Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Aparício Fernandes (Trovas Mistas e Trovas Bipartidas)

(foi mantida a grafia original)
  
       Embora não constituindo categorias distintas, há trovas que apresentam particularidades curiosas quanto à sua mensagem e, mais raramente, quanto à origem. Estão neste caso as trovas mistas e as trovas bipartidas. Trovas mistas são aquelas que, pela sua mensagem, são, ao mesmo tempo, líricas e filosóficas, filosóficas e humorísticas, humorísticas e líricas e até mesmo lírico-filosófico-humorísticas. Não há mistério algum, pois a idéia contida numa trova pode exprimir simultâneamente essas três nuances do sentimento. Vejamos um exemplo de trova mista lírico-filosófica. É de autoria do consagrado trovador Orlando Brito:

Até num êrro há nobreza,
se com teu pranto o reparas,
— Mesmo a lama tem beleza
no fundo das águas claras...

         Com efeito, se os dois primeiros versos pregam um conceito filosófico, os dois versos finais nos oferecem uma comparação de grande delicadeza poética, revestida de encantador lirismo.
         Belmiro Braga nos proporciona um exemplo perfeito de trova mista filosófico-humorística:

Quanta vez, junto ao jazigo,
alguém murmura de leve:
– "Adeus para sempre, amigo"
E o morto diz: – "Até breve!..."

         Antônio Sales, um dos grandes trovadores brasileiros do começo do século, é o autor desta trova mista lírico-humorística:

Se as santas no paraíso
possuem os teus encantos,
eu fico muito indeciso
sôbre a virtude dos santos...

         As trovas mistas de mensagem tríplice, lírico – filosófico – humorísticas são, naturalmente, mais raras. Como exemplo, citaremos duas trovas. A primeira é de autoria de Lindouro Gomes; a segunda, de
Petrarca Maranhão:

A tua jura não passa
de falsidade patente:
– engana como a cachaça,
que alegra tombando a gente.
______
Eu pergunto muito a mêdo,
quase a sentir-me covarde:
– nasceste por demais cedo,
ou fui eu que nasci tarde?

         As trovas bipartidas (pela mensagem) são aquelas que nos dois primeiros versos exprimem uma idéia, e nos dois versos finais outra coisa muito diferente. Entre os dois pensamentos não há qualquer relação. São desconexos e, muitas vêzes, disparatados. Essas trovas, que comumente são populares anônimas, têm a sua graça, sua brejeirice. Eis um exemplo:

Debaixo daquela ponte
passa boi, passa boiada.
Quero que você me diga
se vai ser a minha amada.
continua… Trovas Mistas
Fonte: Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de Janeiro/GB: Artenova, 1972

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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