sábado, 19 de setembro de 2026

Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa * 1 *

 

Augusto Gil
Porto, 1873 – 1929, Lisboa

DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

Ao charco mais escuso e mais imundo
chega uma hora no correr do dia
em que um raio de sol, claro e jucundo,
o visita, o alegra, o alumia;

pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
nesta contínua e intérmina agonia,
nem tenho uma hora só dessa alegria
que chega às coisas ínfimas do mundo!...

Deus meu, acaso a roda do destino
a movimentam vossas mãos leais
num aceno impulsivo e repentino,

sem que na cega turbulência a domem?!
Senhor! não é um seixo que esmagais;
olhai que é – o coração de um homem!...
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Camilo Pessanha
Coimbra, 1867 – 1926, Macau

CAMINHO (I)

Tenho sonhos cruéis: n’alma doente
sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
do peito afugentar bem rudemente,
devendo, ao desmaiar sobre o poente,
cobrir-me o coração de um véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d’harmonia,
toda a luz desgrenhada que alumia
as almas doidamente, o céu d’agora,

sem ela o coração é quase nada:
um sol onde expirasse a madrugada,
porque é só madrugada quando chora.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Eugênio de Castro
Coimbra, 1869 – 1944

A COROA DE ROSAS

A fim, oculto amor, de coroar-te,
de adornar tuas tranças luminosas,
uma coroa teci de brancas rosas,
e fui pelo mundo afora, a procurar-te.

Sem nunca te encontrar, crendo avistar-te
nas moças que encontrava, donairosas,
fui-as beijando e fui-lhes dando as rosas
da coroa feita com amor e arte.

Trago, de caminhar, os membros lassos,
acutilam-me os ventos e as geadas,
já não sei o que são noites serenas...

Sinto que vais chegar, ouço-te os passos,
mas ai! nas minhas mãos ensanguentadas
uma coroa de espinhos trago apenas!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

Fausto Guedes Teixeira
Lamego/Alto Douro, 1871 – 1930, ????

EU QUERO OUVIR O CORAÇÃO FALAR

Eu quero ouvir o coração falar
e não os homens a falar por ele!
Enquanto a gente fala, há de parar
no peito a vida estranha que o impele.

Independente à forma de o expressar,
o sentimento existe, e ai daquele
coração triste que se julgue dar
na cerração em que a palavra o vele.

Astro no peito, é sobre a língua chaga.
Dizer uma alegria ou um tormento
é um mar em que sempre se naufraga.

Era a essência de Deus vista e atingida!
Se é a força da vida o sentimento,
fez-se a palavra pra mentir a vida.
* * * * * * * * * * * * * * * *  

José Duro
Lisboa, 1875 – 1899

DOR SUPREMA

Onde quer que ponho os olhos contristados
– costumei-me a ver o mal em toda a parte –
não encontro nada que não vá magoar-te,
ó minh’alma cega, irmã dos entrevados.

Sexta-feira santa cheia de cuidados,
livro d’Ezequiel. Vontade de chorar-te...
E não ter um pranto, um só, para lavar-te
das manchas do fel, filhas de mil pecados!...

Ai do que não chora porque se esqueceu
como há de chamar as lágrimas aos olhos
na hora amargurada em que precisa delas!

Mas é bem mais triste aquele que olha o céu
em busca de Deus, que o livre dos abrolhos,
e só acha a luz das pálidas estrelas...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Fonte:
Sergio Faraco (org.) Livro dos sonetos: 1500-1900. Porto Alegre/RS: L&PM, 2016.

Fernando Sabino (Ocasiões de ficar calado)

— Como vai indo seu marido, que há tanto tempo não vejo?

— Meu marido morreu há dois anos, o senhor não sabia?

Cumprida a primeira parte da gafe, saio impávido para a segunda:

— Que coisa terrível, eu não sabia! Me desculpe, mas andei viajando...

E não tendo mais o que dizer, repito para o cavalheiro que a acompanha:

— Terrível, não acha?

Mas ele não pensa assim:

— Não acho não: sou o atual marido dela.

A consciência de que a gafe em geral se compõe de duas partes distintas. Ficar sempre na primeira, jamais tentar consertar. Ao contrário da Loteria Federal, não insista, desista! Eis o que eu, empedernido praticante, tenho a aconselhar aos meus companheiros de infortúnio. A gafe é vertiginosa e se faz anteceder de uma espécie de aviso, antecipa-se na sensação de que caminhamos no ar, como num desenho animado:

— Como foi bom encontrar você! Eu já estava achando esta festa chatíssima. Vamos embora daqui?

— Não posso, sou a dona da casa.

Ou esta outra, mais comum ainda:

— Com aquela mulher ali eu não dormia nem de graça.

— Aquela mulher ali é a minha esposa.

Se o infeliz acrescentar que neste caso dormia sim, não estará apenas caindo de quatro: estará se precipitando no abismo da mais imperdoável inconveniência, que vem a ser a repetição literal de uma velha anedota.

São gafes tradicionais, decorrentes em geral das relações de parentesco ou dos encontros de circunstância, a que os mais insensatos como eu raramente escapam. Não há como resistir ao poder magnético dos assuntos traiçoeiros, que vão espalhando armadilhas a cada passo, e nos levam sempre a falar em corda justamente na casa do enforcado.

Se sabemos que a gafe é irreversível, por que tentamos teimosamente remendá-la, afundando-nos cada vez mais?

É que ela nem ao menos é sincera. Fôssemos autênticos e verazes na convivência, a gafe se desarmaria ao peso de sua própria legitimidade. E deixaria de ser gafe.

Foi essa, pelo menos, a solução encontrada por um amigo meu, vítima também dessa maldita sina, e que ontem me dizia ter-se conformado, passando a praticá-la deliberadamente.

— Você é parente dele? Que horror!

— Morreu? Meus parabéns.

— Não sei como você, tão simpática, pode ter um marido tão chato.

— Fui cair logo ao seu lado neste banquete, mas veja só que azar o meu.

— Aliás, pelo que eu soube, a senhora não é tão velha quanto parece.

— Não aguentei ler até o fim. Ah, foi o senhor que escreveu? E ainda tem coragem de confessar?

Com isso, ele passou a ser considerado homem do mais fino espírito — excêntrico, desconcertante, é verdade — mas de esmerada educação. Apesar de tudo, outro dia recebeu o troco que lhe era devido, funcionando desta vez como receptor de uma gafe, ao dizer a uma jovem, que está escrevendo um romance: a história de um mau-caráter. 
 
E ela, inocentemente:

— Autobiográfico?
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Fernando Sabino (1923 - 2004)        
        FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. 
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.

Fontes:
Fernando Sabino. Deixa o Alfredo falar. Publicado em 1976.
Biografia = Revista Continente; O Estadão; Brasil Escola; Itaú Cultural; Letras da UFMG; Wikipedia; Educação UOL, etc.

Estante de Livros (“Beowulf”)

 Beowulf é um poema épico anônimo escrito em inglês antigo (anglo-saxão), com 3.182 versos aliterativos. A data exata de composição é incerta, mas o consenso acadêmico atual situa sua criação entre meados do século VII e o início do século XI, sendo o século VIII a data mais aceita pelos estudiosos.
 
- Ações narradas: passam-se na primeira metade do século VI, na Escandinávia (atual Dinamarca e Suécia).

- Manuscrito sobrevivente: único exemplar preservado, o Códice Nowell (ou Cotton MS Vitellius A XV), datado de cerca do ano 1000 d.C., durante o reinado de Æthelred, o Desprevenido.

- Primeira edição impressa: só veio a público em 1815, pelo islandês Grímur Jónsson Thorkelin.

- Autoria: desconhecida; provavelmente composto por um ou mais poetas cristãos em ambiente monástico ou cortesão, que reelaboraram tradições orais germânicas pré-cristãs .
 
 Resumo
 O poema conta a história de Beowulf, um guerreiro dos gautas (povo da atual Suécia), que viaja à Dinamarca para ajudar o rei Hrothgar, cujo grande salão, Heorot, é aterrorizado pelo monstro Grendel. Beowulf derrota Grendel com as próprias mãos, arrancando-lhe o braço. Em vingança, a mãe de Grendel ataca o salão; Beowulf a segue até sua toca subaquática e a mata com uma espada mágica.
 
Após esses triunfos, Beowulf volta à Geácia, torna-se rei e governa com sabedoria por cinquenta anos. Já idoso, enfrenta um dragão que devastava seu reino por causa de um roubo de tesouro. Na luta final, Beowulf mata o dragão, mas recebe um ferimento mortal. Morre heroicamente, assistido apenas pelo fiel vassalo Wiglaf, e seu povo o consagra com um funeral de fogo em um monte funerário, lamentando sua perda e temendo o futuro sem seu protetor.
 
 Descrição Detalhada da História
 
PARTE I — A Juventude de Beowulf
 
1. O flagelo de Heorot
O rei dinamarquês Hrothgar construíra Heorot, um magnífico salão onde seus guerreiros se reuniam para beber, receber presentes e ouvir cantos. Por doze anos, porém, o monstro Grendel, descendente de Caim, atacava o salão todas as noites, matando e devorando os guerreiros adormecidos. Ninguém conseguia detê-lo, e o salão ficava abandonado ao cair da noite.
 
2. A chegada de Beowulf
Ao saber da aflição de Hrothgar, Beowulf, jovem guerreiro dos gautas, reúne catorze homens e navega até a Dinamarca para oferecer ajuda. Ao chegar, é recebido com desconfiança por alguns, mas Beowulf se apresenta com confiança, declarando que enfrentará Grendel sem armas, pois o monstro também não as usa. Hrothgar aceita a oferta, embora temeroso.
 
3. A luta contra Grendel
Na noite seguinte, Grendel surge debrestado e ataca Heorot. Beowulf, fingindo dormir, o aguarda. Quando o monstro o agarra, Beowulf o segura com uma força sobre-humana. A luta é brutal: o salão treme, as paredes estremecem. No confronto, Beowulf arranca o braço e o ombro de Grendel com as próprias mãos. Ferido, o monstro foge para seu pântano, onde morre. Ao amanhecer, os dinamarqueses celebram a vitória, e o braço de Grendel é pendurado no teto de Heorot como troféu.
 
4. A vingança da mãe de Grendel
A alegria dura pouco. Na noite seguinte, a mãe de Grendel, também um monstro, surge em Heorot para vingar o filho. Ela mata Æschere, o conselheiro favorito de Hrothgar, e foge levando o braço do filho. Beowulf acompanha Hrothgar até o pântano, onde vê a cabeça de Æschere à margem. Mergulha nas águas turvas e desce até a toca subaquática da criatura. Lá, a mãe de Grendel o ataca, e Beowulf quase sucumbe. No entanto, ele encontra uma espada mágica feita por gigantes, que jazia no fundo da caverna. Com ela, decapita o monstro. No fundo da toca, encontra também o corpo de Grendel e corta-lhe a cabeça como prova. A espada derrete ao tocar o sangue do monstro, restando apenas o punhal. Beowulf regressa à superfície com a cabeça de Grendel e o punhal da espada.
 
5. A volta à Geácia
Beowulf entrega os troféus a Hrothgar, que o cobre de presentes e o elogia como o maior dos heróis. Beowulf navega de volta à terra dos gautas, onde relata suas façanhas ao rei Hygelac, que o recompensa com terras e um espada magnífica.
 
 PARTE II — A Velhice e a Morte de Beowulf
 
6. O reinado e o despertar do dragão
Hygelac morre em batalha, e Beowulf, após um período como regente, torna-se rei dos gautas. Governa com justiça e bravura por cinquenta anos, mantendo seu povo em paz. Até que um escravo, fugindo de seu senhor, encontra uma caverna cheia de tesouros guardada por um dragão que cuspia fogo. O escravo rouba uma taça de ouro para apaziguar seu dono e foge. Ao descobrir o roubo, o dragão se enfurece e, todas as noites, voa sobre o reino de Beowulf, queimando aldeias e destruindo tudo com seu hálito ígneo.
 
7. A luta final
Já idoso, mas ainda destemido, Beowulf decide enfrentar o dragão sozinho, como fizera outrora. Levanta um escudo de ferro e empunha uma espada. Com onze vassalos e o escravo guia, vai até a caverna. Ao ver o dragão, os vassalos, tomados de pavor, fogem para a floresta, exceto Wiglaf, jovem parente de Beowulf, que lembra os favores recebidos e decide ajudar o senhor.
 
A luta é terrível: o dragão ataca com fogo e dentes. A espada de Beowulf falha, e o monstro o morde no pescoço, causando um ferimento mortal. Wiglaf intervém, ferindo o dragão no ventre. Beowulf, reunindo suas últimas forças, saca um punhal e crava-o no coração do monstro, matando-o. A vitória é consumada, mas Beowulf está condenado.
 
8. A morte e o funeral
Beowulf, sentindo a morte chegar, pede a Wiglaf que traga o tesouro do dragão para que possa contemplá-lo. Ao ver a riqueza, agradece a Deus e diz a Wiglaf que não é filho, mas que o adota como sucessor. Ordena que se construa um monte funerário alto à beira-mar, para que os navegantes o vejam e lembrem de seu nome. Com isso, o herói expira.
 
Os vassalos covardes regressam e são repreendidos por Wiglaf. O povo lamenta profundamente a morte do rei. Construem uma pira funerária, colocam o corpo de Beowulf sobre ela e a incendeiam. Depois, erguem um monte alto sobre as cinzas, encerrando nele o tesouro e o nome de Beowulf. Doze guerreiros cavalgam ao redor do monte, cantando os feitos do herói e lamentando sua partida. O poema termina com um lamento: os gautas choram a perda do melhor dos reis, o mais amável e generoso, o mais ávido de glória e o mais protetor de seu povo.
 
 Temas Centrais
 
Heroísmo 
Beowulf encarna o ideal guerreiro: coragem, força e lealdade, disposto a arriscar tudo pelo povo 

Bem vs. Mal 
Os monstros representam o caos e o mal; Beowulf, a ordem e a virtude 

Morte 
A morte é inevitável; o herói busca a glória póstuma como única forma de imortalidade 

Fidelidade e Traição 
Wiglaf simboliza a lealdade ideal; os vassalos fugitivos, a vergonha da covardia 

Cristianismo e Paganismo 
O poema mescla valores germânicos pagãos com uma moldura cristã (Deus como protetor, Grendel como descendente de Caim)
 
 Conclusão
 Beowulf é a obra-prima da literatura anglo-saxônica e o mais antigo épico vernáculo europeu preservado. Em sua estrutura tripartite — juventude (Grendel), maturidade (mãe de Grendel) e velhice (dragão), — traça um percurso que vai da força bruta à sabedoria e, finalmente, ao sacrifício supremo. É um poema sobre a glória, a morte e a memória: o herói morre, mas seu nome perdura, erguido em pedra e canto, enquanto seu povo, em luto, encara um futuro sem o protetor que os salvara três vezes.

Fonte:
A. I. Dola.

Daniel Maurício (Devaneios Poéticos) 5

 

Ah, pobre palhaço!
O teu sorriso é pintado
E tua alma de criança
Chora soluçando em silêncio.
= = = = = = = = = = = = = =  

ANSIEDADE

Às vezes
É preciso acrescentar
A letra C na palavra alma
E calmamente
Deixar os sonhos ronronando feito um gato
Nas tardes envelhecidas.
= = = = = = = = = = = = = =  

Busquei estrelas
Mas as do céu da tua boca
Tinham gosto de inocência
Sabor de quero mais.
= = = = = = = = = = = = = =  

Chovia...
A janela do meu eu lacrimejava
E a solidão,
Essa velha louca
Adormecida no porão da minh'alma,
Amanheceu resmungando
E arrastando os seus chinelos pela casa.
= = = = = = = = = = = = = =  

Ela era dissimulada,
Tipo "olhos de Capitu"
Até que um dia
"Caiu a máscara"
E o beijo deslizou
Pelo corpo nu.
= = = = = = = = = = = = = =  

Gratidão
É uma caixinha de veludo
Onde se guarda o que é eterno.
PS.: Guardei você!
= = = = = = = = = = = = = =  

Na fotografia
A poesia se revela
Cheia de poses
Espelhada
Com muitas caras e bocas
Se veste de fantasias
Tão coloridas
Mas às vezes doída
Se desnuda em pranto
Em preto e branco
Sem início
Sem fim

* Homenagem aos meus amigos fotógrafos
= = = = = = = = = = = = = =  

CAÇADOR DE ILUSÕES

Quando a paixão me cegou
corri atrás de ilusões
feito criança perseguindo borboletas.
Os cabelos grisalhos
gritam silenciosos no espelho
os segredos do amanhã.
= = = = = = = = = = = = = =  

CICLO

No princípio era o caos
progredimos, progredimos...
agredimos.
No final era o caos
nos encontramos.
= = = = = = = = = = = = = =  

ENTRELINHAS

Não quero dizer nada
quando escrevo.
Quero apenas,
despertar as entrelinhas
adormecidas em cada peito.
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GOLE D’ ÁGUA

A ira
o fogo
a mágoa.
O melhor a fazer
é tomar um gole
d'água.
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GOMA AMARGA

Senti o barulho da fantasia
a se quebrar dentro de mim.
Não ouvi o sino,
chorei menino
o vazio estava ali
em mim.
Passou o tempo,
chegou a idade
a realidade,
amarga goma de mascar.
= = = = = = = = = = = = = =  

GRANIZO

O branco pipocava nas calçadas.
Em sangue,
o morro escorria
pelos rios e pelas ruas da cidade.
= = = = = = = = = = = = = =  

Nos olhos do menino
Madrugavam sonhos.
Sem entender direito o que era fé
Esperava pelo sol
Mesmo diante das "chuvas de nãos"
Que tentavam borrar o seu sorriso.
= = = = = = = = = = = = = =  

Que sorte
Quando por ti
Perdi o meu norte
Foi que eu me encontrei.
= = = = = = = = = = = = = =  

Tu dizes
Que em ti
Fiquei plantado
Como uma boa lembrança.
Mas em mim,
Tu ainda floresces
Independentemente da estação.
= = = = = = = = = = = = = =  
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Daniel Maurício (1968)
DANIEL MAURICIO é um premiado e reconhecido poeta paranaense, célebre na cena cultural de Curitiba por seus poemas curtos, de forte apelo lírico e grande impacto emocional. Nasceu em 1968, na cidade de Jaguariaíva/PR, filho de Francisco Mauricio e Olinda Brisola Mauricio. Embora nascido nos Campos Gerais, construiu sua vida pública e literária radicado em Curitiba, onde reside atualmente. Possui uma sólida e diversa bagagem educacional. É graduado em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Administração de Empresas pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná (FESP) e em Direito pelas Faculdades Integradas Santa Cruz de Curitiba (FARESC). Além disso, carrega diversas pós-graduações em áreas como Gestão Pública, Tributária e de Pessoas. Foi Professor da Rede Municipal de Ensino em Curitiba, Contabilista da Prefeitura Municipal de Curitiba. Monitor na área de Linguística na Universidade Federal do Paraná; integrante do Projeto VARSUL – Variação Linguística da Região Sul desenvolvido pelas Universidades Federais do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Atua profissionalmente como Auditor de Tributos Municipais na Secretaria Municipal de Finanças da Prefeitura de Curitiba.
Notabilizou-se pela produção de micropoemas e poesias de tom intimista, focando em reflexões existenciais e miudezas do cotidiano, muitas vezes compartilhadas ativamente em suas redes sociais. Integra várias agremiações culturais e literárias de relevância nacional e internacional, incluindo: Centro de Letras do Paraná (CLP) (onde atua também na Comissão de Serviços ao Associado); Academia Poética Brasileira (APB); Academia Brasileira de Letras e Artes Virtuais (ABLAV); Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil (ACILBRAS); Academia Biblioteca Mundial de Letras y Poesía, etc.
Ao longo de sua caminhada poética, o autor recebeu condecorações de prestígio no cenário paranaense, destacando-se: Ganhador do Concurso Poemas Curtos (2014) da Prefeitura Municipal de Curitiba; Prêmio Marilda Confortin (2015); Prêmio Alice Ruiz (2016). Possui uma extensa bibliografia, tendo inclusive realizado lançamentos coletivos impressionantes devido ao seu grande volume de manuscritos guardados. Entre as suas principais obras individuais estão: Mosaico de Sentimentos; Cacos e Retalhos; Origamis de Palavras; (Des)importâncias; Superprodução Lírica (Kit de 10 Livros lançados simultaneamente): Amar é, Poesias da Madrugada, Miudezas do Coração, Olhares, Alma Lírica, Gotas Poéticas, Leve-me, Poemininos e Palavras de Cheiro.
Daniel Mauricio representa a continuidade da forte tradição de poesia concisa e visceral do Paraná, carregando influências e homenageando ícones locais (como o seu patrono acadêmico, Paulo Leminski). Ele desempenha um papel crucial na oxigenação da literatura contemporânea paranaense por meio do uso das mídias digitais para democratizar a leitura e aproximar os leitores da poesia diária. Embora sua atuação principal seja na palavra escrita, a sua poesia possui uma forte carga de musicalidade intrínseca, ritmo e cadência melódica rápida, características típicas da linhagem poética curitibana contemporânea, o que torna seus escritos facilmente adaptáveis para a sonoridade falada e saraus líricos.

Fontes:
Academia Facebookiana de Letras e das Artes
Kit de Livros de poesias enviados pelo poeta.

Eduardo Martínez (Dona Irene e a cachaça em Poços de Caldas)

Numa madrugada de 2012, a Dona Irene e eu estávamos saindo de São José do Rio Pardo-SP, onde fomos deixar uma linda cadelinha da raça Dogue de Bordeaux. Antes de irmos embora, perguntamos para a dona da cachorrinha se havia alguma cidade interessante perto dali para conhecermos. Ela disse que Poços de Caldas-MG era bonita e ficava a uns 60 quilômetros. A Dona Irene, que nessa época era minha namorada, olhou para mim e sorriu aquele sorriso mais lindo do mundo. Isso, para quem não sabe, é o sim da minha hoje esposa e, então, entramos no carro e voltamos para a estrada.

  Como nessa época viajávamos com um antigo mapa de papel, fomos muito atentos para não errarmos o caminho. Não sei exatamente quanto tempo levamos para chegar à cidade mineira, mas lembro do motel em que dormimos. É que havia uma espécie de jardim de inverno ao lado da cama, com uma porta de vidro quebrada e o céu como teto. Isso mesmo, apesar de haver uma cobertura no quarto, isso não acontecia com a parte do jardim de inverno. Além do mais, fazia um frio tão intenso, que, se estou escrevendo estas linhas hoje,  é porque fui salvo pelo doce calor emanado do corpo da Dona Irene.

  Fomos despertados com o sol batendo na nossa cara. Ainda tentamos cobrir o rosto com o fino lençol, até que a minha amada disse que estava com fome. Levantamos e fomos procurar alguma coisa para preencher o estômago da minha namorada, já que aquele motel não servia café da manhã. 

    Assim que entramos no carro, percebemos que o motel ficava perto do centro. Paramos em uma cafeteria, onde a Dona Irene fez seu desjejum, enquanto eu, como sempre faço pela manhã, tomei meu café preto. Sem açúcar, pois, de doce, já basta a vida. 

   Não sei se você conhece Poços de Caldas, mas vou lhe dizer assim mesmo. Das inúmeras cidades que conheço em Minas Gerais, é a mais agradável. E olha que já passei por várias outras muito legais também. 

    Logo que saímos da cafeteria, fomos dar uma volta para apreciar melhor o local, quando, de repente, um simpático senhor em uma charrete nos convidou para darmos um passeio, ao custo de não sei quanto, mas que não achei caro na época. Seja como for, o passeio estava extremamente agradável, quando, sem avisar, o condutor parou a charrete e nos convidou para conhecermos uma loja de cachaça e queijos. 

  Para falar a verdade, achei aquilo meio esquisito, pois eu queria mesmo é continuar naquele clima bucólico ao lado da minha namorada. Todavia, antes que eu pudesse continuar nessa divagação rabugenta, eis que me chega alguém com uma dose de cachaça e uns pedaços de queijo. Eu não bebo e, pela manhã, é difícil descer algo sólido para o bucho. 

    Agradeci, mas, antes que esse alguém saísse da minha frente, a Dona Irene não se fez de rogada e já foi entornando a cachaça para dentro do estômago, como se aquilo fosse água mineral da fonte mais pura. Para rebater, ela pegou um pedacinho daquele queijo tão cheiroso.

    Depois disso, fiquei compelido a comprar uma garrafa de cachaça e um queijo naquela loja, mas o homem da charrete nos puxou pelo braço e disse que tínhamos que ir. De volta ao passeio bucólico, até comecei a apreciar novamente aquele balançar gostoso ao som dos cascos do cavalo, que soube se chamar Tufão. No entanto, o condutor parou novamente justamente em frente a uma nova loja, também de cachaça e queijo. Descemos, entramos no tal comércio, alguém me ofereceu cachaça e queijo, educadamente recusei, enquanto a Dona Irene botou tudo para dentro. 

   Pois bem, para encurtar a história, que já está muito mais longa que o costumeiro, voltamos para a bendita charrete antes que pudéssemos comprar qualquer coisa. Depois paramos em não sei quantos novos estabelecimentos, eu recusei tudo o que me ofereceram, ao contrário da minha namorada, que, àquela altura, aceitaria até mesmo sopa de pedra. 

    Finalmente o passeio terminou, quando já era perto da hora do almoço. Tive que auxiliar a minha amada a descer da charrete, pois ela estava tão trôpega, que mal conseguia se lembrar de onde estávamos. Aliás, essa parte estou escrevendo aqui em casa com a Dona Irene me olhando torto e sentada no sofá aqui da sala.

    Procuramos um local para deitarmos, justamente sob a copa de uma árvore. Acabamos adormecendo por algumas horas. Fui despertado pelas cutucadas da minha amada, que, pasmem, estava nova como folha. Ela se levantou numa agilidade improvável para alguém que havia ingerido tanto álcool e, então, me fez o seguinte convite: "Quero conhecer o ET! Será que Varginha fica muito longe?”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Eduardo Martínez (1967)
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
    Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 28.04.2022

Aparecido Raimundo de Souza (A Corrida dos credores)

O MACIEL BARBOSA resolveu, de última hora, que tinha de participar da corrida que acontecia todos os anos. Assim, foi até o local da inscrição e mandou brasa. Não esperava ganhar o primeiro lugar, claro, nem reunia condições físicas para isso. A coisa só ficaria na brincadeira, ao menos aliviaria um pouco o estresse do dia-a-dia e de roldão os muitos problemas com a rotina enervante da vida, sem contar com a falta de serviço, contas para pagar, telefone cortado, celular mudo, prestações do carro vencidas, etc., etc... 


Pegou o número que a moça lhe estendeu num pedaço de papel e voltou ligeiro para casa. No caminho, antes de chegar para o almoço, resolveu tomar uma cervejinha. Lugar comum, de costume: o barzinho do Fred Frederico – amigo das peladas de todos os sábados no campinho da ferroviária e no tempo das vacas gordas, das malhações na academia “Mens sana in corpore sano” de um outro da turma, o Leandro “Olho Saltado”. Mal sentou, chegou atrás, no vácuo, o Tadeu Fantini, dono da lanchonete perto da Praça da Prefeitura. 

O Fantini, agiota sem escrúpulos (não perdoava nem a mãe). Maciel devia a ele os juros de um cheque sem fundos, (no tempo em que os cheques se faziam moedas de troca) barganhados a vinte por cento há anos. Por conta desse “voador inesperado” o capital há muito havia sido pago, só em “costurar buracos na colcha”, ou seja, nas prorrogações, a título de juros, afora o cara ter abocanhado uma televisão de vinte polegadas, anel de formatura, relógio, vídeo cassete um Fusca bem conservado e até a mesa de escritório com cadeiras e escrivaninha de computador. Maciel Barbosa tremeu na base. 

Fugiu tanto do infeliz e eis que, de repente, saído dos quintos do inferno, a sua frente aparece o Fantini como urubu magro secando a carniça gorda.
— Estava passando, vi você, resolvi parar. 
— Fez bem. Ia te ligar daqui a pouco...
— E a “baba”? 
— Segunda-feira, sem falta. 
— Tudo? 
—  Só uma refrescada, com o restante para mais trinta dias. 
—  Passa lá em casa.
—  Com certeza. 

O diálogo se encerrou aí. Mas os problemas de Maciel só começavam. Pintou o Guerinto, da barbearia e senhorio da casa onde ele morava de aluguel com a mãe e mais cinco irmãos menores. O velhote trazia consigo, uma dessas garotas de programa, sustentadas por seus bolsos, graças ao aluguel das espeluncas que ele mantinha em constante atividade de comodato, onde, aliás, por debaixo dos panos, formigava, nos fundos da barbearia, uma casa conhecida como o “Reduto da luz vermelha”.
— Seu mês venceu dia cinco. Hoje são dezoito.  

O Maciel, apesar das dívidas, não se fazia de rogado. 
— Segura as pontas. Segunda-feira a gente acerta. Vou correr domingo, na Oitava aqui do Bairro contra Bairro.
— E o que eu tenho a ver com isso?
— Pretendo ganhar o prêmio. Aliás, vou... 
— Se der zebra? 
— Pense positivo. Torça por mim.
— Com certeza. Boa sorte. Até mais ver. 

Mal e porcamente o Guerinto virou as costas, apareceu o abutre do Milton Creto, acompanhado do sobrinho Oduvaldo Mata Sete. A esse cavalheiro Maciel devia uma soma considerável. Milton não entrara no Bar do Fred Frederico para cobrar, mas para comprar cigarros e fósforos. Bateu sem querer os olhos, por acaso no Maciel, e, por conta, não custava marcar presença. 
— O companheiro anda meio afastado lá do prédio ou é impressão minha?
— Impressão. 
— E a conta? 
— Terça-feira.
— Não dá mais para ficar só nos acessórios. Necessito, com certa urgência, do principal. 
—Terça-feira.
— Palavra? 
— De escoteiro. 
— Passe bem.
— Espero que sim.

O dia da corrida, um domingo ensolarado chegou ligeiro. Um inferno. Gente de todos os lados vinda de muitos lugares abarrotava a pequena cidade suburbana. A galera se acotovela por todas as partes, mal dava para se atravessar uma rua sem esbarrar em algum desconhecido (conhecido) especificamente que ele, o Maciel, não devesse uma grana.  Em vista disso, o desgraçado se escondia disfarçado de fujão inveterado. Pois bem! Por sorte, ou azar, sabe-se lá como, chegou em primeiro lugar e ganhou a corrida. Ao subir ao pódium para receber a medalha e o mais importante, a grana preta do prêmio milionário, um dos muitos a quem ele devia, por azar, o doutor Bisteca Mal Passado, o reconheceu em meio a tumultuada multidão. 

O doutor Bisteca Mal Passado, era o delegado de polícia da localidade e ao vê-lo dando sopa e, tendo em vista um ocorrido inesquecível e imperdoável, além da grana que o sujeito havia tomado, o Maciel “papara” a única filha do temido homem da lei”. Ao vê-lo, o delegado se encheu de razão, puxou do bolso um apito, e claro, quase o engoliu, afoito. Forte, raivoso e encapetado, apitou. Como num passe de mágica, uma galera de policias a paisana que estavam a serviço, ao ouvirem o som da autoridade maior, se juntaram e saíram correndo nos calcanhares do pobre e infeliz Maciel. 

— Ali, ali, ali, lembrem-se... quero o meliante vivo, vivo...

Maciel, por seu turno, deu linha à pipa. Botou sebo nas canelas e desembestou rua abaixo, se esquivando de uns desmiolados que ao também ouvirem o apito do chefe da unidade policial, se uniram para botar-lhe as mãos em seus esqueletos. Ninguém conseguiu tal proeza. Maciel, entretanto, careceu de correr novamente. Correr não, voar, só que desta feita, para se livrar de uma turba de homens e mulheres em polvorosa que levada pelo som de um “pega esse safado, pega esse infeliz” se viu obrigado a sair da cidade suando em bicas e nunca mais foi visto. Até hoje, ninguém sabe em que buraco o pobre abestado se meteu. 

O delegado encheu a cidade de canto a canto com cartazes num acirrado “Procura-se vivo ou morto”. Enquanto o Maciel não é capturado, e lá se vão mais de três anos, o doutor Bisteca Malpassada desfila pela cidade com a netinha à tiracolo, a linda e fofa Iasmim puxada pelo braço. De vez em quando, dá uma parada diante de uma foto do pai da menina pendurada aqui e acolá e sussurra no ouvido da mocinha: 

— Esse malandro aí é seu pai. Um dia o vovô pega ele...  
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.
Texto enviado pelo autor

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Roberto Tchepelentyky (Semeando Trovas)


A caminho do infinito,
prossigo a minha viagem...
Levo o que é de mais bonito:
O nosso amor na bagagem!
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A chama já consumia
a casa do seu Arlindo,
quando psiu... ele dizia:
" Minha sogra está dormindo"!...
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À interferência me oponho 
do que não pude viver... 
Acendo a luz de outro sonho 
e me faço amanhecer!
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A minha sogra eu veria,
não importa em que planeta,
se pudesse, todo dia...
Claro, por uma luneta!!!
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Amor, estranha magia,
do coração e da mente.
Com toda sua alquimia,
nos faz um adolescente.  
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À noite, em frente á TV,
a vovó e o manto dela...
Ela dorme e nada vê,
o manto assiste à novela...
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A paz que tanto nos falta,
deixando a vida feroz,
é uma criança peralta,
oculta dentro de nós!
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A vida é um fogo de palha
e o tempo se mostra algoz,
mais parece uma fornalha
onde a palha...  somos nós! …
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"Bate" a inspiração na gente...
Verso nenhum se aquieta,
quando Deus, onipotente,
nos permite ser poeta!
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Deixa o que passou "de lado",
a vida é um ensinamento...
Pois lamentar o passado
é correr atrás do vento!...
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Dentista tem a virtude
de cumprir sua missão,
sendo artesão da saúde,
traz sorriso ao seu irmão!
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Dentre as forças deste mundo,
procurando paz, eu vim,
encontrá-la aqui no fundo,
de onde crio a força em mim.
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De político do “avesso”,
a gente já tem calombo...
pois, quando ele dá tropeço,
é o povo que leva o tombo!!!
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Deste-me um beijo no rosto,
tal qual verso de ousadia…
e o problema meu é o gosto
de completar a poesia!
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Em cada dia, a humildade
nos ensina uma lição…
É um degrau da humanidade
na escala da evolução!…
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E o velhinho gritou: “Opa!...”
Depois de tanta procura...
no prato de sua sopa,
encontrou a dentadura.
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Lamenta a tecnologia...
e, por saber, não se acalma,
que jamais construiria
um homem de corpo e alma!
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Louvo "Os Timbiras" na história,
por ser um poema fecundo:
São quatro cantos de glória
nos quatro cantos do mundo!…
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Na despedida, o teu lenço
deixou o meu com “revolta”!
Nem viu, num adeus intenso...
que o meu...acenava: Volta!!!
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Na homenagem ao dentista,
com singelos versos, friso:
Mais do que ser um artista,
é um poeta do sorriso!
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Nossos olhares ousados,
já perceberam que são
dois desejos conjugados
num “ jogo de sedução”!…
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O amargor da despedida
de alguém que amamos demais,
é ter o sabor na vida
do “gosto de nunca mais”!…
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O "bebum" vai ao velório
e abraça a "booooa” comadre,
dando um pesar vexatório:
"Me solta, que eu sou o Padre!!!”
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O bem oculto a dispor,
seja a quem for, sem vaidade,
é a essência pura do amor,
vestida de caridade!
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O chão do quarto molhado...
A sogra pagou o mico
após seu grito abafado:
" Meu Deus! Errei o penico"!!!
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O destino escreve a escolha
do amor de nós dois assim:
Páginas da mesma folha...
Tu... de costas para mim!…
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O silêncio traz a paz
do universo e se engrandece,
com amor que o homem faz
do silêncio sua prece! 
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O teatro é fantasia,
mas, às vezes, como tal,
ninguém o diferencia
da nossa vida real...
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O vento faz serenata
e o mar se põe a cantar
versos, em ondas de prata,
de uma poesia... ao luar…
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Partiste... E a nossa amizade
no infinito se enternece...
Tu me mandas a saudade,
eu te mando a minha prece!…
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Político que faz "rolo",
bem ou mal ele se arranja,
pois no meio do seu "bolo",
tem recheio de "laranja"!!!
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Pra aquela visita chata,
o que me deixa mais louco,
é ouvir a frase insensata:
"Já vai? Fica mais um pouco"!...
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Pra que a filha não se “perca”,
meu vizinho fica alerta...
De que vale “fazer cerca”
pra quem tem porteira aberta?!
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Quem tem amor verdadeiro  
que brota no coração,
vivifica o seu canteiro
com as flores do perdão!
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Sobre a parreira, o luar
no sereno te retrata…
E os teus olhos a brilhar:
“Duas uvas”… cor de prata…  
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Ter “gandula bonitinha”,
rebolando, só piora...
O jogo quase não tinha:
- por tantas bolas pra fora! ...
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Teu abraço me agasalha
com carinho tão profundo...
sinto em volta uma muralha,
separando-nos do mundo!…
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Teu “jogo de amor” peralta,
por ciúme, nos devora:
- tu cobraste a minha falta,
batendo o “pênalti” fora! …
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Três luas, na madrugada, 
me fazem um sonhador: 
Uma no céu, prateada... 
e as do olhar de meu amor!
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Um amor que já floresce,
escondido, não se assume.
É uma flor que nem parece...
Mas que exala seu perfume!
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Um casal tão agitado
no sofá de namorico,
parecia ter tomado
um banho de pó-de-mico!...
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Vive a "página da vida"
nem que seja a "solavanco"!...
Pior é quem na "partida",
carimba a página: "Em branco"!

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Roberto Tchepelentyky
ROBERTO TCHEPELENTYKY é um dos nomes da trova contemporânea na capital paulista. Nasceu na cidade de São Paulo/SP, onde reside atualmente. Na esfera profissional, divide sua rotina entre as artes e a ciência médica, atuando como médico Clínico Geral na região de Santo Amaro, em São Paulo. Essa dupla jornada — a precisão do diagnóstico e a sensibilidade do verso — reflete-se na profundidade de suas composições.
Roberto descobriu o universo da trova em 2003, através do magnífico trovador Izo Goldman. Desde então, tornou-se um dos poetas mais ativos do movimento. Concorrente assíduo e multipremiado em Jogos Florais e concursos nacionais e regionais. A sua produção poética está vastamente documentada em antologias oficiais, coletâneas de Jogos Florais por todo o Brasil e em publicações especializadas do gênero da trova, tanto impressas quanto em importantes portais trovadorescos. 
A relevância de Roberto Tchepelentyky para a literatura nacional reside no seu papel de guardião e modernizador da Trova. Com humor refinado, lirismo e capacidade de síntese poética, Roberto não apenas enriquece o patrimônio literário paulistano com suas vitórias em concursos, mas também atua ativamente nos bastidores da trova. Ele ajuda a democratizar o acesso à poesia, provando que a literatura clássica e rimada continua vibrante, acessível e essencial no século XXI.