Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 25 de junho de 2016

Contos Populares Portugueses (Os Dois Amigos)

Dois casais de lavradores, muito amigos, tiveram dois filhos nascidos no mesmo dia - uma das crianças era muito boa, a outra tinha um caráter muito mau. No entanto, eram ambos amigos. Entraram no mesmo ano ao serviço militar.

O mau, depois de estar na praça seis meses, começou a desinquietar o bom para ambos desertarem. Este quis dissuadir o amigo e afinal acedeu, e ambos desertaram mesmo. Levavam nas marmitas o rancho do dia.

Depois de andarem muito tempo perdidos pelos matos, foram descansar sob uma árvore. O mancebo bom tirou da sua marmita o rancho e ambos o comeram a meias. Adormeceram depois, acordando já tarde, e seguiram o seu caminho, fugindo sempre das estradas, com receio de serem presos.

No dia seguinte, quase ao sol-posto, foram descansar sob uma árvore. O mancebo mau tirou da sua marmita o rancho e pôs-se a comê-lo sozinho.

- Não me dás do teu rancho?

- Não - respondeu o mau.

- Mas eu dividi o meu rancho contigo.

- E eu dou-te um bocado de pão se me deixares tirar-te um olho com a ponta da minha navalha.

Estranhou o companheiro tal proposta, mas, como tinha muita fome, deixou tirar um olho a troco de uma fatia de pão. Mais logo deixou tirar o outro por idêntico motivo. E o mariola, depois de ver o companheiro cego, desamparou-o.

O infeliz ficou por algum tempo junto da árvore; depois, porém sentindo uivar as feras, aproximou-se do tronco e trepou pela árvore a esconder-se por entre as folhas. À meia-noite ouviu o galopar de um cavalo. Era um sujeito que vinha montado e parou sob a árvore. Esperou algum tempo até que chegaram outros indivíduos também montados.

- Demoraram-se - disse o primeiro.

- É verdade - respondeu um dos que acabavam de chegar. 

- Estive numa cidade e vi que os seus habitantes andam desesperados por falta de água. Temos dali boa colheita.

- E todavia passa ao lado da Capela de S. Sebastião um rio de água esplêndida - observou um terceiro.

- Quanto a mim - disse o quarto - venho satisfeito, pois o rei de certo país está cego por virtude da lepra que lhe corrói o corpo.

- Bem sei - disse o primeiro - e mal sabe ele que estamos à sombra de uma árvore cujas folhas não só curam todas as doenças, mas têm a virtude de dar olhos a quem os perdeu.

- Fazes mal em falar alto! Às vezes, as moitas têm olhos e as pedras têm ouvidos.

- Neste deserto não pode estar ninguém - observou o primeiro.
E todos se foram embora.

Logo que amanheceu, desceu o infeliz da árvore, colheu umas folhas, picou-as em duas pedras e aplicou o sumo sobre os olhos. Ficou completamente curado. Colheu mais folhas e guardou-as no lenço.

Partiu para a terra onde havia falta de água e fez o milagre de lhe dar uma boa nascente. Saiu dali para o país onde reinava o rei leproso e curou-o da doença, restituindo-lhe também a vista.

Se no primeiro sítio o compensaram com muito dinheiro, no segundo o rei deu-lhe a filha em casamento.

Andava o genro do rei visitando as suas tropas, quando viu o seu desalmado companheiro alistado em um dos batalhões do reino. Mandou-o ir ao palácio e deu-se a conhecer. Ficou o malvado aflito, mas o príncipe disse-lhe que não lhe tencionava fazer mal algum, apesar da infâmia que ele praticara.

- Mas - disse o mau - como foi que Vossa Alteza readquiriu a vista e veio a casar com a princesa?

O mancebo contou-lhe toda a verdade, omitindo o incidente relativo ao descobrimento da água.

Nessa mesma noite, desertou o soldado e foi logo postar-se sob a árvore milagrosa.

Esperou a meia-noite. Eis senão quando ouve ele o tropel de cavalos. Eram diversos cavaleiros que vinham muito irritados. Chegaram ao pé da árvore e disse um:

- Quando tu respondeste que por detrás da Capela de S. Sebastião corria um rio de água esplêndida e que a lepra do rei se curava com as folhas desta árvore, fiz logo sentir a inconveniência da tua resposta, dizendo-te que muitas vezes as moitas têm olhos e as pedras ouvidos. Infelizmente, alguém te ouviu!

- E talvez - respondeu o increpado - que hoje aqui esteja de novo a espiar-nos!

Foram acima da árvore e encontraram o soldado. Fizeram-no em pedaços.

Fonte:
Viale Moutinho (org.) . Contos Populares Portugueses. 2.ed. Portugal: Publicações Europa-América.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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