Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sérgio Alves Peixoto (São Francisco de Assis e a Poesia Brasileira) Parte 2


A poesia brasileira “erudita” também acolheu São Francisco. Se começarmos pelo Barroco, quando a literatura brasileira passa a existir como tal, vemos que, por exemplo, Botelho de
Oliveira a ele dedicou um soneto, seu livro Lira sacra . Um soneto blasfemo, como gostavam os barrocos, já que Botelho vê, no sofrimento do santo, sofrimento maior que o do próprio Cristo:

A São Francisco 

Soneto XV 

Excelso patriarca que ordenastes 
Melhor arca no mundo em graças certas 
Se esta foi ordenada em três cobertas 
A vossa com três ordens fabricastes. 

Como a paixão de Cristo tanto amastes 
Vos deu no corpo as chagas descobertas 
E estando vivas nele, estando abertas, 
No mesmo Cristo em Cruz vos transformastes. 

Tivestes melhor Cruz que Cristo amado 
Nesta impressão das chagas, porque nisto 
A Cristo pareceis avantajado. 

Visto pois o favor, o empenho visto, 
Cristo em um lenho foi crucificado, 
Francisco foi crucificado em Cristo. 

De Humberto de Campos, poeta parnasiano hoje totalmente esquecido, selecionamos a passagem em que São Francisco fala às aves, excerto do longo poema sobre o qual falamos acima. Neste trecho, São Francisco “passa um sermão” nas aves, que, parece, não dão valor à felicidade que têm, principalmente quando se assiste a tanto sofrimento humano:

O apóstolo das aves 

No cimo do Subásio, ante a áspera caverna, 
Em lugar que somente o sol visita e banha, 
São Francisco de Assis sonha a vida ampla e eterna 
Falando ao céu azul e às cousas da montanha.

Ante a morte do Sol fecha as asas o Dia. 
O Vale, em derredor, é um turíbulo que arde; 
Sobem, leves, da terra, entre a diurna agonia, 
A alva bruma da fonte e os suspiros da Tarde. 

São Francisco, entretanto, a loura barba ao vento, 
Olhar vago, a beber o fogo o horizonte, 
Mandando a asas e céus a voz e o pensamento, 
Continua a pregar aos pássaros do monte. 

Para ouvi-lo falar, tudo em roda se aquieta; 
O vento, ainda a fugir, atenta o ouvido, e escuta. 
A ave pára; a flor cisma; e aos seus surtos de poeta, 
Trepida o coração da própria pedra bruta. 

E ele fala, a voz doce: “Asas, irmãs desta alma, 
Aves que me escutais neste alto de montanha, 
Sede boas, cantai e amai, na vida calma 
A árvore que vos dá fruto e a áurea luz que vos banha. 

Sede humildes, e amai; a árvore anosa e o ramo 
Do arbusto fraco, amai; amai a terra, cheia 
De doçura e de paz; e amai, como eu vos amo, 
A água que Deus dá à fonte e o grão que Deus semeia. 

E amai-vos. A ninguém, Deus, o senhor do Espaço, 
O criador do que hoje há nas águas e arvoredos, 
Como a vós, dando a fronde, ergue um lar com o seu braço 
E o alimento vem dar nas pontas dos seus dedos. 

Olhai o homem rebelde, olhai o tigre, a fera 
Sanguinária; acordai na alta noite tristonha, 
E escutai o subir da queixa humana e austera, 
As palavras de Dor do homem que vela ou sonha. 

Escutai: tremereis ante o clamor que expande 
A angústia humana; e haveis de abençoar a humildade, 
Vendo, enfim, como é bela, alta, límpida, grande, 
Junto à mágoa dos mais, vossa felicidade.

Por que os homens não são como vós sois? A gruta 
Não seria, talvez, lar mais doce e risonho 
Que o castelo e o palácio, onde morrem na luta 
Que destrói todo Amor, que extingue todo sonho? 

A mão sábia que abriu este velário pela 
Altura, e a árvore pôs sobre o solo atro e bruto, 
Se a terra tinha luz, por que pôs no alto a estrela? 
E se o sangue é melhor, por que a bênção do fruto? 

Não sereis, porventura, aves do espaço, amando 
E cantando pelo ar, mais que os homens, felizes? 
Pois, se tínhamos nós de viver batalhando, 
Por que o ramo dá sombra e o tronco tem raízes? 

O homem morre faminto, e vós, no entanto, vede: 
Cantando a Sua glória e exaltando o Seu nome, 
Já vistes um pardal a queixar-se de sede 
Ou um frágil rouxinol expirando de fome? 

Doces aves do céu, amai, portanto, a Vida, 
Louvai, portanto, a Deus, que vos dá, neste monte, 
Grande e anônimo, a abrir a ampla mão comovida, 
A luz do sol, o grão da terra, a água da fonte!...” 

E, assim, transfigurado, a loura barba ao vento, 
São Francisco, a surgir da luz que o envolve e o banha, 
Mandando a asas e céus a voz e o pensamento, 
Continua a pregar às cousas da Montanha...

O momento simbolista no Brasil, nos deu, por exemplo, dois poemas “franciscanos”. O primeiro deles, um soneto de Durval de Moraes, tematiza os estigmas no Monte Alverne:

São Francisco 

Mãos e pés a sangrar; o flanco, aberto; o gosto 
Do fel no coração, e na alma a solitude... 
À bruta bofetada, impassível o rosto! 
O espírito sereno, ante o insulto mais rude! 

O escarro, a negação, o abandono, o desgosto: 
Dá-me tudo, Senhor, para que se transmude, 
Na minha alma de vil, a amarugem do mosto 
Fervente do Pecado, em vinho da Virtude!... 

São Francisco, chorando, em êxtase exclama. 
Desce, para colher-lhe as pérolas do pranto, 
Vibrante Serafim de seis asas de chama! 

Jardineiro do Amor, que abre em flores as fragas, 
Jesus vinha plantar pelo corpo do Santo 
O celeste rosal das Suas Cinco Chagas!

O segundo, poema à la Rimbaud de Pethion de Vilar, intitulado “Poema das Vogais”, insere o sofrimento de São Francisco quando vai “colorir” a vogal U: 

U – lúgubres clarões agônicos de enxofre; 
Cor do Mistério; cor das paixões sem consolo; 
Soluço há muito preso, estourando de chofre; 
Último beijo, olhar vesgo e triste de goulo. 

Olheiras de Saudade; olheiras de Ciúme; 
Chagas místicas de S. Francisco de Assis; 
Clangores d’órgão que poeta algum resume; 
Desilusões de amor que nenhum verso diz.

continua...

Fonte:
Revista do Centro de Estudos Portugueses. v. 29, n. 42. Belo Horizonte/MG: UFMG, jul./dez. 2009.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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