Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 12 de junho de 2016

Sérgio Alves Peixoto (São Francisco de Assis e a Poesia Brasileira) Parte 1


Fernando Sabino nem se lembrava. Mas em 1932, 
com 7 anos de idade, ele fez um poema dedicado a 
São Francisco de Assis. No texto, descoberto por 
um amigo mineiro, dizia que queria ficar amigo de 
verdade do santo. Tão íntimo que passaria a chamar 
São Francisco de “Chiquinho” e o santo trataria Sabino 
de “Nandinho”.

Conhecido, também, como São Francisco das Chagas e São Francisco Seráfico, São Francisco de Assis é um dos santos católicos mais populares da cultura brasileira. Sendo assim, não é de se estranhar que poetas escrevessem sobre ele ou, até mesmo, com ele se identificassem, já que o Santo também, diz mais a lenda do que a verdade histórica, foi poeta. 

Na pesquisa que fizemos, encontramos duas biografias do santo: uma, em prosa, e dedicada à juventude, do alagoano Jorge de Lima, escritor do nosso modernismo; outra do mineiro Augusto de Lima, em forma de um longo poema.  Os trovadores brasileiros o elegeram como patrono e, na Literatura de Cordel, sua pobreza e sofrimento são temas recorrentes do imaginário do povo nordestino, como atestam a romaria e os festejos de Canindé, no Ceará.

Do trovadorismo, selecionamos a seguinte “interpretação” de autor desconhecido da famosa “Oração de São Francisco”:

1-Faze-me agente, Senhor, 
De vossa radiosa Paz! 
Permiti que eu leve Amor, 
Onde o ódio esteja a mais... 

2-Por onde estiver a Ofensa, 
Que eu leve sempre o Perdão... 
Onde houver Discórdia, intensa, 
Que eu sempre faça a União. 

3-Onde a dúvida existir 
Que eu possa levar a Fé, 
E onde o erro persistir, 
Toda a Verdade da Sé. 

4-Ó Mestre-Amor singular, 
Concedei seja meu fado, 
Consolo a todos levar, 
Mais do que ser consolado. 

5-E que eu possa Compreender, 
Mais do que ser compreendido. 
Possa AMAR, com todo o Ser, 
Muito mais que ser Querido. 

6-Pois, dando é que se recebe, 
Ao irmão necessitado, 
Perdoando é que se percebe 
Que também se é perdoado. 

7-Dai-me Senhor, a Esperança, 
Pela maneira mais terna, 
Pois morrendo é que se alcança 
A glória da Vida eterna

Quanto à Literatura de Cordel, descobrimos o seguinte texto de Wellington Vicente: 

Giovanni Bernardone 
Foi jovem muito feliz 
E enquanto adolescente 
Fez da vida o que bem quis, 
Por “Francesco” apelidado, 
Depois, por Deus transformado 
Em Francisco de Assis. 

Em mil, cento e oitenta e dois 
Nasceu este italiano, 
Pietro e Picca Bernardone 
Foram pais deste ente humano, 
Que numa lição de amor, 
Rejeitou ser mercador 
Para seguir outro plano. 

Como era moda na época, 
Desejou ser cavaleiro, 
O pai doou-lhe armadura 
E um cavalo ligeiro, 
Ele daí animou-se, 
Neste instante transformou-se 
Num combativo guerreiro. 

Combatendo com Perugia 
Assis não via os perigos 
E mandava seus habitantes 
Enfrentar os inimigos, 
Nesses confrontos guerreiros, 
Fizeram prisioneiros 
Francisco e alguns amigos.

Assim Francisco passou 
Quase um ano na prisão, 
Mas seu pai, homem abastado, 
Decidiu entrar em ação: 
Gastou enorme quantia 
Mas livrou da enxovia 
Seu filho do coração. 

Numa noite em que estava 
Com seus amigos na rua 
Fazendo uma serenata 
Sob a beleza da lua, 
Sentiu que algo o tocava 
E bem sutil penetrava 
No fundo da alma sua. 

A partir deste episódio 
Nasceu Francisco de Assis 
O pai de toda a pobreza, 
Protetor do infeliz, 
O amante dos animais, 
Inspira a quem sofre mais 
A uma vida feliz. 

Oitenta anos após 
Cabral descobrir a gente, 
A Ordem dos Franciscanos 
Radicou-se em São Vicente, 
Com um pensamento nobre: 
Transformar o homem pobre 
Em cristão bem diferente. 

Dali pra outros Estados 
A ordem se espalhou, 
Inspirada no seu Mestre 
E no que ele pregou: 
A justiça, dignidade, 
Compreensão, caridade, 
Pelas quais tanto lutou.

Os devotos de São Francisco 
Quando se acham doentes, 
Imploram pelos milagres 
Do Santo dos Penitentes, 
Ele, com sua bondade, 
Retira a enfermidade 
Do corpo desses viventes. 

Inspirados em Francisco 
E nas leis da Santa Sé, 
Transformaram as romarias 
Numa Profissão de Fé, 
Onde a maior louvação 
Percebe-se na procissão 
Existente em Canindé. 

Por são Francisco das Chagas 
Este Santo é conhecido, 
Pois Canindé lembra bem 
O mal por ele sofrido, 
Quem se achar adoentado, 
Pedindo será curado 
Por este Santo querido. 

Em Porto Velho, Rondônia, 
Este Santo é venerado: 
Dia 4 de outubro 
É esse dia marcado, 
Onde o povo em cada canto 
Reza, agradecendo ao Santo, 
Mais um milagre alcançado. 

Mas ao falar em Francisco 
Sinto-me na obrigação 
De relembrar seus discípulos:
 Bernardo, Pedro e Leão, 
Filipe, Egídio e Rufino, 
Clara, no mesmo destino 
De Masseo, na pregação.

Seja de Assis ou das Chagas 
É o Santo mais popular, 
Quem for devoto que reze 
Pra nosso mundo mudar: 
Mais justiça social 
E a consciência geral 
Do perigo nuclear. 

Para a paz reinar nas ruas 
E pra chover no sertão, 
Pra melhorar da coluna 
E curar-se do coração; 
Quem pediu foi atendido, 
É isto que tem trazido 
Milhares à procissão. 

Como o provo brasileiro 
Tem fé e convicção, 
Roga ao Santo que auxilie 
Nas horas de aflição, 
Porto Velho ou Canindé: 
Irmanados pela fé, 
Unidos na devoção. 

Porto Velho – RO, outubro de 1996. 

continua...

Fonte:
Revista do Centro de Estudos Portugueses. v. 29, n. 42. Belo Horizonte/MG: UFMG, jul./dez. 2009.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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