sábado, 19 de setembro de 2026

Daniel Maurício (Devaneios Poéticos) 5

 

Ah, pobre palhaço!
O teu sorriso é pintado
E tua alma de criança
Chora soluçando em silêncio.
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ANSIEDADE

Às vezes
É preciso acrescentar
A letra C na palavra alma
E calmamente
Deixar os sonhos ronronando feito um gato
Nas tardes envelhecidas.
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Busquei estrelas
Mas as do céu da tua boca
Tinham gosto de inocência
Sabor de quero mais.
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Chovia...
A janela do meu eu lacrimejava
E a solidão,
Essa velha louca
Adormecida no porão da minh'alma,
Amanheceu resmungando
E arrastando os seus chinelos pela casa.
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Ela era dissimulada,
Tipo "olhos de Capitu"
Até que um dia
"Caiu a máscara"
E o beijo deslizou
Pelo corpo nu.
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Gratidão
É uma caixinha de veludo
Onde se guarda o que é eterno.
PS.: Guardei você!
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Na fotografia
A poesia se revela
Cheia de poses
Espelhada
Com muitas caras e bocas
Se veste de fantasias
Tão coloridas
Mas às vezes doída
Se desnuda em pranto
Em preto e branco
Sem início
Sem fim

* Homenagem aos meus amigos fotógrafos
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CAÇADOR DE ILUSÕES

Quando a paixão me cegou
corri atrás de ilusões
feito criança perseguindo borboletas.
Os cabelos grisalhos
gritam silenciosos no espelho
os segredos do amanhã.
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CICLO

No princípio era o caos
progredimos, progredimos...
agredimos.
No final era o caos
nos encontramos.
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ENTRELINHAS

Não quero dizer nada
quando escrevo.
Quero apenas,
despertar as entrelinhas
adormecidas em cada peito.
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GOLE D’ ÁGUA

A ira
o fogo
a mágoa.
O melhor a fazer
é tomar um gole
d'água.
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GOMA AMARGA

Senti o barulho da fantasia
a se quebrar dentro de mim.
Não ouvi o sino,
chorei menino
o vazio estava ali
em mim.
Passou o tempo,
chegou a idade
a realidade,
amarga goma de mascar.
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GRANIZO

O branco pipocava nas calçadas.
Em sangue,
o morro escorria
pelos rios e pelas ruas da cidade.
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Nos olhos do menino
Madrugavam sonhos.
Sem entender direito o que era fé
Esperava pelo sol
Mesmo diante das "chuvas de nãos"
Que tentavam borrar o seu sorriso.
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Que sorte
Quando por ti
Perdi o meu norte
Foi que eu me encontrei.
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Tu dizes
Que em ti
Fiquei plantado
Como uma boa lembrança.
Mas em mim,
Tu ainda floresces
Independentemente da estação.
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Daniel Maurício (1968)
DANIEL MAURICIO é um premiado e reconhecido poeta paranaense, célebre na cena cultural de Curitiba por seus poemas curtos, de forte apelo lírico e grande impacto emocional. Nasceu em 1968, na cidade de Jaguariaíva/PR, filho de Francisco Mauricio e Olinda Brisola Mauricio. Embora nascido nos Campos Gerais, construiu sua vida pública e literária radicado em Curitiba, onde reside atualmente. Possui uma sólida e diversa bagagem educacional. É graduado em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Administração de Empresas pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP) e em Direito pelas Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba (FARESC). Além disso, carrega diversas pós-graduações em áreas como Gestão Pública, Tributária e de Pessoas. Foi Professor da Rede Municipal de Ensino em Curitiba, Contabilista da Prefeitura Municipal de Curitiba. Monitor na área de Linguística na Universidade Federal do Paraná; integrante do Projeto VARSUL – Variação Linguística da Região Sul desenvolvido pelas Universidades Federais do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Atua profissionalmente como Auditor de Tributos Municipais na Secretaria Municipal de Finanças da Prefeitura de Curitiba.
Notabilizou-se pela produção de micropoemas e poesias de tom intimista, focando em reflexões existenciais e miudezas do cotidiano, muitas vezes compartilhadas ativamente em suas redes sociais. Integra várias agremiações culturais e literárias de relevância nacional e internacional, incluindo: Centro de Letras do Paraná (CLP) (onde atua também na Comissão de Serviços ao Associado); Academia Poética Brasileira (APB); Academia Brasileira de Letras e Artes Virtuais (ABLAV); Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil (ACILBRAS); Academia Biblioteca Mundial de Letras y Poesía, etc.
Ao longo de sua caminhada poética, o autor recebeu condecorações de prestígio no cenário paranaense, destacando-se: Ganhador do Concurso Poemas Curtos (2014) da Prefeitura Municipal de Curitiba; Prêmio Marilda Confortin (2015); Prêmio Alice Ruiz (2016). Possui uma extensa bibliografia, tendo inclusive realizado lançamentos coletivos impressionantes devido ao seu grande volume de manuscritos guardados. Entre as suas principais obras individuais estão: Mosaico de Sentimentos; Cacos e Retalhos; Origamis de Palavras; (Des)importâncias; Superprodução Lírica (Kit de 10 Livros lançados simultaneamente): Amar é, Poesias da Madrugada, Miudezas do Coração, Olhares, Alma Lírica, Gotas Poéticas, Leve-me, Poemininos e Palavras de Cheiro.
Daniel Mauricio representa a continuidade da forte tradição de poesia concisa e visceral do Paraná, carregando influências e homenageando ícones locais (como o seu patrono acadêmico, Paulo Leminski). Ele desempenha um papel crucial na oxigenação da literatura contemporânea paranaense por meio do uso das mídias digitais para democratizar a leitura e aproximar os leitores da poesia diária. Embora sua atuação principal seja na palavra escrita, a sua poesia possui uma forte carga de musicalidade intrínseca, ritmo e cadência melódica rápida, características típicas da linhagem poética curitibana contemporânea, o que torna seus escritos facilmente adaptáveis para a sonoridade falada e saraus líricos.

Fontes:
Academia Facebookiana de Letras e das Artes
Kit de Livros de poesias enviados pelo poeta.

Eduardo Martínez (Dona Irene e a cachaça em Poços de Caldas)

Numa madrugada de 2012, a Dona Irene e eu estávamos saindo de São José do Rio Pardo-SP, onde fomos deixar uma linda cadelinha da raça Dogue de Bordeaux. Antes de irmos embora, perguntamos para a dona da cachorrinha se havia alguma cidade interessante perto dali para conhecermos. Ela disse que Poços de Caldas-MG era bonita e ficava a uns 60 quilômetros. A Dona Irene, que nessa época era minha namorada, olhou para mim e sorriu aquele sorriso mais lindo do mundo. Isso, para quem não sabe, é o sim da minha hoje esposa e, então, entramos no carro e voltamos para a estrada.

  Como nessa época viajávamos com um antigo mapa de papel, fomos muito atentos para não errarmos o caminho. Não sei exatamente quanto tempo levamos para chegar à cidade mineira, mas lembro do motel em que dormimos. É que havia uma espécie de jardim de inverno ao lado da cama, com uma porta de vidro quebrada e o céu como teto. Isso mesmo, apesar de haver uma cobertura no quarto, isso não acontecia com a parte do jardim de inverno. Além do mais, fazia um frio tão intenso, que, se estou escrevendo estas linhas hoje,  é porque fui salvo pelo doce calor emanado do corpo da Dona Irene.

  Fomos despertados com o sol batendo na nossa cara. Ainda tentamos cobrir o rosto com o fino lençol, até que a minha amada disse que estava com fome. Levantamos e fomos procurar alguma coisa para preencher o estômago da minha namorada, já que aquele motel não servia café da manhã. 

    Assim que entramos no carro, percebemos que o motel ficava perto do centro. Paramos em uma cafeteria, onde a Dona Irene fez seu desjejum, enquanto eu, como sempre faço pela manhã, tomei meu café preto. Sem açúcar, pois, de doce, já basta a vida. 

   Não sei se você conhece Poços de Caldas, mas vou lhe dizer assim mesmo. Das inúmeras cidades que conheço em Minas Gerais, é a mais agradável. E olha que já passei por várias outras muito legais também. 

    Logo que saímos da cafeteria, fomos dar uma volta para apreciar melhor o local, quando, de repente, um simpático senhor em uma charrete nos convidou para darmos um passeio, ao custo de não sei quanto, mas que não achei caro na época. Seja como for, o passeio estava extremamente agradável, quando, sem avisar, o condutor parou a charrete e nos convidou para conhecermos uma loja de cachaça e queijos. 

  Para falar a verdade, achei aquilo meio esquisito, pois eu queria mesmo é continuar naquele clima bucólico ao lado da minha namorada. Todavia, antes que eu pudesse continuar nessa divagação rabugenta, eis que me chega alguém com uma dose de cachaça e uns pedaços de queijo. Eu não bebo e, pela manhã, é difícil descer algo sólido para o bucho. 

    Agradeci, mas, antes que esse alguém saísse da minha frente, a Dona Irene não se fez de rogada e já foi entornando a cachaça para dentro do estômago, como se aquilo fosse água mineral da fonte mais pura. Para rebater, ela pegou um pedacinho daquele queijo tão cheiroso.

    Depois disso, fiquei compelido a comprar uma garrafa de cachaça e um queijo naquela loja, mas o homem da charrete nos puxou pelo braço e disse que tínhamos que ir. De volta ao passeio bucólico, até comecei a apreciar novamente aquele balançar gostoso ao som dos cascos do cavalo, que soube se chamar Tufão. No entanto, o condutor parou novamente justamente em frente a uma nova loja, também de cachaça e queijo. Descemos, entramos no tal comércio, alguém me ofereceu cachaça e queijo, educadamente recusei, enquanto a Dona Irene botou tudo para dentro. 

   Pois bem, para encurtar a história, que já está muito mais longa que o costumeiro, voltamos para a bendita charrete antes que pudéssemos comprar qualquer coisa. Depois paramos em não sei quantos novos estabelecimentos, eu recusei tudo o que me ofereceram, ao contrário da minha namorada, que, àquela altura, aceitaria até mesmo sopa de pedra. 

    Finalmente o passeio terminou, quando já era perto da hora do almoço. Tive que auxiliar a minha amada a descer da charrete, pois ela estava tão trôpega, que mal conseguia se lembrar de onde estávamos. Aliás, essa parte estou escrevendo aqui em casa com a Dona Irene me olhando torto e sentada no sofá aqui da sala.

    Procuramos um local para deitarmos, justamente sob a copa de uma árvore. Acabamos adormecendo por algumas horas. Fui despertado pelas cutucadas da minha amada, que, pasmem, estava nova como folha. Ela se levantou numa agilidade improvável para alguém que havia ingerido tanto álcool e, então, me fez o seguinte convite: "Quero conhecer o ET! Será que Varginha fica muito longe?”
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Eduardo Martínez (1967)
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
    Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 28.04.2022

Aparecido Raimundo de Souza (A Corrida dos credores)

O MACIEL BARBOSA resolveu, de última hora, que tinha de participar da corrida que acontecia todos os anos. Assim, foi até o local da inscrição e mandou brasa. Não esperava ganhar o primeiro lugar, claro, nem reunia condições físicas para isso. A coisa só ficaria na brincadeira, ao menos aliviaria um pouco o estresse do dia-a-dia e de roldão os muitos problemas com a rotina enervante da vida, sem contar com a falta de serviço, contas para pagar, telefone cortado, celular mudo, prestações do carro vencidas, etc., etc... 


Pegou o número que a moça lhe estendeu num pedaço de papel e voltou ligeiro para casa. No caminho, antes de chegar para o almoço, resolveu tomar uma cervejinha. Lugar comum, de costume: o barzinho do Fred Frederico – amigo das peladas de todos os sábados no campinho da ferroviária e no tempo das vacas gordas, das malhações na academia “Mens sana in corpore sano” de um outro da turma, o Leandro “Olho Saltado”. Mal sentou, chegou atrás, no vácuo, o Tadeu Fantini, dono da lanchonete perto da Praça da Prefeitura. 

O Fantini, agiota sem escrúpulos (não perdoava nem a mãe). Maciel devia a ele os juros de um cheque sem fundos, (no tempo em que os cheques se faziam moedas de troca) barganhados a vinte por cento há anos. Por conta desse “voador inesperado” o capital há muito havia sido pago, só em “costurar buracos na colcha”, ou seja, nas prorrogações, a título de juros, afora o cara ter abocanhado uma televisão de vinte polegadas, anel de formatura, relógio, vídeo cassete um Fusca bem conservado e até a mesa de escritório com cadeiras e escrivaninha de computador. Maciel Barbosa tremeu na base. 

Fugiu tanto do infeliz e eis que, de repente, saído dos quintos do inferno, a sua frente aparece o Fantini como urubu magro secando a carniça gorda.
— Estava passando, vi você, resolvi parar. 
— Fez bem. Ia te ligar daqui a pouco...
— E a “baba”? 
— Segunda-feira, sem falta. 
— Tudo? 
—  Só uma refrescada, com o restante para mais trinta dias. 
—  Passa lá em casa.
—  Com certeza. 

O diálogo se encerrou aí. Mas os problemas de Maciel só começavam. Pintou o Guerinto, da barbearia e senhorio da casa onde ele morava de aluguel com a mãe e mais cinco irmãos menores. O velhote trazia consigo, uma dessas garotas de programa, sustentadas por seus bolsos, graças ao aluguel das espeluncas que ele mantinha em constante atividade de comodato, onde, aliás, por debaixo dos panos, formigava, nos fundos da barbearia, uma casa conhecida como o “Reduto da luz vermelha”.
— Seu mês venceu dia cinco. Hoje são dezoito.  

O Maciel, apesar das dívidas, não se fazia de rogado. 
— Segura as pontas. Segunda-feira a gente acerta. Vou correr domingo, na Oitava aqui do Bairro contra Bairro.
— E o que eu tenho a ver com isso?
— Pretendo ganhar o prêmio. Aliás, vou... 
— Se der zebra? 
— Pense positivo. Torça por mim.
— Com certeza. Boa sorte. Até mais ver. 

Mal e porcamente o Guerinto virou as costas, apareceu o abutre do Milton Creto, acompanhado do sobrinho Oduvaldo Mata Sete. A esse cavalheiro Maciel devia uma soma considerável. Milton não entrara no Bar do Fred Frederico para cobrar, mas para comprar cigarros e fósforos. Bateu sem querer os olhos, por acaso no Maciel, e, por conta, não custava marcar presença. 
— O companheiro anda meio afastado lá do prédio ou é impressão minha?
— Impressão. 
— E a conta? 
— Terça-feira.
— Não dá mais para ficar só nos acessórios. Necessito, com certa urgência, do principal. 
—Terça-feira.
— Palavra? 
— De escoteiro. 
— Passe bem.
— Espero que sim.

O dia da corrida, um domingo ensolarado chegou ligeiro. Um inferno. Gente de todos os lados vinda de muitos lugares abarrotava a pequena cidade suburbana. A galera se acotovela por todas as partes, mal dava para se atravessar uma rua sem esbarrar em algum desconhecido (conhecido) especificamente que ele, o Maciel, não devesse uma grana.  Em vista disso, o desgraçado se escondia disfarçado de fujão inveterado. Pois bem! Por sorte, ou azar, sabe-se lá como, chegou em primeiro lugar e ganhou a corrida. Ao subir ao pódium para receber a medalha e o mais importante, a grana preta do prêmio milionário, um dos muitos a quem ele devia, por azar, o doutor Bisteca Mal Passado, o reconheceu em meio a tumultuada multidão. 

O doutor Bisteca Mal Passado, era o delegado de polícia da localidade e ao vê-lo dando sopa e, tendo em vista um ocorrido inesquecível e imperdoável, além da grana que o sujeito havia tomado, o Maciel “papara” a única filha do temido homem da lei”. Ao vê-lo, o delegado se encheu de razão, puxou do bolso um apito, e claro, quase o engoliu, afoito. Forte, raivoso e encapetado, apitou. Como num passe de mágica, uma galera de policias a paisana que estavam a serviço, ao ouvirem o som da autoridade maior, se juntaram e saíram correndo nos calcanhares do pobre e infeliz Maciel. 

— Ali, ali, ali, lembrem-se... quero o meliante vivo, vivo...

Maciel, por seu turno, deu linha à pipa. Botou sebo nas canelas e desembestou rua abaixo, se esquivando de uns desmiolados que ao também ouvirem o apito do chefe da unidade policial, se uniram para botar-lhe as mãos em seus esqueletos. Ninguém conseguiu tal proeza. Maciel, entretanto, careceu de correr novamente. Correr não, voar, só que desta feita, para se livrar de uma turba de homens e mulheres em polvorosa que levada pelo som de um “pega esse safado, pega esse infeliz” se viu obrigado a sair da cidade suando em bicas e nunca mais foi visto. Até hoje, ninguém sabe em que buraco o pobre abestado se meteu. 

O delegado encheu a cidade de canto a canto com cartazes num acirrado “Procura-se vivo ou morto”. Enquanto o Maciel não é capturado, e lá se vão mais de três anos, o doutor Bisteca Malpassada desfila pela cidade com a netinha à tiracolo, a linda e fofa Iasmim puxada pelo braço. De vez em quando, dá uma parada diante de uma foto do pai da menina pendurada aqui e acolá e sussurra no ouvido da mocinha: 

— Esse malandro aí é seu pai. Um dia o vovô pega ele...  
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.
Texto enviado pelo autor

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Roberto Tchepelentyky (Semeando Trovas)


A caminho do infinito,
prossigo a minha viagem...
Levo o que é de mais bonito:
O nosso amor na bagagem!
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A chama já consumia
a casa do seu Arlindo,
quando psiu... ele dizia:
" Minha sogra está dormindo"!...
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À interferência me oponho 
do que não pude viver... 
Acendo a luz de outro sonho 
e me faço amanhecer!
= = = = = = = = = = = = = =  

A minha sogra eu veria,
não importa em que planeta,
se pudesse, todo dia...
Claro, por uma luneta!!!
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Amor, estranha magia,
do coração e da mente.
Com toda sua alquimia,
nos faz um adolescente.  
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À noite, em frente á TV,
a vovó e o manto dela...
Ela dorme e nada vê,
o manto assiste à novela...
= = = = = = = = = = = = = =  

A paz que tanto nos falta,
deixando a vida feroz,
é uma criança peralta,
oculta dentro de nós!
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A vida é um fogo de palha
e o tempo se mostra algoz,
mais parece uma fornalha
onde a palha...  somos nós! …
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"Bate" a inspiração na gente...
Verso nenhum se aquieta,
quando Deus, onipotente,
nos permite ser poeta!
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Deixa o que passou "de lado",
a vida é um ensinamento...
Pois lamentar o passado
é correr atrás do vento!...
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Dentista tem a virtude
de cumprir sua missão,
sendo artesão da saúde,
traz sorriso ao seu irmão!
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Dentre as forças deste mundo,
procurando paz, eu vim,
encontrá-la aqui no fundo,
de onde crio a força em mim.
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De político do “avesso”,
a gente já tem calombo...
pois, quando ele dá tropeço,
é o povo que leva o tombo!!!
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Deste-me um beijo no rosto,
tal qual verso de ousadia…
e o problema meu é o gosto
de completar a poesia!
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Em cada dia, a humildade
nos ensina uma lição…
É um degrau da humanidade
na escala da evolução!…
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E o velhinho gritou: “Opa!...”
Depois de tanta procura...
no prato de sua sopa,
encontrou a dentadura.
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Lamenta a tecnologia...
e, por saber, não se acalma,
que jamais construiria
um homem de corpo e alma!
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Louvo "Os Timbiras" na história,
por ser um poema fecundo:
São quatro cantos de glória
nos quatro cantos do mundo!…
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Na despedida, o teu lenço
deixou o meu com “revolta”!
Nem viu, num adeus intenso...
que o meu...acenava: Volta!!!
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Na homenagem ao dentista,
com singelos versos, friso:
Mais do que ser um artista,
é um poeta do sorriso!
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Nossos olhares ousados,
já perceberam que são
dois desejos conjugados
num “ jogo de sedução”!…
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O amargor da despedida
de alguém que amamos demais,
é ter o sabor na vida
do “gosto de nunca mais”!…
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O "bebum" vai ao velório
e abraça a "booooa” comadre,
dando um pesar vexatório:
"Me solta, que eu sou o Padre!!!”
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O bem oculto a dispor,
seja a quem for, sem vaidade,
é a essência pura do amor,
vestida de caridade!
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O chão do quarto molhado...
A sogra pagou o mico
após seu grito abafado:
" Meu Deus! Errei o penico"!!!
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O destino escreve a escolha
do amor de nós dois assim:
Páginas da mesma folha...
Tu... de costas para mim!…
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O silêncio traz a paz
do universo e se engrandece,
com amor que o homem faz
do silêncio sua prece! 
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O teatro é fantasia,
mas, às vezes, como tal,
ninguém o diferencia
da nossa vida real...
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O vento faz serenata
e o mar se põe a cantar
versos, em ondas de prata,
de uma poesia... ao luar…
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Partiste... E a nossa amizade
no infinito se enternece...
Tu me mandas a saudade,
eu te mando a minha prece!…
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Político que faz "rolo",
bem ou mal ele se arranja,
pois no meio do seu "bolo",
tem recheio de "laranja"!!!
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Pra aquela visita chata,
o que me deixa mais louco,
é ouvir a frase insensata:
"Já vai? Fica mais um pouco"!...
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Pra que a filha não se “perca”,
meu vizinho fica alerta...
De que vale “fazer cerca”
pra quem tem porteira aberta?!
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Quem tem amor verdadeiro  
que brota no coração,
vivifica o seu canteiro
com as flores do perdão!
= = = = = = = = = = = = = =  

Sobre a parreira, o luar
no sereno te retrata…
E os teus olhos a brilhar:
“Duas uvas”… cor de prata…  
= = = = = = = = = = = = = =  

Ter “gandula bonitinha”,
rebolando, só piora...
O jogo quase não tinha:
- por tantas bolas pra fora! ...
= = = = = = = = = = = = = =  

Teu abraço me agasalha
com carinho tão profundo...
sinto em volta uma muralha,
separando-nos do mundo!…
= = = = = = = = = = = = = =  

Teu “jogo de amor” peralta,
por ciúme, nos devora:
- tu cobraste a minha falta,
batendo o “pênalti” fora! …
= = = = = = = = = = = = = =  

Três luas, na madrugada, 
me fazem um sonhador: 
Uma no céu, prateada... 
e as do olhar de meu amor!
= = = = = = = = = = = = = =  

Um amor que já floresce,
escondido, não se assume.
É uma flor que nem parece...
Mas que exala seu perfume!
= = = = = = = = = = = = = =  

Um casal tão agitado
no sofá de namorico,
parecia ter tomado
um banho de pó-de-mico!...
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Vive a "página da vida"
nem que seja a "solavanco"!...
Pior é quem na "partida",
carimba a página: "Em branco"!

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Roberto Tchepelentyky
ROBERTO TCHEPELENTYKY é um dos nomes da trova contemporânea na capital paulista. Nasceu na cidade de São Paulo/SP, onde reside atualmente. Na esfera profissional, divide sua rotina entre as artes e a ciência médica, atuando como médico Clínico Geral na região de Santo Amaro, em São Paulo. Essa dupla jornada — a precisão do diagnóstico e a sensibilidade do verso — reflete-se na profundidade de suas composições.
Roberto descobriu o universo da trova em 2003, através do magnífico trovador Izo Goldman. Desde então, tornou-se um dos poetas mais ativos do movimento. Concorrente assíduo e multipremiado em Jogos Florais e concursos nacionais e regionais. A sua produção poética está vastamente documentada em antologias oficiais, coletâneas de Jogos Florais por todo o Brasil e em publicações especializadas do gênero da trova, tanto impressas quanto em importantes portais trovadorescos. 
A relevância de Roberto Tchepelentyky para a literatura nacional reside no seu papel de guardião e modernizador da Trova. Com humor refinado, lirismo e capacidade de síntese poética, Roberto não apenas enriquece o patrimônio literário paulistano com suas vitórias em concursos, mas também atua ativamente nos bastidores da trova. Ele ajuda a democratizar o acesso à poesia, provando que a literatura clássica e rimada continua vibrante, acessível e essencial no século XXI.

José Feldman (Viagem ao Passado)

1. A Praça 

Antigamente, a praça principal não era apenas um endereço; era o coração pulsante da cidade, um palco onde a vida desfilava sem pressa. Hoje, olhar para trás é perceber que o tempo tinha outra textura, menos frenética e mais humana.

A praça era o destino inevitável. Cercada pelo coreto central, de onde a banda da cidade soprava marchinhas e valsas nas noites de domingo, ela exalava um perfume misto de pipoca doce e jasmim. O chão de mosaico, desenhado com ondas e formas geométricas, servia de pista para o "footing": os rapazes caminhavam em um sentido, as moças no outro, e os olhares se cruzavam no meio do caminho sob a vigilância discreta das matronas sentadas nos bancos de ferro.

Não havia Wi-Fi, mas a conexão era absoluta. As notícias chegavam pela boca do povo, entre um gole de café no bar da esquina e uma engraxada de sapatos. As crianças corriam em volta do chafariz, indiferentes ao mundo lá fora, enquanto os velhos senhores, com seus chapéus de feltro e rádios de pilha, discutiam política e o tempo como se fossem donos de ambos.

Ao cair da tarde, as luzes dos postes de ferro começavam a piscar, tingindo a praça de um dourado nostálgico. Era o sinal de que a missa das sete iria começar ou que o cinema de rua abriria suas portas pesadas. A praça era o nosso espaço comum, onde a riqueza e a pobreza se sentavam no mesmo banco para ver a lua nascer.

Hoje, as praças mudaram, mas a memória daqueles dias ainda resiste no balanço das árvores centenárias que, felizmente, continuam de pé. Recordar é, de certa forma, voltar para aquele banco de madeira e esperar o tempo passar, apenas para ver a vida acontecer.

2. As ruas

As ruas não eram apenas caminhos de passagem; eram extensões das nossas casas, territórios de liberdade moldados em terra batida ou paralelepípedos cinzentos. 

Hoje, quando olhamos para o asfalto liso e impessoal, é difícil não sentir saudade daquela textura irregular que ditava um ritmo de vida muito mais humano e vagaroso.

O silêncio das manhãs era raramente interrompido pelo motor de um carro antigo. Eram máquinas pesadas, de metal reluzente, algumas ainda com o charme rústico da partida na manivela, exigindo força e paciência do motorista. O movimento era tão escasso que o ronco de um motor ao longe servia de aviso: dava tempo de parar a brincadeira, ir para a calçada, acenar para o vizinho e só então retomar o que realmente importava.

E o que importava era o jogo. As calçadas eram arenas de grandes campeonatos de bolinha de gude. Meninos agachados, com o olhar atento e a pontaria calibrada, disputavam "caras" e "biroscas" como se fossem tesouros nacionais. Quando o sol baixava, o cenário mudava para o pega-pega, onde o fôlego parecia infinito e a rua inteira era o campo de batalha.

Mas o ápice da engenharia infantil eram os carrinhos de rolimã. Construídos com tábuas de construção e rolamentos conseguidos em oficinas mecânicas, eles transformavam qualquer ladeira em uma pista de Fórmula 1. O barulho do aço contra o paralelepípedo era o som da adrenalina. O freio? Muitas vezes era a sola do sapato ou, na pior das hipóteses, o próprio joelho. Os joelhos ralados eram medalhas de honra, lavados com água e sabão sob o olhar benevolente das mães que vigiavam da janela.

Havia uma segurança silenciosa que pairava no ar. As portas ficavam encostadas, e o perigo parecia algo distante, de outro mundo. 

À noite, o cenário pertencia aos casais. Caminhavam de braços dados, sem pressa, em um tempo onde a conversa não era interrompida por notificações de celular. O único brilho vinha dos postes amarelados e das estrelas, que pareciam muito mais nítidas sem a poluição luminosa das metrópoles modernas.

A rua antigamente era uma escola de convivência. Entre uma queda de rolimã e uma vitória na bolinha de gude, aprendíamos sobre o mundo, sobre os vizinhos e sobre nós mesmos.

3. Os Cafés

Entrar em um café era como atravessar um portal para um tempo onde a elegância e a palavra tinham um peso sagrado. Hoje, com a pressa dos copos descartáveis, olhar para trás revela o café não apenas como bebida, mas como a moldura social de uma época.

Os grandes estabelecimentos, como o histórico Café Girondino em São Paulo ou o centenário Café Lamas ou a Confeitaria Colombo no Rio, eram palcos de um desfile de distinção. De um lado, homens com ternos impecáveis e chapéus bem ajustados discutiam o destino do país e os rumos do comércio entre uma baforada de charuto e um gole de café preto. Do outro, mulheres com vestidos luxuosos e luvas de seda traziam a sofisticação das capitais europeias para o coração das cidades brasileiras.

Mas a magia acontecia na diversidade de seus cantos:

O Balcão: Onde o encontro era rápido, mas não menos intenso. Era o lugar do "café em pé", das notícias trocadas entre conhecidos e do barulho rítmico das xícaras de porcelana batendo no mármore.

As Mesas de Mármore: Onde o tempo parava. Amigos de longa data se reuniam em grupos ruidosos para celebrar a vida, debater literatura ou simplesmente deixar a tarde passar.

A Xícara como Elo: Seja o "café passado" no coador de pano ou o expresso nascente, a fumaça que subia da xícara era o sinal de que uma conversa importante estava prestes a começar.

Nesses locais, a arquitetura de azulejos antigos e balcões de madeira nobre contava histórias de décadas passadas. Era um território de segurança e convivência, onde a futilidade e o intelecto se sentavam à mesma mesa, unidos pelo aroma inconfundível do grão moído na hora.

Hoje, essas memórias resistem em locais que preservam a atmosfera de 1875 ou 1920, lembrando-nos de que a vida, assim como um bom café, deve ser apreciada em pequenos e pausados goles.

Ao fecharmos as cortinas desse cenário — entre os acordes do coreto, o estalo do rolimã no paralelepípedo e o tilintar das xícaras de porcelana —, percebemos que o que realmente saudamos não é apenas o passado, mas a profundidade das relações que ele abrigava.

A praça, a rua e o café formavam um santuário da presença humana. Eram tempos em que o "olho no olho" não era um esforço, mas a regra; onde a segurança vinha da vizinhança que se conhecia pelo nome e a elegância se manifestava tanto no corte de um terno quanto na gentileza de um "bom dia".

Hoje, embora o asfalto tenha coberto a terra e a pressa tenha silenciado o balcão, essas lembranças permanecem como bússolas. Elas nos recordam que, por trás de toda tecnologia e correria, ainda somos aqueles mesmos seres que buscam um banco de jardim para descansar e uma boa conversa para se sentir em casa. Que a nostalgia desses dias não seja um lamento, mas um convite para resgatarmos, sempre que possível, a doçura de viver um minuto por vez.
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José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister em Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fonte:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2016.

Contos e Lendas do Mundo (O Pássaro Dourado)

Era uma vez, há muito tempo, num reino distante, havia um rei que tinha um pomar muito belo nos fundos de seu castelo. Nesse pomar havia uma árvore que produzia maçãs de ouro muito deliciosas. Quando as maçãs amadureciam eram contadas uma a uma. Certo dia o rei notou que faltava uma maçã e então deu ordem para que todas as noites alguém ficasse vigiando a macieira.

Esse rei tinha três filhos, príncipes herdeiros, e então enviou o maior deles, ao cair da noite, a vigiar o pomar e a árvore; porém, antes da meia-noite o jovem não se conteve de sono e adormeceu profundamente. Na manhã seguinte, ao despertar, notou que faltava uma maçã. Na noite seguinte o rei enviou o filho do meio a vigiar o pomar. E da mesma forma este não teve melhor sorte que seu irmão mais velho. Adormeceu antes mesmo da meia-noite e, quando despertou na manhã seguinte, notou que faltava uma maçã na árvore.

Terceira noite. Chegou a vez do menor, do caçulinha cuidar do pomar. O rei, porém, não botava muita fé no menorzinho e achava que aconteceria o mesmo com ele, e que não teria melhor sorte que seus irmãos mais velhos, motivo pelo qual não queria deixá-lo ir. O jovem, porém, pediu, implorou e insistiu tanto que o seu pai acabou consentindo. Então o caçula postou-se debaixo da árvore, ficou alerta, em vigília, e não deixou que o sono o vencesse. Ficou de olhos bem abertos e vigiando a macieira.  

À meia-noite, como era noite enluarada, ele ouviu um grande barulho no ar e viu um grande pássaro voar ao redor da árvore - suas penas eram de ouro puro e brilhavam sob a luz do luar. O pássaro pousou na macieira e bicou uma maçã. Ao fazer isso o príncipe caçula pegou o estilingue e atirou-lhe uma pedra. O pássaro voou com a maçã no bico mas, atingido na cauda, deixou cair uma pena dourada.

Na manhã seguinte o caçula levantou-se, pegou a pena e levou-a ao rei, e contou-lhe o que vira durante a noite. O rei então reuniu os sábios do seu reino e todos foram unânimes em dizer que uma pena de ouro daquelas era raríssima, mais cara que todo o seu reino. Então o rei lhes disse:

"Se uma pena assim é tão valiosa, então de nada me adianta ter apenas uma pena dourada. Eu quero o pássaro todo, vivo."

No dia seguinte o pai chamou o filho mais velho e enviou-o em busca da ave. Ladino, pôs-se a caminho em busca do pássaro de ouro, acreditando que logo o acharia. Mal havia andado alguns quilômetros quando, ao entrar em uma floresta, viu uma raposinha à beira do caminho.

Preparou a espingarda e mirou. A pobre raposinha suplicou:

"Por favor, não me mate. Eu vou lhe dar um bom conselho: Você está em busca do pássaro dourado, não é mesmo?  Pois bem, hoje à tarde, antes mesmo do por do sol, você irá chegar a uma aldeiazinha. Logo na entrada, na primeira rua dessa aldeiazinha você verá duas pensões - uma diante da outra. Uma delas estará toda iluminada e com música alta. Lá só tem folia e algazarra. Não entre nessa não. Vá à outra, do outro lado da rua, mesmo que ela tenha um aspecto horrível – mas essa é boa."

E o príncipe pensou consigo:

"Só se eu fosse muito bobo pra seguir um conselho dessa raposa tola...”

E assim pensando, apertou o gatilho da espingarda mas errou o alvo e não acertou a raposinha que esticou a cauda e os pelos e correu para dentro da floresta. Então o príncipe continuou seu caminho. Ao cair da tarde, chegou a uma aldeiazinha onde havia duas pensões, uma em frente da outra.  Numa delas, só música, festa, folia e bagunça e, na outra, silêncio e um aspecto não muito agradável aos olhos.

E pensou consigo:

"Eu seria um tolo se eu me hospedasse naquela espelunca feia que mais parece uma favela e cemitério...”

E assim dizendo, entrou na casa onde imperava a bagunça e a folia. E viveu a vida comendo e bebendo, dançando e gastando tudo.  Esqueceu-se do pássaro, do seu pai e de tudo de bom que havia aprendido.

Como o tempo se passou e o filho mais velho não retornava, o pai enviou o filho do meio. Este se pôs a caminho em busca do pássaro dourado.  E, da mesma forma como acontecera com o seu irmão mais velho, encontrou a raposinha à beira do caminho, a qual deu-lhe conselhos. Porém ele não a ouviu. Chegando àquela aldeiazinha viu, pela janela da casa de folia, seu irmão bebendo e dançando. E lá dentro só algazarra. Seu irmão o chamou. Ele entrou e também levou a vida só no bem-bom.

Passou-se o tempo e, como nenhum dos dois irmãos retornava, o caçula quis partir em busca do pássaro de ouro, porém seu pai não botava fé nele e não queria deixá-lo partir. Então o rei, seu pai, falou-lhe:

"É inútil. Se seus irmãos não encontraram o pássaro dourado, você não terá melhor sorte... Você é muito pequeno... “

E tanto insistiu, e implorou o caçula, que o rei acabou consentindo na sua partida.

No caminho, logo na entrada da floresta, o príncipe-caçula encontrou a raposinha a qual disse-lhe que se não a matasse ela lhe daria bons conselhos. O caçula gostava de animais e adorou a raposinha, e disse-lhe:

"Fique tranquila, raposinha bonitinha, eu não vou causar-lhe mal algum... Eu não vou matar você não..."

E a raposinha disse-lhe:

"Meu nome é Sabedoria. Seguindo meus conselhos você não irá se arrepender... E para que você chegue mais depressa, suba às minhas costas."

Nem bem o jovem havia subido às costas da raposinha esta correu como um raio, passando sobre paus e pedras, até que chegaram àquela cidadezinha. O jovem príncipe desceu e, sem olhar para os lados, seguiu o bom conselho da raposinha. Pernoitou na casa feia, porém sossegada e limpa por dentro, e adormeceu tranquilamente.

Na manhã seguinte, ao prosseguir seu caminho, deparou-se novamente com a raposinha à beira do caminho, a qual lhe disse:

"Eu quero continuar lhe ajudando, aconselhando e dizendo o que você deve fazer. Vá sempre em frente, direto e reto, sem olhar para os lados, até que você irá chegar a um castelo diante do qual há um batalhão de soldados, deitados. Mas não se preocupe, pois todos eles estão dormindo e roncando. Passe por entre eles, entre no castelo e vá até o último quarto. Dentro desse quarto você irá encontrar o pássaro dourado dentro de uma gaiola velha, de madeira, pendurada na parede. Ao lado dessa gaiola de madeira estará uma outra gaiola, de ouro maciço, porém vazia; tome cuidado! Não pegue o pássaro de ouro e o coloque na gaiola dourada. Se você fizer isso algo de mal irá lhe acontecer...."

Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta correu tanto que até o vento zunia e assobiava.

Chegando ao castelo o caçula encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. O príncipe foi até o quarto onde o pássaro dourado estava dentro de uma gaiola de madeira. Notou que, ao lado, pendurado na parede, havia uma gaiola de ouro.

Então ele pensou:

“Até parece uma piada.... Já pensaram ! Eu levar um pássaro de ouro em uma simples gaiola de madeira e deixar aqui uma gaiola de ouro...??? Brincadeira, né???... . “

Assim pensando, abriu a gaiola de ouro e colocou o pássaro dourado nela.

No mesmo instante o pássaro dourado começou a piar e a grasnar muito forte e alto acordando todos os guardas do castelo, e fugiu da gaiola. Os guardas do castelo entraram correndo no quarto, prenderam o príncipe caçula e o lançaram na cadeia.

Na manhã seguinte ele foi levado a julgamento e condenado à morte.  Porém, o rei daquele castelo disse-lhe que poderia dar-lhe uma chance e salvar-lhe a vida se lhe trouxesse o cavalo de ouro e de crina branca, o qual era mais veloz que o vento e, ainda por cima, poderia ganhar de presente o pássaro e a gaiola de ouro.

Triste e desconsolado o príncipe pôs-se a caminho. Mas, onde encontrar o cavalo de ouro?  Pensando nisso ele viu sua amiga raposinha, à beira do caminho, a qual lhe disse:

"Viu só? Eu não lhe falei? Você não seguiu meus conselhos... Tudo isso lhe aconteceu porque você não deu ouvidos aos meus conselhos... Mas, coragem. Você terá outra chance. Eu vou lhe mostrar como conseguir o cavalo dourado. Você deve seguir direto e reto esse caminho, sem olhar para os lados nem para trás, até que você irá chegar a um castelo onde encontrará o cavalo dourado em um estábulo. Diante do estábulo você verá, deitados, muitos guardas, mas não se preocupe, pois eles estarão dormindo e roncando. Passe por entre eles, entre na estrebaria, pegue o cavalo e parta a galope. Mas, cuidado! Coloque sobre ele a sela feita de madeira e couro e não a feita de ouro que estará pendurado ao lado, senão algo de ruim irá lhe acontecer”.

Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.  Chegando ao estábulo o caçula encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. Foi até onde o cavalo de ouro estava, com uma sela de madeira e couro.  Pendurada, ao lado, havia uma sela de ouro puro.

Então ele pensou:

“Até parece uma piada.... Já pensaram ! Eu levar um cavalo bonito e alazão como esse com uma simples sela de madeira e couro velho?... E deixar aqui uma sela novinha de ouro?   Brincadeira, né ?...”

Assim pensando, rechaçou a sela velha e colocou a de ouro no alazão. No mesmo instante o cavalo começou a relinchar tão alto e forte que acordou todos os guardas do castelo, os quais vieram e prenderam-no levando-o diante do rei.

Depois o jovem príncipe foi posto na cadeia.

Na manhã seguinte ele foi levado a julgamento e condenado à morte. O rei daquele castelo, porém, disse-lhe que poderia dar-lhe uma chance e salvar-lhe a vida se lhe trouxesse a princesa que morava no castelo de ouro. Se trouxesse a princesa poderia levar de presente o cavalo e a sela de ouro.

Muito triste e com o coração angustiado o jovem pôs-se a caminho em busca do castelo de ouro e da princesa que nele morava. Por sorte ele logo encontrou no caminho a fiel raposinha, que lhe disse:

"Eu deveria abandoná-lo à sua própria sorte, mas eu tenho pena de você e quero ajudá-lo mais uma vez. Siga esse caminho direto e reto, sem olhar para os lados nem para trás. Ao entardecer você irá chegar a um castelo dourado. Ao soar meia-noite, quando tudo estiver em silêncio, a princesa sairá para nadar na piscina. Então, assim que ela entrar na piscina, mergulhe também e beije-a. Então ela irá seguir você. Porém não a deixe despedir-se e beijar os pais, porque se você deixá-la fazer isso, algo muito ruim irá lhe acontecer."

Após dizer-lhe essas palavras, a raposinha abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.

Quando o príncipe chegou ao castelo dourado encontrou tudo conforme a raposinha lhe havia dito. Esperou dar meia-noite e, quando tudo estava calmo e silencioso a jovem e bela princesa foi até a piscina, entrou, e logo a seguir o príncipe mergulhou e deu-lhe um beijo. Ela disse-lhe então que havia gostado dele, que o amava, e que gostaria de ir embora com ele, porém, antes teria que despedir-se de seus pais. Ele, lembrando-se dos conselhos da raposinha, disse que não. Mas ela tanto chorou e implorou e beijou-lhe tanto que ele acabou consentindo que ela se despedisse dos pais.

Logo que a jovem princesa entrou no quarto de seus pais, que estavam dormindo, beijou-os, e estes despertaram. Acordaram também todos que estavam dormindo no castelo. Houve uma gritaria e o jovem foi preso e colocado na cadeia.

 Na manhã seguinte o rei daquele castelo disse-lhe:

"Sua vida está por um fio, mas você poderá salvá-la se conseguir retirar esta montanha que está diante do meu castelo, montanha difícil de ser transposta e que me impede de ver o outro lado do meu reino. Mas veja bem, você tem que fazer isso no prazo de oito dias. Faça isso e você terá a mão de minha filha em casamento."

E o príncipe começou a cavar, a retirar terras, paus e pedras da base  da montanha que ficava diante do castelo. E trabalhou, e trabalhou e, no sétimo dia não havia feito muitos progressos, tinha retirado pouca terra. Cansado e exausto, caiu, desanimado e desesperançado, chorou.

Ao entardecer do sétimo dia apareceu novamente a raposinha sua fiel amiga e disse-lhe:

"Você não merece que eu o ajude pois foi desobediente e não seguiu meus conselhos. Última chance. Deite-se e durma ali na grama que eu vou fazer esse serviço em seu lugar”

E começou a cavar.

Na manhã do oitavo dia, quando o rei acordou e olhou pela janela, a montanha havia desaparecido. Por seu turno, feliz da vida, o jovem príncipe correu ao castelo e disse ao rei que agora este teria de cumprir a palavra e a promessa e dar-lhe a mão da princesa em casamento. Então, alegres e felizes, partiram ambos, príncipe e princesa, em uma carruagem muito bonita, puxada por seis cavalos brancos.

Não demorou muito, a raposinha apareceu-lhe no caminho e falou:

- "O melhor você já conseguiu, mas acontece que o cavalo dourado  também é da princesa do castelo de ouro..."

- "Mas como eu poderei pegá-lo?” - perguntou o príncipe.

- “Eu vou lhe explicar. Primeiramente você apresenta ao rei daquele castelo a princesa que ele lhe pediu. Então haverá uma grande alegria naquele castelo e irão lhe dar o cavalo dourado com a sela dourada. Despeça-se de todos no castelo, um por um, e deixe de despedir-se da princesa por último. E, quando você for abraçar a princesa, agarre-a, coloque-a no cavalo e parta a galope dali, pois ninguém conseguirá pegá-los porque o cavalo dourado é mais rápido que o vento."

E tudo aconteceu exatamente assim. Após pegar o cavalo, a sela e a princesa, partiu a galope. No caminho encontrou a raposinha que lhe disse:

"Agora irei ajudá-lo a conseguir o pássaro dourado. Quando você se aproximar do castelo onde o pássaro dourado vive, apeie do cavalo dourado e o conduza até o interior do castelo. Ao virem o cavalo dourado, haverá grande alegria naquele castelo e então irão lhe trazer o pássaro dourado na gaiola dourada. Quando você estiver com o pássaro e a gaiola na mão, monte no cavalo, pegue a princesa e parta dali a galope, pois ninguém conseguirá pegá-los porque o cavalo corre mais rápido que o vento."

E tudo aconteceu exatamente assim. Após pegar o cavalo, a sela, o pássaro dourado e a princesa, o príncipe partiu a galope.

No caminho encontrou a raposinha que lhe disse:

"Então, como você já conseguiu tudo que queria, agora é hora de você me recompensar pela ajuda que lhe prestei.”

"O que você quer em troca ? “ Perguntou o príncipe.

"Quando entrarmos na floresta, mate-me; decepe-me a cabeça e as patas.”

E o príncipe disse:

"Mas isso seria uma ingratidão de minha parte... Isso eu não farei.”

A raposinha falou:

"Então eu não poderei mais continuar do seu lado. Se você não fizer isso eu vou lhe abandonar; antes, porém, vou lhe dar mais um conselho: Não compre corpo de enforcado ou espancado e nem sente-se à beira de poço."

Após falar isso a raposinha entrou na floresta.

Então o jovem príncipe, pensou:

"Mas que bicho estranho essa raposinha... Tem cada mania estranha… Quem iria comprar carne enforcada? E também nunca me passou pela cabeça e nem tenho vontade alguma de sentar-me à borda de algum poço...."

E assim pensando, ao lado da jovem princesa, cavalgando, continuou em direção ao castelo de seu pai. No caminho teve que passar por aquela cidadezinha na qual haviam ficado na bagunça seus dois irmãos mais velhos. Havia ali um tumulto e barulheira infernais.

Perguntando sobre o que estava acontecendo, soube que dois rapazes seriam enforcados. Ao se aproximar mais, viu que eram seus dois irmãos que estavam sendo espancados e iriam ser enforcados porque haviam cometido muitos crimes naquele vilarejo e contraído muitas dívidas. Então ele perguntou ao carrasco se podia resgatá-los e libertá-los, ao que o carrasco respondeu:

"Pagando bem, que mal tem… "

O príncipe deu-lhes uma pena de ouro e seus irmãos foram libertados; ambos subiram em uma carruagem e se puseram em marcha rumo ao castelo do velho rei e pai.

Chegaram novamente à floresta onde haviam visto a raposinha pela primeira vez. Os irmãos mais velhos viram um poço e, como estavam com sede, disseram:

"Pare a carruagem, deixe-nos descansar um pouco aqui à beira desse poço e beber água... "

O jovem príncipe, bobinho, consentiu. Conversa vai, conversa vem, sentou-se à beira do poço e esqueceu-se dos conselhos da raposinha. Os seus dois irmãos então empurraram-no para dentro do poço, pegaram a jovem princesa, o cavalo, a sela, o pássaro dourado e a gaiola e partiram pra casa, em direção ao castelo. Lá chegando, disseram ao velho rei e pai:

"Pai, não trouxemos somente o pássaro dourado, mas também a gaiola dourada, o cavalo dourado, a sela dourada e a princesa do castelo de ouro."

E a alegria naquele castelo foi imensa. Muita festa.  

O cavalo, porém, não queria comer, o pássaro não queria cantar e a jovem princesa ficava sentada a um canto, triste e chorando.

Entrementes, ao cair no poço, o jovem príncipe não morrera. Por sorte o poço estava seco e ele caíra sobre um lodo macio, sem se machucar, porém não conseguia subir porque o poço era muito fundo. Gritando e pedindo por socorro, a raposinha, sua fiel amiga, não o abandonara, veio em seu socorro, estirou-lhe a cauda e retirou-o do fundo do poço e disse-lhe para não se esquecer dos seus conselhos, acrescentando:

"Eu não posso abandoná-lo, eu tenho que mostrar toda a verdade."

Após dizer-lhe essas palavras a raposinha disse-lhe que o levaria até o castelo de seu pai. Abaixou-se, o jovem príncipe subiu-lhe às costas e esta corria tanto que até o vento zunia e assobiava.

A caminho do castelo a Sabedoria lhe dizia:  

"Você não está totalmente livre do perigo - seus irmãos não estão seguros de que você tenha morrido, por isso enviaram bandidos a lhe procurar pela floresta para então dar cabo de sua vida. Portanto, não se deixe notar.”

Então o príncipe encontrou um mendigo pelo caminho, vestido com farrapos, e com ele trocou as roupas, motivo pelo qual, ao chegar ao castelo de seu pai não foi reconhecido. Só que, lá dentro do castelo, nesse exato momento, o pássaro dourado começou a cantar, o cavalo começou a comer e a bela princesa parou de chorar. Notando a mudança repentina, o rei perguntou:

“O que significa isso???”

E a jovem princesa respondeu:

"Eu não sei... Eu estava tão triste e depressiva e de repente fiquei alegre... É como se meu verdadeiro noivo estivesse por perto... “

Apesar de os dois irmãos malvados terem-na ameaçado de morte, caso contasse ao rei a verdade, ela relatou ao rei o que de fato havia acontecido e o modo como os dois irmãos mais velhos procederam com o caçula.

O rei chamou e reuniu todas as pessoas de seu reino e, dentre elas estava o jovem príncipe em trajes de mendigo. A jovem princesa logo o reconheceu, beijou-o, lançou-se ao seu pescoço e o abraçou. Os irmãos malvados foram julgados e expulsos do reino. O jovem príncipe casou-se com a bela princesa e herdou todo o reino e os tesouros.

Mas, o que aconteceu com a raposinha?  

Certa vez, estando o príncipe e a princesa passeando pela floresta depararam-se com a raposinha, a qual lhe disse:

"Agora você está feliz e possui tudo que desejava. A minha sorte, porém ainda não está completa e está em suas mãos resolver meu problema."

E tanto ela insistiu que o jovem príncipe decepou-lhe as patinhas e a cabeça. Logo a seguir a raposinha transformou-se em um belo e forte rapaz. Para surpresa de todos, esse jovem era ninguém mais que o irmão da jovem princesa e que havia sido enfeitiçado por uma bruxa malvada e transformado em raposinha. Desfeito o encanto, voltaram para o castelo e viveram felizes para sempre. O príncipe, a bela princesa e a Sabedoria.

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