sábado, 3 de outubro de 2026

Guerra Junqueiro (O Fato Novo do Sultão)

Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário todo o seu rendimento.

Quando passava revista ao exército, quando ia aos passeios ou ao teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como se diz de um rei: Está no conselho, dizia-se dele: está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças à quantidade de estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá um dia dois larápios, que, dando-se por tecelões, disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não eram só extraordinariamente ricos os desenhos e as cores, mas além disso, os vestuários, feitos com esse estofo, possuíam uma qualidade maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para todos aqueles que não exercessem bem o seu emprego.

– São vestuários impagáveis, disse consigo o sultão; graças a eles, saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso desse estufo.

E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada, para. que pudessem começar os trabalhos imediatamente.

Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.

Requisitavam seda e ouro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isto muito bem guardado, trabalhando até à meia-noite com os teares vazios.

– Necessito saber se a obra vai adiantada.

Mas tremia de medo, lembrando-se de que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E por mais que confiasse na sua inteligência, achou em todo o caso prudente mandar alguém adiante.

Todos os habitantes da cidade conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exato.

– Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um grande talento; ninguém melhor do que ele pode avaliar o estofo.

Entrou o honrado ministro na sala em que os dois impostores trabalhavam com os teares vazios.

– Meu Deus! disse ele para si arregalando os olhos, não vejo absolutamente nada! Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a opinião sobre os desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, olhava, mas não via nada, pela razão simplíssima de nada lá existir...

– Meu Deus! pensou ele, serei realmente estúpido? É necessário que ninguém o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.

– Então que lhe parece? perguntou um dos tecelões.

– Encantador, admirável! respondeu o ministro, pondo os óculos. Este desenho... estas cores.., magnífico!... Direi ao sultão que fiquei completamente satisfeito.

– Muito agradecido, muito agradecido, disseram os tecelões, e mostraram-lhe de novo as cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe deles uma descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois repetir tudo ao sultão.

Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata, e mais ouro; precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no bolso, é claro; o tear continuava vazio, e apesar disso, trabalhavam sempre.

Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funcionário, homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não via nada.

– Não acha um tecido admirável? perguntaram os tratantes, mostrando o magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente de não existir.

– Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois não serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! mas deixá-lo, não o deixo eu.

Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo desenho e o bem combinado das cores.

– É de uma magnificência incomparável, disse ele ao sultão.

E toda a cidade começou a falar desse tecido extraordinário.

Enfim, o próprio sultão quis vê-lo enquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois honrados magnatas, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de ouro, nem de espécie alguma.

– Não acha magnífico? disseram os dois honrados funcionários. O desenho e as cores são dignos de Vossa Alteza.

E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali estavam pudessem ver alguma coisa.

– Que é isto! disse consigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível! serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que desgraça que me acontece! Depois, de repente, exclamou: É magnífico! Testemunho-vos a minha real satisfação.

E meneou a cabeça com um ar prazenteiro, e olhou para o tear, sem se atrever a declarar a verdade, Todas as pessoas do séquito olharam do mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem verem coisa alguma, e no entanto repetiam como o sultão:

«É magnífico!» Deram-lhe de conselho que se apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnífico! é encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas; e a satisfação era geral.

Os dois impostores foram condecorados e receberam o título de fidalgos tecelões.

Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à luz de dezesseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio, e declaram, ao cabo, que estava o vestuário concluído.

O sultão com os seus ajudantes de campo foi examiná-lo, e os impostores levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram:

– Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha; é a principal virtude deste tecido.

– Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.

– Se Vossa Alteza se dignasse despir-se, disseram os larápios, provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.

O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do espelho.

– Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortesãos. Que desenho! que cores! que vestuário incomparável!

Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias:

– Está à porta o dossel sob o qual Vossa Alteza deve assistir à procissão, disse ele.

– Bom! estou pronto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.

E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçá-la.

É, enquanto o sultão caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a gente na rua e às janelas exclamava: «Que vestuário magnífico! Que cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguém queria dar a perceber que não via nada, porque isso equivalia a confessar que era tolo. Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.

– Mas parece que vai em cuecas, observou um pequerrucho, ao colo do pai.

– É a voz da inocência, disse o pai.

– Há ali uma criança que diz que o sultão vai em cuecas.

«Vai em cuecas! vai em cuecas!» exclamou o povo finalmente.

O sultão ficou muito aflito, porque lhe pareceu que realmente era verdade. Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até ao fim e os camaristas submissos continuaram a levar com o máximo respeito a cauda imaginária.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Guerra Junqueiro (1850 – 1923)
ABÍLIO MANUEL GUERRA JUNQUEIRO foi o poeta mais popular e politicamente influente de sua época em Portugal. Conhecido como o "Victor Hugo português", suas sátiras afiadas e seu profundo lirismo social atuaram como verdadeiros combustíveis ideológicos para a queda da monarquia e a subsequente implantação da República Portuguesa. Nasceu em Freixo de Espada à Cinta, na região de Trás-os-Montes, em Portugal, em 1850  e faleceu em Lisboa, Portugal, em 1923 (aos 72 anos), vitimado por problemas de saúde decorrentes da idade. Passou a infância em Trás-os-Montes e mudou-se para Bragança e depois Coimbra para realizar seus estudos. Ao longo de sua vida adulta e carreira política, alternou residências entre Lisboa e Porto. Também morou temporariamente em Berna (Suíça) devido às suas funções diplomáticas. Filho de um lavrador abastado, Junqueiro inicialmente foi direcionado à vida eclesiástica por sua família conservadora. No entanto, abandonou o seminário para cursar Direito na Universidade de Coimbra, formando-se em 1873. Sua carreira foi altamente multifacetada. Atuou como jornalista e cronista em periódicos influentes de sua época. Trabalhou como alto funcionário administrativo do Estado, atuando como Secretário-Geral Civil em Angra do Heroísmo (Açores) e em Viana do Castelo. Teve uma ativa carreira parlamentar, sendo eleito Deputado nas cortes portuguesas pelo partido progressista e, mais tarde, um dos principais defensores das causas republicanas. Com a consolidação da República, foi nomeado Ministro Plenipotenciário (Embaixador) de Portugal na Suíça entre os anos de 1911 e 1914.
Guerra Junqueiro despontou para o mundo das letras na efervescente Coimbra do fim do século XIX, integrando o movimento acadêmico e revolucionário conhecido como a Geração de Coimbra. Inicialmente influenciado pelo romantismo tardio, ele rapidamente migrou para o Realismo e o Naturalismo, integrando o grupo de intelectuais do Cenáculo. Diferente de outros autores de sua era, a atuação de Junqueiro concentrou-se mais em associações políticas, grêmios intelectuais e revistas de vanguarda (como a Lanterna Mágica e A Folha) do que em academias de letras formais. Ele recusava formalismos institucionais tradicionais por sua postura altamente rebelde, anticlerical e antimonárquica. No século XIX e início do século XX, o sistema de premiações literárias oficiais em Portugal quase não existia nos moldes atuais. O maior "prêmio" de Guerra Junqueiro foi o imenso clamor público e popularidade inédita, tornando-se o poeta mais lido e declamado do país. (Nota: Atualmente, seu legado batiza o prestigioso [Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia, instituído para condecorar grandes nomes da literatura em língua portuguesa).
Principais Livros: A Morte de D. João (1874) – Obra que o consagrou no realismo satírico; A Velhice do Padre Eterno (1885) – Forte e polêmica sátira anticlerical; Finis Patriae (1890) e Pátria (1896) – Poemas panfletários de protesto contra o declínio da monarquia e o Ultimato Britânico; Os Simples (1892) – Transição para uma poesia mais mística, panteísta e voltada à exaltação da vida rural e dos camponeses.
A importância de Guerra Junqueiro reside no fato de ele ter transformado a poesia em uma arma cívica e de intervenção social de massa. Ao unir a ironia corrosiva e a caricatura social a um domínio estético grandioso, ele conseguiu fazer com que a poesia saísse das elites e ecoasse diretamente no sentimento popular de indignação pública. Suas sátiras desmistificaram as instituições da Coroa e da Igreja, abrindo caminho cultural e psicológico para as transformações democráticas modernas em Portugal e marcando definitivamente a transição estética para o século XX. 

Fontes:
Guerra Junqueiro. Contos para a infância.
Biografia = Wikipedia, Enciclopedia Britannica, E-Biografia, Infopedia, Instituto Camões, Brasil Escola, Jornal de Poesia, etc.

Arthur de Azevedo (Um capricho)

Em Mar de Espanha havia um velho fazendeiro, viúvo que tinha uma filha muito tola, muito mal-educada, e sobretudo, muito caprichosa. Chamava-se Zulmira.

Um bom rapaz, que era empregado no comércio da localidade, achava-a bonita, e como estivesse apaixonado por ela, não lhe descobria o menor defeito.

Perguntou-lhe uma vez se consentia que ele fosse pedi-la ao pai.

A moça exigiu dois dias para refletir.

Vencido o prazo, respondeu:

- Consinto, sob uma pequena condição.

- Qual?

- Que o seu nome seja impresso.

- Como?

- É um capricho.

- Ah!

- Enquanto não vir o seu nome em letra redonda, não quero que me peça.

- Mas isso é a coisa mais fácil...

- Não tanto como supõe. Note que não se trata da assinatura, mas do seu nome. É preciso que não seja coisa sua.

Epidauro, que assim se chamava o namorado, parecia ter compreendido. Zulmira acrescentou:

- Arranje-se!

E repetiu:

- É um capricho.

Epidauro aceitou, resignado, a singular condição, e foi para casa.

Aí chegado, deitou-se ao comprido na cama, e, contemplando as pontas dos sapatos, começou a imaginar por que meios e modos faria publicar o seu nome.

Depois de meia hora de cogitação, assentou em escrever uma correspondência anônima para certo periódico da Corte, dando-lhe graciosamente notícias de Mar de Espanha.

Mas o pobre namorado tinha que lutar com duas dificuldades: a primeira é que em Mar de Espanha nada sucedera digno de menção; a segunda estava em como encaixar o seu nome na correspondência.

Afinal conseguiu encher duas tiras de papel de notícias deste jaez!

"Consta-nos que o Revmo. Padre Fulano, vigário desta freguesia, passa para a de tal parte."

"O Ilmo. Sr. Dr. Beltrano, juiz de direito desta comarca, completou anteontem 43 anos de idade. S. Sª, que se acha muito bem conservado, reuniu em sua casa alguns amigos."

"Tem chovido bastante estes últimos dias", etc.

Entre essas modestas novidades, o correspondente espontâneo, depois de vencer um pequenino escrúpulo, escreveu:

"O nosso amigo Epidauro Pamplona tenciona estabelecer-se por conta própria."

Devidamente selada e lacrada, a correspondência seguiu, mas...

Mas não foi publicada.
* * *

O pobre rapaz resolveu tomar um expediente e o trem de ferro.

- À Corte! À Corte! – dizia ele consigo; ali, por fás ou por nefas*, há de ser impresso o meu nome!

E veio para a Corte.

Da estação central dirigiu-se imediatamente ao escritório de uma folha diária, e formulou graves queixas contra o serviço da estrada de ferro. Rematou dizendo:

- Pode dizer, Sr. redator, que sou eu o informante.

- Mas quem é o senhor? perguntou-lhe o redator, molhando uma pena; o seu nome?

- Epidauro Pamplona.

O jornalista escreveu; o queixoso teve um sorriso de esperança.

- Bem. Se for preciso, cá fica o seu nome.

Queria ver-se livre dele. No dia seguinte, nem mesmo a queixa veio a lume.

Epidauro não desesperou.

Outra folha abriu uma subscrição não sei para que vítimas; publicava todos os dias a relação dos contribuintes.

- Que bela ocasião! murmurou o obscuro Pamplona.

E foi levar cinco mil-réis à redação.

Com tão má letra, porém, assinou, e tão pouco cuidado tiveram na revisão das provas, que saiu:

Epifânio Peixoto 5$OOO

Epidauro teve vergonha de pedir errata, e assinou mais 2$OOO.

Saiu:

"Com a quantia de 2$, que um cavalheiro ontem assinou, perfaz a subscrição tal a quantia de tanto que hoje entregamos, etc.

Está fechada a subscrição."
* * *

Uma reflexão de Epidauro:

Oh! Se eu me chamasse José da Silva! Qualquer nome igual que se publicasse, embora não fosse o meu, poderia servir-me! Mas eu sou o único Epidauro Pamplona...

E era.

Daí, talvez, o capricho de Zulmira.
* * *

Uma folha caricata costumava responder às pessoas que lhe mandavam artigos declarando os respectivos nomes no Expediente.

Epidauro mandou uns versos, e que versos! A resposta dizia: "Sr. E. P. Não seja tolo."
* * *

Como último recurso, Epidauro apoderou-se de um queijo de Minas à porta de uma venda e deitou a fugir como quem não pretendia evitar os urbanos, que apareceram logo. O próprio gatuno foi o primeiro a apitar.

Levaram-no para uma estação de polícia. O oficial de serviço ficou muito admirado de que um moço tão bem trajado furtasse um queijo, como um reles larápio.

Estudantadas... refletiu o militar; e, voltando-se para o detido:

- O seu nome?

- Epidauro Pamplona! bradou com triunfo o namorado de Zulmira.

O oficial acendeu um cigarro e disse num tom paternal:

- Está bem, está bem. Sr. Plampona. Vejo que é um moço decente – que cedeu a alguma rapaziada.

Ele quis protestar.

- Eu sei o que isso é! – atalhou o oficial. – De uma vez em que saí de súcia com uns camaradas meus pela Rua do Ouvidor, tiramos à sorte qual de nós havia de furtar uma lata de goiabada à porta de uma confeitaria. Já lá vão muitos anos.

E noutro tom:

- Vá-se embora, moço, e trate de evitar as más companhias.

- Mas...

- Descanse, o seu nome não será publicado.

Não havia réplica possível; demais, Epidauro era por natureza tímido.

O seu nome, escrito entre os dos vagabundos e ratoneiros, era uma arma poderosíssima que forjava contra os rigores de Zulmira; dir-Ihe-ia:

- Impuseste-me uma condição que bastante me custou a cumprir. Vê o que fez de mim o teu capricho!
* * *

Quando Epidauro saiu da estação, estava resolvido a tudo!

A matar um homem, se preciso fosse, contanto que lhe publicassem as dezesseis letras do nome!
* * *

Lembrou-se de prestar exame na Instrução Pública.

O resultado seria publicado no dia seguinte.

E, com efeito, foi: "Houve um reprovado."

Era ele!

Tudo falhava.
* * *

Procurou muitos outros meios, o pobre Pamplona, para fazer imprimir o seu nome; mas tantas contrariedades o acompanharam nesse desejo que jamais conseguiu realizá-lo.

Escusado é dizer que nunca se atreveu a matar ninguém.

A última tentativa não foi a menos original.

Epidauro lia sempre nos jornais:

"Durante a semana finda, S.M. o Imperador foi cumprimentado pelas seguintes pessoas, etc.

Lembrou-se também de ir cumprimentar Sua Majestade.

- Chego ao paço, pensou ele, dirijo-me ao Imperador, e digo-lhe: - Um humilde súdito vem cumprimentar Vossa Majestade, e saio.

Mandou fazer casaca, mas no dia em que devia ir a Cristóvão, teve febre e caiu de cama.
* * *

Voltemos a Mar de Espanha:

Zulmira está sentada ao pé do pai. Acaba de contar-lhe a que impôs a Epidauro. O velho fazendeiro ri-se a bandeiras despregadas.

Entra um pajem.

Traz o Jornal do Comércio, que tinha ido buscar à agência de correio.

A moça percorre a folha, e vê, afinal, publicado o nome de Epidauro Pamplona.

– Coitado! murmura tristemente, e passa o jornal ao velho.

É no obituário:

"Epidauro Pamplona, 23 anos, solteiro, mineiro. – Febre perniciosa."

O fazendeiro, que é estúpido por excelência, acrescenta:

- Coitado! Foi a primeira vez que viu publicado o seu nome.
_____________________
* fás ou por nefas - por bem ou por mal.
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Arthur de Azevedo (1855 - 1908)
ARTHUR NABANTINO GONÇALVES DE AZEVEDO (conhecido universalmente como Arthur de Azevedo) foi um dos maiores dramaturgos, jornalistas, poetas e contistas do Brasil. Irmão do célebre romancista Aluísio de Azevedo, ele se consagrou como a figura central e mais popular do teatro brasileiro na transição do século XIX para o XX, sendo o grande mestre do Teatro de Revista e da comédia de costumes. Nasceu em 1855, em São Luís/MA, e faleceu aos 53 anos, em 1908, no Rio de Janeiro. Passou a infância e a juventude no Maranhão. Em 1873, aos 18 anos, mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro (então capital do Império), onde residiu e produziu intensamente até o fim da vida. Em São Luís, trabalhou no comércio e como amanuense (copista) na Secretaria de Governo. No Rio de Janeiro, ingressou como funcionário público no Ministério da Agricultura. Deixou o funcionalismo para viver exclusivamente de sua produção escrita. Foi um jornalista incansável, tendo fundado e dirigido publicações marcantes como A República e O Diário de Notícias. Colaborou também com O Paiz, Gazeta de Notícias e A Estação. Usava suas colunas diárias para analisar espetáculos, traduzir peças estrangeiras e defender apaixonadamente a profissionalização e a valorização dos artistas nacionais.
Escreveu cerca de 4.000 crônicas, centenas de contos, poesias líricas e satíricas, e mais de 100 peças teatrais (entre comédias, dramas, operetas e revistas). Teve papel crucial na fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1897. Foi membro fundador e ocupou a Cadeira nº 29, escolhendo como patrono o também dramaturgo Martins Pena. Em sua época, os maiores prêmios eram o estrondoso sucesso de bilheteria nos teatros e o reconhecimento crítico nos jornais. Arthur de Azevedo era o autor mais encenado e aplaudido do país, considerado uma verdadeira unanimidade popular.
Devido à sua enorme produção para os palcos e jornais, muitas de suas obras foram reunidas em volumes ao longo do tempo ou publicadas como folhetos de cordel e libretos teatrais: 
A Capital Federal (1897) — Sua obra-prima, uma comédia hilária sobre as transformações urbanas do Rio de Janeiro; O Mambembe (1904) — Uma belíssima e cômica homenagem à vida das companhias de teatro itinerantes; O Badejo (1886). Contos Efêmeros (1897); Contos Cariocas (1928, publicação póstuma); Carapuças (1878) — Poesias satíricas; Sonetos (1876).
A relevância de Arthur de Azevedo para a cultura brasileira é inestimável porque ele moldou a identidade do teatro brasileiro. Ao lado de Martins Pena, tirou os palcos da dependência cega de melodramas franceses, criando uma dramaturgia autenticamente brasileira, focada no cotidiano, na fala e nos tipos humanos do Rio de Janeiro. Elevou o gênero da "revista de ano" (espetáculos musicais que satirizavam os acontecimentos do ano anterior) a um patamar de alta qualidade literária e humor refinado, influenciando toda a comédia musical brasileira do século XX. Dedicou as últimas décadas de sua vida a uma intensa campanha jornalística para que a capital federal construísse um grande teatro público. Infelizmente, faleceu poucos meses antes da inauguração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (em 1909), que hoje abriga um busto em sua homenagem.

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos Possíveis. Publicado em 1889.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Maria Lúcia Daloce (Semeando Trovas)


1
Ao clamor da liberdade,
tremem os reis e as nações,
porque a força da verdade
tem mais força que os canhões!
2
À velha, o doutor confessa:
- Um susto ser-lhe-á fatal!
E o genro mais que depressa,
põe fantasmas... no quintal !
3
Com calma, plantai os grãos
e deixai-os florescer,
mesmo sendo, de outras mãos,
a ventura de colher!…
4
Com dois cálices de vinho,
na ilusão de “alguém” comigo,
bebo os dois, mas um restinho
finjo que é seu… e prossigo!
5
Contra as mágoas, a resposta
é que enxugues os teus prantos...
Sempre existe outra proposta
e com ela outros encantos!
6
Correndo de lá pra cá...
salário sempre apertado,
professor, no Paraná,
é “maior” abandonado!!!
7
De ilusões eu fui vivendo...
e a esperança, disfarçada,
via os meus sonhos morrendo,
mas nunca me disse nada!
8
Desconfiado o Godofredo
assim dizia, ouve bem:
- Quem sabe guardar segredo
não conta o seu pra ninguém!
9
De ser adulta, crescer,
quanta pressa eu tinha outrora...
Mas hoje ao envelhecer,
imploro ao tempo: - Demora!
10
Deus é um mistério, porém
os puros de coração,
entendem Deus, muito bem,
no dialeto da oração !
11
Diz o doutor, chateado,
que a pobre sogra morreu.
E o genro, todo animado:
- Muito bem, doutor, valeu!
12
Dos meus pais, da mocidade,
do café no terreirão,
guardo os fardos da saudade
nas tulhas ... do coração!
13
Em meus rascunhos guardados,
não há mistérios… Porque
nos versos que são lavrados
o tema é sempre… você!
14
Em tua ausência, a esperança
põe seus véus na realidade,
mas quem vive de lembrança
morre aos poucos… de saudade!
15
Entre os homens é preciso
plantar sementes de amor...
Para nascer um sorriso,
ao invés de tanta dor…
16
Entre os véus da noite, imerso,     
insone  em meu travesseiro,
escrevo  apenas um verso
e  a saudade... um livro inteiro!
17
Era Natal - eu me lembro!
nosso pinheiro enfeitado...
Hoje a saudade em dezembro,
põe enfeites... no passado!
18
Eu só queria "este emprego"...
e a idéia me entusiasma;
ter o salário e o sossego
de um funcionário... fantasma!
19
Foi numa briga acirrada
que se deu mal o grandão:
não foi na orelha... a dentada,
seu oponente era anão!
20
Foi um susto no velório
quando alguém gritou: - tá viva!
E o genro, em tom vexatório:
- Mas que velha vingativa!
21
Galgar os degraus da vida
requer audácia, demora.
Mas é enfrentando a subida
que o caráter se aprimora!
22
Imortal não sou agora,
mas eu tenho uma alegria:
– Sou poeta e ao “ir-me embora”…
deixo um rastro de poesia!
23
Jovem, se você me ouvisse,
daria aos velhos bom trato...
por entender que a velhice
é o seu futuro retrato!
24
Lá na roça em que eu trabalho,
passarinho um susto evita:
fiz da sogra um espantalho...
e a roça é sempre bonita!
25
Lavrador, por tuas mãos,
que Deus dotou de magia,
faz-se o milagre dos grãos,
dando o pão de cada dia!
26
Lavrador, são tuas mãos
que, em celeiros colossais,
deixam nas pilhas de grãos
as impressões…digitais!
27
Mesmo à distância, em teus braços,
minha saudade tem fim,
porque o amor, vencendo espaços,
faz a viagem... por mim!
28
Meu amor foi a semente,
nas covas de uma ilusão...
E floresceram, somente,
searas de ingratidão!…
29
Meu amor foi rua imensa...
onde o tempo fez, depois,
com a tua indiferença,
um abismo... entre nós dois!
30
Minha sogra é jararaca
e ao fingir que é minha amiga,
desafia e mostra a faca:
"Meu genro não é de briga!”
31
Minha sogra é uma eremita,
mas não sei por que razão
em minha casa é visita
de mala, cuia e colchão!!!
32
Minha vida hoje é um legado
de sonhos, renúncia... enfim,
por eu ter acreditado
mais nos outros... do que em mim!
33
Na altivez deste meu porte,
de rainha em pedestal...
existe a mulher que é forte
e a outra... que é de cristal!
34
Não fui covarde, lutei,
e o tempo deu-me as respostas:
- Não fui eu que fracassei,
foi quem me virou as costas!
35
Não pares, se um vendaval
insiste em seguir teus passos;
quem faz sucesso é um cristal
que a inveja quer... em pedaços!
36
Não sendo o corpo imortal,
que não morra a boa ação:
Doar um órgão vital,
mais que amor... é salvação!
37– 
Não tem cura a minha sogra?
Diz o genro a fazer planos...
E o doutor, zombando, logra:
- Ela aguenta mais cem anos!
38
Na pesca do Pantanal,
minha sogra foi também...
No escuro e não foi por mal,
aos jacarés fiz um bem!
39
Naquela mesa de bar,
nem nos tocamos, por medo...
Mas o amor em nosso olhar
era maior... que o segredo!
40
Nas mais árduas empreitadas,
sou feita de luz e raça;
porque à fúria das pedradas,
não temo em ser a vidraça!
41
Nesta viagem que é a vida,
o destino é o timoneiro,
mas a ilusão nos convida
a traçar outro roteiro!
42
No bilhete premiado
minha sorte deu azar:
- Vi meu prêmio confirmado,
mas me esqueci de jogar!!!
43
No meu velho travesseiro,
com as nossas iniciais,
teu amor breve e fagueiro
bordou lembranças... demais!
44
No ocaso da natureza,
com raridades infindas,
dos casulos sem beleza…
voam borboletas lindas!
45
Num sufoco, a seleção
prova a união do brasileiro:
se um deles tem convulsão,
treme e baba o time inteiro!
46
O doutor que faz serão
à noite e a semana inteira...
deve estar vendo a pressão
nos braços... é da enfermeira!
47
Olhar no espelho é magia
quando o rosto, envelhecido,
reflete com alegria
um jovem ... nele escondido!
48
O pau d’água não deu sorte
ao pedir “as saideiras’...
O garçom, um homem forte,
saiu com ele às carreiras!
49
Os meus natais de criança,
hoje eu sei, tinham magia.
Tios, pais, avós, festança...
tinham tudo e eu não sabia!
50
Quando há inverno maltratando
braços nus, sem cobertores,
peço a Deus um frio brando,
primavera, sol e flores!
51
Quem repara e só fuxica
certamente se esqueceu
de arrancar a "tiririca",
que na língua floresceu…
52
Quem sofre uma desventura
não pode deixar de crer
que, após uma noite escura,
brilha a luz do alvorecer!
53
Saudade, esperança morta,
que ao coração não dá trelas...
Se a gente lhe fecha a porta,
ela arrebenta as janelas!
54
Se estou no rol dos profanos,
que muitos chamam de ateus,
a culpa é dos desenganos
profanando os sonhos meus!
55
Sem carícias, fui vivendo,
achando que estava certo.
E soa poucos fui percebendo,
a solidão bem de perto.
56
Sem os teus beijos e abraços,
sob a luz da solidão...
a saudade faz os traços
da tua sombra... em meu chão!
57
Sempre é triste a despedida
não importa em que linguagem,
mas bem pior que a partida
é não voltar... da viagem!
58
Sem presente e muito pobre,
a criança defendeu:
- Papai Noel é tão nobre...
Não foi desprezo, esqueceu!
59
Sempre voltas... E eu, magoada,
querendo dizer-te não,
enfeito a porta da entrada
com as flores... do perdão!
60
Sem teu amor e carinho,
brindo à ausência da ilusão…
neste cálice de vinho
com sabor… de solidão!
61
Se perder no jogo é azar,
sorte no amor é mancada...
Ao agarrar o meu par,
minha “dama’ era uma “espada’
62
Sogra invejosa é notório,
mas a do Zé não perdoa:
- Por pirraça, no velório
da “amiga”, foi de coroa!
63
Somando as horas de espera,
à falta dos teus agrados,
meus dias de primavera
são invernos ... prolongados!
64
Tiririca - erva danada,
que se espalha rapidinho ...
igual fofoca malvada,
espalhada em segredinho …
65
"Tiririca" é uma gentalha
que não tem o que fazer.
E praguejando se espalha
pra tentar aparecer.
66
Triste… a criança dizia
ao colega do orfanato:
– uma família eu queria;
nem que fosse… no retrato!
67
Um menininho de rua,
que uma família queria,
me pediu: - Me empresta a sua?
Nem que seja por um dia
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MARIA LÚCIA DALOCE é uma das vozes da trova contemporânea no Sul do país, sendo considerada uma das principais dirigentes e referências do movimento trovadoresco tanto no Paraná quanto no Brasil. Nasceu no município de Andirá/PR,. Passou a residir e construiu sua trajetória pessoal, profissional e literária em Bandeirantes/PR. Formada em Pedagogia e Educação Física.
Sua trajetória na literatura é marcada pela dedicação à trova. Atuou por diversas gestões como presidente da Seção de Bandeirantes/PR, fortalecendo a cultura regional e organizando concursos locais. Ela alcançou o topo do movimento nacional ao ser consagrada como Magnífica Trovadora em Nova Friburgo/RJ (em 2009), título concedido aos poetas que atingem o ápice de premiações. Autora do livro "A Vida em Quatro Versos", publicação que reúne o conjunto de suas trovas mais célebres, classificadas e premiadas ao longo de décadas de dedicação à poesia. A autora transcreve impressões sobre a existência, o mundo e os sentimentos humanos, definindo a obra como um "relicário de emoções".
A relevância de Maria Lúcia Daloce se apoia em dois pilares: a excelência artística e o ativismo cultural. Como escritora, ela domina com rara sensibilidade a técnica da trova lírica e filosófica, transformando sentimentos complexos em sínteses poéticas perfeitas de quatro versos. Como líder cultural da trova à frente da Seção de Bandeirantes, ela desempenhou um papel fundamental na descentralização da literatura brasileira, colocando o interior do Paraná no mapa da poesia nacional e ajudando a preservar e renovar o gênero da trova para as próximas gerações.

Cantinho do Frata (Tormenta matinal)

O céu tossiu. Um pigarro seco, nervoso e seguiu-se um tremor. Trovões rugiram na imensidão cinzenta.

E, sem muito esperar, grossos pingos frios e violentos, puseram-se a fustigar o telhado, o quintal ladrilhado, o gramado. A entortar arbustos, a retorcê-los em furor.

Novos clarões riscaram o céu amarelando por instantes o cinza-escuro. 

Em meio a repetidos estrondos, o vento assoviou nos varais de arame. Também nas antenas bambas, nas frestas de vitrôs mal fechados. E o clarão do dia, como a sentir medo, fugiu.

Eu, da janela, observava.

Lá fora, apenas o aceso das lâmpadas impunha-se à escuridão. Até que um estrondo maior as assoprou como velas, para pôr o escuro penumbroso em plena manhã.

Mais uma vez, a força vencera.

— Coisas do fim do inverno, pensei.

Mas, ainda ali parado, observei que o próprio céu selecionava nuvens. Trocava-as de lugar, espichava-as, encurtava-as, esgarçava-as. Botava-lhes nervuras. Levava e trazia e, não satisfeito, repetia a operação deixando apenas as que soprassem mais forte.

Assim permaneceu nessa seleção por mais tempo do que eu poderia imaginar. 

Mas elas devem ter se cansado. 

Uma a uma –– algumas sobrepondo-se na pressa, passaram. Ganharam distância e deixaram entre si um vazio. 

Um leve rasgo no céu. Por onde uma réstia, também pequena mas brilhante como holofote, passou a se fazer sol. 

Bem no meu jardim.

E ali ficou, como um facho a lembrar que a natureza conhece o quanto e o quando. Por mais que pensemos no tudo.

O resto?

Bem, o resto, eu contarei na próxima chuva…
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Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

 (Texto enviado pelo autor.)

José Feldman (Barco da Alma)

Texto construído tendo por base a trova de 
Izo Goldman 
(Porto Alegre/RS, 1932 - 2013, São Paulo/SP)

Eu, na vida, sou barqueiro 
dos meus sonhos sem destino: 
- sonho bom é o passageiro, 
sonho mau é o clandestino.

Sentar-se à beira do cais da própria existência é dar-se conta de uma verdade náutica: a alma humana é uma embarcação que nunca atraca por completo. Conduzir os dias é aceitar o ofício da navegação interna. Como bem deduziu o poeta na trova, somos todos barqueiros de nós mesmos, empurrando as tábuas da nossa consciência sobre as águas profundas, escuras e incertas do tempo.

O detalhe mais agudo dessa condição não é o peso dos remos, mas a natureza da carga. Navegamos com sonhos sem destino. Há quem passe a vida desenhando mapas perfeitos, portos seguros e rotas milimetricamente calculadas. Tolice. O destino é uma ficção que inventamos para aplacar o medo do horizonte aberto. O verdadeiro mar da vida não aceita coordenadas fixas; ele se move, mexe-se sob o casco e nos obriga a flutuar no imprevisto. Os sonhos não existem para nos levar a um lugar geográfico, mas para manter o barco em movimento. Sem eles, a madeira apodrece no porto da inércia.

Nessa travessia contínua, a tripulação da nossa mente divide-se estritamente em duas categorias.

Primeiro, há o sonho bom: o passageiro legítimo. É aquele que entra pela rampa principal, de cabeça erguida. Traz consigo a luz do sol, o aroma do café fresco, a promessa de um amor correspondido ou a calmaria de uma meta alcançada. O passageiro senta-se no convés, conversa conosco, dá sentido ao suor que gastamos nos remos. É o tipo de sonho que pagou a passagem com a moeda da esperança. Olhamos para ele e o cansaço da viagem diminui. Ele justifica o naufrágio iminente que é o simples fato de estarmos vivos.

Mas nenhum barco cruza o oceano da existência carregando apenas quem foi convidado.

Nas frestas do porão, no escuro, onde os olhos não veem, esconde-se o sonho mau: o clandestino. Ele não pede licença. Não avisa quando entra. Aproveita-se de uma noite de tempestade, de um momento de distração ou de uma fraqueza na blindagem do casco para se alojar nos cantos mais frios da nossa mente. O clandestino é o medo do fracasso, a culpa por um erro antigo, a ansiedade pelo amanhã ou aquela melancolia inexplicável que surge no fim da tarde.

A reação imediata do barqueiro inexperiente é o desespero. Tenta-se caçar o clandestino, jogá-lo ao mar, fingir que ele não ocupa espaço. Mas o sonho mau é pesado; ele desequilibra a embarcação. Quanto mais tentamos ignorar que ele viaja conosco, mais o barco aderna para o lado da sombra.

A sabedoria do barqueiro maduro reside em compreender que o clandestino também faz parte da viagem. Um barco feito apenas de passageiros sorridentes flutua na ilusão; carece de lastro. O sonho mau, por mais incômodo que seja, obriga o navegante a inspecionar o porão, a reforçar as amarras da própria resiliência e a reconhecer as próprias fragilidades. Ele nos lembra de que o mar é profundo e exige respeito.

Enfim, a beleza da navegação humana não está em ter um porão perfeitamente limpo, mas na capacidade de manter o rumo mesmo quando os clandestinos sussurram lá embaixo. O bom marinheiro olha para o horizonte sem destino, aceita a luz do passageiro no convés, tolera o peso do clandestino no porão e continua a remar. Porque pior do que navegar com assombros é deixar que o barco afunde parado.
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José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (27.set.1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. 
        Possui 10 livros publicados, entre eles: Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
        É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
(Biografia por Cailin Dragomir)