Tão só o vazio do nada!
45
O magro e a magra dançando…
Osso com osso batia…
E quem estava escutando
pensava ser bateria…
46
O magro era tão magrinho,
magrinho de fazer dó…
seu pijama listradinho
era de uma listra só!
47
O mais bonito sorriso,
que eu ganhei, cheio de afeto,
revelar nem é preciso !
Foi do meu primeiro neto!
48
O mar é o mais doce amante
pois não cansa de beijar,
num lirismo alucinante,
toda praia que encontrar!
49
O meu viver enfadonho,
só de amarguras composto,
põe as rugas do meu sonho
sobre as rugas do meu rosto!
50
O prazo que nós tivemos
para o nosso amor viver,
foi pouco. Nos esquecemos
antes do prazo vencer!
51
O sol dourado se espraia
tão lindo.com seu calor,
por toda a areia da praia
em doces beijos de amor!
52
O trem passando entre flores,
vai a infância recordando,
pai e mãe:  os meus amores...
e nós todos, viajando...
53
O Trovador, com seu sonho,
e sua grande emoção,
desenhou um Sol risonho
na preta poluição!!!
54
O trovador que em verdade,
faz da trova uma oração,
coloca com amizade
“A trova no Coração”!
55
Para mim, não há segredos,
meu mar, de infinito azul,
nós convivemos sem medos,
nas belas praias do Sul!
56
Quando unimos nossos braços,
aos braços de outros irmãos,
sentimos que os nossos laços
enfrentam todos os nãos!
57
Que a paz mundial, que sonhamos,
não seja mera utopia...
Para alcançá-la, vivamos
com muito amor cada dia!
58
Quero cantar pelo espaço
e, nas estrelas, rever
todas as trovas que eu faço.
Trova é prece em meu viver!
59
Sendo a vida embriagante
devemos vivê-la bem.
"Há sempre um mágico instante,"
há sempre um mágico alguém!
60
Sinto a imensa inspiração
desse escultor, se esculpindo,
mostrando, a nós, na emoção
sua  escultura surgindo!
61
Sinto as mãos da solidão
num carinho de verdade,
trazendo ao meu coração,
das tuas mãos, a saudade!
62
"Somos os dois um só mundo",
somos um só, na verdade,
e esse nosso amor profundo,
é mais que amor, é amizade!
63
Sou feliz ao relembrar
que realizei meu desejo...
Como foi bom te beijar!
Como foi bom o teu beijo!
64
Sou pescador de ilusões
e nesse pescar me ponho,
conquistando corações
com os anzóis do meu sonho!
65
Sou tão triste e tão sozinha,
que o eco do meu lamento,
desta saudade tão minha,
escuto na voz do vento!
66
Sozinhas nas madrugadas,
donas do mundo e da lua,
nossas mãos entrelaçadas
seguem juntas pela rua!
67
"Teu beijo pela Internet"
traz amor, traz alegria,
é sempre a melhor manchete
acarinhando o meu dia!
68
"Tua idade não importa,"
se feliz quiseres ser,
pois ao amor, não comporta
ter idade pra nascer!
69
Tudo é tão encantador,
nosso amor é tão bonito,
"que, em cada noite de amor"
ultrapasso o infinito!
70
Um bombeiro consciente,
alto, loiro, bonitão,
apaga o fogo da gente
mesmo sem água na mão!
71
Um gemido de dar medo,
eu ouvi… que coisa estranha!
Cravou o espeto no dedo,
em vez de ser na picanha!
72
Um mundo melhor...queria,
para deixar aos meus netos,
onde imperasse a alegria
numa transfusão de afetos!
73
Um segredo que me assusta:
-Não saber, se após a morte,
há uma vida boa e justa,
que não dependa da sorte!
74
Vamos a vida encantar
com nossa Trova querida,
e na Trova, então cantar,
um hino de amor à vida!
75
Vejo a tua silhueta
na sombra, bem definida,
e abro, em meu peito, a gaveta
de uma saudade escondida!
76
Vivemos juntos, mas sós,
nossa solidão somada
fez de ti, de mim, de nós,
a soma triste do nada!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Gislaine Canales (1938 – 2018)
GISLAINE CANALES foi uma das maiores figuras da vertente literária da trova no Brasil, reconhecida internacionalmente pelo seu empenho em conectar poetas de língua portuguesa e espanhola. Nascida em Herval/RS, em 1938, filha de Sophia Irene e Avelino Canales. Faleceu em Porto Alegre/RS, em 2018, aos 80 anos, vítima de um infarto. Residiu por longos anos e desenvolveu grande parte de seu trabalho cultural em Balneário Camboriú/SC, Formou-se como Bacharel em Pedagogia e Licenciada em Didática. Essa formação como educadora foi fundamental para estruturar sua didática ao coordenar oficinas, concursos literários e organizar movimentos coletivos de poesia. Autodefinia-se como "Poetisa, Trovadora, Glosadora e Pescadora" (com direito a registro oficial de pescadora). Ela dominava a arte das trovas e das glosas. 
Atuou de forma proeminente em diversas frentes acadêmicas e associativas: Foi delegada e presidente da seção de Balneário Camboriú/SC, onde organizou célebres edições dos Jogos Florais; Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (membro titular); Poetas del Mundo: Atuou ativamente como Cônsul. Recebeu inúmeras láureas nacionais e internacionais devido à sua dedicação à difusão da poesia.
A sua grande importância para a literatura reside no papel de internacionalização da trova brasileira. Gislaine usou a internet de forma pioneira para ligar o Brasil a poetas de países vizinhos. Graças ao seu esforço obstinado, os concursos de trovas cruzaram as fronteiras do Brasil, integrando intensamente países de língua espanhola, como a Argentina, Venezuela e Uruguai, criando uma verdadeira rede sul-americana de trovadores. 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Dorothy Jansson Moretti (Tertúlia da saudade)


 A brisa afasta a cortina,
e uma nesga de luar,
fugindo à fria neblina,
vem aos meus pés se abrigar.

A carícia do Nordeste
às lindas praias morenas
é magia que reveste
as suas noites serenas.

Acorda a nossa consciência
o drama da moto-serra
que mesmo em sua inocência,
sela o destino da Terra.

A existência é definida
não por azar, mas por sorte:
quanto mais cheios da vida,
mais perto estamos da morte.

- Ai, doutor, não acredito...
Picada por um "barbeiro"?
Veja só, pois o maldito
me disse que era engenheiro!

A lua, em passo indeciso,
muda o andante da sonata,
pondo pausas de improviso
no pentagrama de prata.

A nova rica não topa
sugestão de amigo seu.
Diz que não vai para a Europa
porque não fala europeu.

"Ao céu vai o bem dotado.
E o criminoso aonde vai?"
Diz o filho do advogado:
"Não sei... isso é com meu pai..."

Após trabalho incessante,
num pipilo, o passarinho
anuncia, triunfante,
a festa de um novo ninho.

A rosa, o lírio, a violeta
dão o tom com seus olores,
e o jardim abre a retreta
em sinfonia de cores.

A roseira solferina
num cantinho do jardim,
guarda os sonhos da menina
que o tempo mudou, em mim.

Até por gênios deixada,
a floresta a vida encerra,
e deserta, devastada,
sela o destino da Terra.

Bem outro seria o clima
se em tantos gritos cruzados,
fosse ouvida, lá de cima,
a prece dos desgraçados!

Cheguei tarde para a festa...
De véu, grinalda e um sorriso,
ela é a imagem que me resta
de um pretenso paraíso.

Dizemos que o tempo voa,
e enquanto filosofamos,
ele vive aí, à toa,
e somos nós que voamos.

Dizem que amas de mentira,
mas gosto de acreditar,
e até que um dia eu confira,
vou-me deixando enganar.

Do coveiro, a noiva, rente
É tão magra o estrupício
Que ele diz: "Literalmente:
Casei com os ossos do ofício."

Do que agitou nossas almas,
restam sonhos calcinados,
cingindo as crateras calmas
de dois vulcões apagados!

Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.

Em cada tarde a cair,
vejo a vida em agonia,
aos poucos se despedir
na morte de mais um dia.

Envolto em nívea camada,
sonha, em repouso, o jardim.
Vem o sol, derrete a geada…
Negro, o sonho chega ao fim.

- Este bolso é meritório,
nunca viu nada roubado!
Perguntam lá do auditório:
- Terno novo, Deputado?

Eu me faço de blindado.
Amor? Bobagem... Pieguice...
Meu medo é que, apaixonado,
eu me envolva na tolice.

Fala a gota que se esconde
no cálice de uma flor;
fala o mar, tudo responde,
quando fala o Criador,

Garoto à fome minguando,
na calçada sentadinho,
e o vendedor apregoando;
"Olha gente, o pão quentinho!”

Guardo os bons tempos da vida,
e os maus procuro esquecer,
mas a memória, atrevida,
teima em roubar-me o prazer.

Guri do boné virado,
estilingue... palavrão...,
hoje, vigário ordenado: –
Pax vobiscum, meu irmão! 

Irrequieto, o molecote,
no jeitinho turbulento,
parece um mini-quixote,
perseguindo um cata-vento.

Matuto filosofante
vendo filme que arrepia:
“E esse era o ”inferno de Dante...”
“Imagine o de hoje em dia!”

Meus pobres sonhos, tão fracos,
a vida em escombros fez,
mas, teimosa, eu junto os cacos...
e eis-me sonhando outra vez!

Na capelinha da aldeia,
os contornos esfumados
brilham à luz da candeio
da fé dos seus devotados.

Na praça, neste banquinho,
passou correndo a amizade;
sentou o amor, só um pouquinho,
ficou pra sempre a saudade.

Nas águas de um turvo horrível
espelha-se um céu cinéreo,
onde a ganância, insensível,
já pôs também seu império.

Na taça de cada dia,
a transbordar de amargura,
cai um pingo de alegria,
e o fel se torna doçura.

Nem sonhos maus acontecem
nas noites mais tormentosas.
Se teus abraços me aquecem,
durmo num leito de rosas.

No mar a lua se espelha,
mas o gigante, enciumado,
reduz a cocos de telha
o lindo disco prateado.!

Nossa terra e a terra lusa,
na doce língua que as liga,
são cordas nas mãos da musa,
cantando a mesma cantiga.

Num estranho automatismo,
lá do fundo, os meus gemidos
voltam ò tona do abismo,
procurando os teus ouvidos,

O amor, ao termo da vida,
deixa na pauta apagada
uma só nota sentida,
canto de cisne... mais nada.

O cara dentro do armário
diz: “Não é o que você pensa”...
“Eu já sei”, responde o otário,
“o gajo é o lá da despensa”.

Ora eloquente, ora mudo,
teu olhar é uma charada:
promessa sutil de tudo,
no fútil revés de um Nada.

Os erros que fiz na vida
quero apagar sem alarde
mas, a consciência revida
e, aos brados, me diz: é tarde!

O sol, cumprida a rotina,
cerra o painel em que atua,
some por trás da colina
e abre o portão para a lua.

Pancada de chave inglesa
amontoou o Garcês,
que para a própria surpresa,
acordou falando inglês!

"Para sempre!" Será mesmo?
Não importa a duração;
é promessa feita a esmo,
mas aquece o coração.

Parecemos - tu chorando
e eu num discreto lamento -
dois violinos ensaiando
a charanga atroz do vento.

Por que é que eu te chamo, Nei,
de 'porquinho' ... faz favor?
É que ainda eu não cheguei
ao tamanho do senhor...

Presença eterna do ausente,
perfume em frasco vazado,
saudade é sombra incoerente
num coração apagado.

Quando me entrego ao passado,
sinto-o tão perto e envolvente,
que – esquecido e enevoado –
longe de fato... é o presente.

Que bela seria a vida
se, acima de ódios mortais,
uma ponte fosse erguida
unindo margens rivais!

"Que tanto estudas, Leal?"
"Geografia, Seu Garcês."
"Humm... e onde está Portugal?"
"Na página cento e três."

Se enfrento a agressão do frio,
do gelo pelos caminhos,
é porque me refugio
sob o sol dos teus carinhos.

Se me abrigo no teu braço
das noites na travessia,
até da insónia, o cansaço
torna doce a companhia.

Sem motivo, sem palavra,
no adeus insinuado em calma,
deste o golpe que escalavra
os pilares de minha alma.

Sinto, e é quase transparente
que estás a te divertir,
mas falta ao meu ser carente
coragem pra conferir.

Somos tão bem afinados,
que, em termo gramatical,
podíamos ser chamados
"encontro consonantal"!

Talvez um simples "Bom dia"
dito em casual diapasão,
seja a nota de alegria
que faltava ao teu irmão.

Tecendo trovas ao vento
nascidas do coração,
num pouco de luz e alento,
Eu disfarço a solidão.

Toda enfeitada, a capela
faceira põe-se a esperar
de algum artista a chancela
que a venha imortalizar.

Trem-de-ferro, o teu apito
lembra-me um sino plangente:
tanta mágoa no teu grito,
tanta saudade na gente!”

Triste e sozinha eu me deito,
mas encontrando um desvão,
a lua invade o meu leito,
e afugenta a solidão.

Uma certeza me encanta
e traz minha alma aquecida:
Se o orvalho reanima a planta,
a fé é o orvalho da vida.

Vendo, em mudo sofrimento,
a vida me desertar,
entendo, enfim, porque o vento
se recusa a silenciar.

Você, absurda e volúvel,
que ora quer, ora recusa,
é, o grande enigma insolúvel
em minha vida confusa.

"Vovô, feche os olhos já!
Vi papai dizendo à Guida
que quando você fechá,
vamo ficá bem de vida!”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Dorothy Jansson Moretti (1926 – 2017)
DOROTHY JANSSON MORETTI foi uma das mais refinadas e importantes poetisas e trovadoras da literatura paulista e brasileira. Amplamente respeitada no meio literário, destacou-se pela maestria em formas poéticas fixas, em especial o soneto e a trova, além de sua profunda dedicação à preservação histórica e cultural. Nasceu em 1926, em Três Barras/SC, filha do renomado fotógrafo sueco Claro Jansson (cuja obra documental é essencial para a história da Guerra do Contestado). Faleceu em 2017, em Sorocaba/SP, aos 91 anos de idade. Mudou-se para Itararé/SP com apenas dois anos de idade. Mais tarde, residiu no Paraná, passando por cidades como Castro e Londrina. Em 1956, radicou-se definitivamente em Sorocaba/SP, onde passou a maior parte de sua vida. Formou-se em Letras na capital paulista e atuou por muitos anos como professora de Inglês. Escreveu artigos, crônicas e poesias de forma assídua para jornais e periódicos das cidades onde morou, incluindo O Itararé, O Guarani e os jornais sorocabanos Cruzeiro do Sul, Diário de Sorocaba e Folha de Sorocaba. Também atuou fortemente na preservação e divulgação do acervo fotográfico de seu pai sobre o sul do Brasil.
Começou a escrever aos 16 anos, focando inicialmente em acrósticos. Com o tempo, desenvolveu uma técnica refinada para o soneto e para a trova. Teve uma faceta marcante como autora de hinos. É dela a autoria da letra do Hino Oficial do Município de Itararé (musicado por Gerson Gorski Damaceno). Livros Publicados: Entre suas obras individuais e participações em antologias, destacam-se: Chá da Tarde (2006) – Livro dedicado exclusivamente a trovas; Instantâneos (2012). Foi um nome central no associativismo literário do interior paulista, vinculando-se a várias instituições importantes: Além da entidade troadoresca a Associação Paulista de Imprensa (API). Participou ativamente dos movimentos e academias literárias locais de Sorocaba e região, promovendo saraus. Recebeu a honraria na categoria "Poesia" pelo seu livro Chá da Tarde em Sorocaba. 
    A importância de Dorothy reside ao manter viva a trova, ao compor o hino de Itararé e colaborar ativamente com a imprensa do interior, Dorothy consolidou-se como um pilar de identidade cultural paulista e regional, unindo sensibilidade lírica com amor pela terra.  

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Vânia Ennes (Semeando trovas)

 

1
Acalmar gesto impulsivo
num conflito sem razão:
Medicinal... curativo...
é a humildade e o perdão!
2
A Curitiba hibernosa.
aumenta a temperatura.
Se aquece com verso e prosa
a Capital da Cultura!
3
Água límpida é preciosa
para o planeta, vital;
pura, líquida ou gasosa,
tesouro fundamental.
4
Afinal, eis a questão:
achei um rico alimento…
Somos gêmeos na emoção:
teu amor é o meu sustento.
5
Amor, um santo remédio,
que revitaliza e cura.
Livra-nos de qualquer tédio,
também nos leva à loucura.
6
Apesar da longa ausência,
sinto a sua vibração…
que marcou minha existência
e tatuou meu coração!
7
As melhores gargalhadas
chegam sempre de repente
em cenas abobalhadas
e tomam conta da gente!!!
8
As odes altissonantes,
vêm louvar o pinheiral
do Paraná verdejante
na minha terra natal.
9
Brasil, samba e carnaval
e os foliões tomam conta,
da festa descomunal,
quando a “escola”, enfim, desponta!!!
10
Carnaval e o “bicho pega”!
Batuque e samba no pé,
e a galera não se entrega,
sapateia e dá olé…!!!
11
Causador da minha insônia,
motivo do meu sorriso,
sem nenhuma cerimônia...
me transporta ao paraíso!
12
Com alma verde e amarela
o meu coração febril,
com muito orgulho revela,
o Trovador do Brasil.
13
Depois de uma noite calma,
numa manhã de verão,
no céu anjos esperavam
recebê-la em oração!
14
Descontraia sua testa,
sorrir é grande investida!
Quem transforma a vida em festa
vence tensão reprimida!
15
Desenvolvendo a pesquisa
para o ensino do saber
o professor realiza
evolução no aprender.
16
Desfilou lá na Avenida
Marquês de Sapucaí,
bebeu tanto, sem medida,
que acordou na UTI !!
17
Destemido e dedicado,
companhia cativante.
Com meu pai sempre ao meu lado,
sou forte como um gigante!
18
Dissipando a incerteza,
ânsia e conhecimento
o livro, vasta riqueza:
esclarece cem por cento!
19
Dormi… e sonhei contigo
na praia, com lua cheia!
Foi delírio, hoje prossigo
te procurando na areia!
20
Dos meus tempos de experiência,
na vida, trânsito e estrada,
deixo aqui uma advertência:
respeito… não custa nada!
21
Educação e cultura,
seriedade e competência
é alvo certo de ventura
que aguardamos com urgência!
22
Em tédio avassalador
daqueles que não têm cura,
num minuto o Trovador
transforma tudo em ventura!
23
Encantada olho os pinheiros,
formosos! Iguais? Não há.
Dos poetas são os parceiros
Que versam o Paraná!
24
Equilíbrio, um dom da vida,
dos sábios, grande virtude
junto a afeição consolida,
seu poder de plenitude.
25
Eu não mudo de país,
nem de cidade ou estado,
porque aqui sou bem feliz...
exatamente... ao teu lado!!!
26
Fazer da vida uma festa
é atitude que fascina.
Vamos rir! A hora é esta!
O bom humor contamina.
27
Fim de tarde, sol já posto…
Chega a noite enluarada,
satisfazendo o meu gosto,
consagrando a madrugada!
28
Força e coragem, criança,
a vida sorri lá fora…!
O estudo será a poupança
e há de chegar sem demora!
29
Hoje órfã de seu afeto,
carente de seu carinho,
queria você por perto...
a iluminar meu caminho!
30
Mãos que orientam crianças,
seja na escrita ou leitura,
mostram sinais de alianças
de nobreza e de ventura!
31
Mesmo impaciente ou cansado
não descuide do volante
que a vida, este bem sagrado,
pode acabar... num instante!
32
Meu jogo, audaz e exigente,
encara a carta que der,
mas com você, frente a frente…
jogo charme de mulher!
33
Minha mãe com maestria,
vibrou forte de emoção,
quando em tarde de magia
fez pulsar meu coração!
34
Navegam os trovadores
em e-mails de ilusões,
computando riso e dores,
conectando as emoções!!!
35
Numa transfusão de afeto,
basta só abrir os braços
e o coração indiscreto,
se entrega sem embaraços!
36
Nunca morre o trovador,
se afasta fisicamente…
Sobrevive trova e autor,
no dia-a-dia da gente.
37
O coração destemido
transcende qualquer razão,
quando decide, incontido,
confessar a rendição!
38
O elemento H2O
Fonte de vida e energia,
vale mais do que ouro em pó.
Nossa maior loteria!
39
O que sei da faculdade,
das viagens e coisas mais
não representa a metade
do que aprendi com meus pais.
40
Pelos sonhos que dá,
Trova já virou mania...
e... infestou o Paraná...
... Numa “culta” epidemia!!!
41
Posso ver do meu terraço
na escuridão do infinito,
quando a lua abre espaço...
E dá seu show favorito!
42
Quando sopra o vento sul,
a trova viaja e vai fundo.
Seu caminho é o céu azul…
Espalha-se pelo mundo!
43
Quem se concentra no estudo
vence o mundo, sem esquema.
Leva consigo um escudo:
- Enfrentar qualquer problema.
44
Que o natal traga a engrenagem
da paz… do amor… da magia,
unindo o sonho à linguagem,
ao mundo azul da poesia…!
45
Que o Trovador lá de cima,
nosso vate preferido,
mostre o bem, o amor, a rima
e o seu rastro a ser seguido!
46
Quero um planeta perfeito,
sem guerra, sem corrupção.
Povo justo e satisfeito,
respeitando seu irmão!
47
Reconheço que a razão
me exerce extremo fascínio,
mas, se acerta o coração…
perco o rumo e o raciocínio!
48
Romântico e apaixonado,
meu pensamento flutua,.
vai ao céu... volta zoado:
Vive no mundo da lua!
49
Saudade vive e contesta,
me acorda de madrugada,
faz lembrar-me o fim da festa…
o beijo… e a noite estrelada!
50
Se falta a luz ou calor,
para isso tem saída...
Só a falta do teu amor
me apaga e congela a vida!
51
Sem escolha, oficialmente,
chegou lá, na luz de Deus.
Foi em paz… Solenemente…
Reencontrar com os seus!
52
Seu forte olhar, penetrante...
me acelera o coração.
O seu perfil estonteante
ofusca a minha visão.
53
Sob o feitiço do mar,
o poeta assim diria:
-É propício pra sonhar,
mas, sem você... que ironia!!!
54
Sou mulher, luto, decido,
sei de cor muitos poemas,
mas com seu beijo atrevido
esqueço até dos problemas!
55
Surge atrevida a saudade,
sem alarme e sem aviso,
ataca qualquer idade...
Se acaba com teu sorriso!
56
Tão doce e bem-humorado,
meu Pai, por suas virtudes,
deixou-me grande legado
nas palavras e atitudes.
57
Tendo um bom livro na mão,
alço voo... crio asa.
Mando embora a solidão...
Sem sair da minha casa…
58
Trovador por excelência,
tem nas veias o otimismo:
faz as trovas com sapiência,
e dá lições de altruísmo!
59
Vai ano velho, de vez,
leve o mal e o duvidoso,
que o Ano Novo em rapidez,
há de ser mais generoso!
60
Vence valores, de fato,
quando em meio à discussão,
se revolta de imediato,
mas, na ofensa… dá o perdão!!!
61
Vou dormir porque preciso
com você, mamãe, sonhar,
e sonolenta analiso:
não vou querer acordar!
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Vânia Ennes 
VÂNIA MARIA SOUZA ENNES é uma das figuras contemporâneas mais ativas do movimento trovadoresco e do cenário cultural do Paraná. Vinda de uma tradicional linhagem de intelectuais e poetas curitibanos, ela se destaca tanto na administração cultural quanto na criação poética. Nasceu em Curitiba/PR. Tem forte ligação histórica e afetiva com o ambiente cultural da capital paranaense (especialmente o histórico "Chalé da Marechal", residência de seus avós intelectuais). Possui uma sólida carreira na área administrativa e empresarial. Graduou-se em Administração de Empresas (com habilitação em Comércio Exterior) e também em Direito. Fez pós-graduação em Língua Francesa na França. Atuou fortemente no meio corporativo e foi diretora da empresa Capríssima Indústria e Comércio de Cosméticos Ltda. Exerceu papéis de liderança civil, como coordenadora na Business Professional Women (BPW), conselheira municipal da Condição Feminina e vice-presidente da Sociedade Eunice Weaver do Paraná.
Filha da poetisa Ariane Maria França de Souza e neta do ilustre intelectual Heitor Stockler de França (um dos fundadores do Centro de Letras do Paraná) —, ela começou muito cedo. Publicou seu primeiro poema em jornal aos 9 anos. Sua trajetória institucional inclui: Teve papel de liderança máxima regional, atuando como presidente da UBT - Seção Curitiba por três gestões consecutivas e também como presidente da UBT no âmbito estadual do Paraná; Membro atuante do Centro de Letras do Paraná.
Prêmio Pablo Neruda dos Direitos Humanos; Medalha de Mérito Fernando Amaro (concedida pela Câmara Municipal de Curitiba por relevância cultural); Vencedora do Concurso Internacional de Trovas Brasil-Portugal (promovido pelo Elos Clube Internacional); Top Comercial (Associação Comercial do Paraná) por sua atuação corporativa; Diversos diplomas e premiações em concursos nacionais e locais de Trovas. Livros Publicados: Paraná em Trovas – Coletânea/antologia de trovas paranaenses organizada em três edições; Chuva de Trovas – Obra poética própria disponibilizada em formato de e-book; Livros de pesquisa genealógica (publicou quatro volumes dedicados à história de famílias tradicionais).
A importância de Vânia Ennes para a literatura se concentra em duas frentes: preservação histórica e revitalização do movimento trovadoresco. Como herdeira cultural de Heitor Stockler de França, ela atua como uma guardiã da memória literária do Paraná. No campo da trova, sua dedicação garantiu a continuidade dos tradicionais Jogos Florais, abrindo espaço para novos trovadores e organizando antologias cruciais, como o Paraná em Trovas, que mapeiam e registram a produção poética contemporânea da Região Sul. 

Sites consultados = Centro de Letras do Paraná (facebook), Colaboração da Trovadora, Portal Cá Estamos Nós, Gazeta do Povo, Oceano de Letras, etc.