quinta-feira, 2 de abril de 2026

Mensagem na Garrafa 166 = Eu posso fazer mais que isso...


Autor Anônimo

A mãe, com apenas 26 anos, parou ao lado do leito de seu filhinho de 6 anos, que estava morrendo de leucemia. Embora o coração dela estivesse pleno de tristeza e angustia, ela também tinha um forte sentimento de determinação. Como qualquer outra mãe, ela gostaria que seu filho crescesse e realizasse seus sonhos. Agora, isso não seria mais possível, por causa da leucemia terminal. Mas, mesmo assim, ela ainda queria que o sonho de seu filho se transformasse realidade. Ela tomou a mão de seu filho e perguntou:

- "Billy, você alguma vez já pensou o que você gostaria de ser quando crescer? Você já sonhou o que gostaria de fazer com sua vida?"

- "Mamãe, eu sempre quis ser um bombeiro quando eu crescer." 

A mãe sorriu e disse: "Vamos ver se podemos transformar esse sonho em realidade." 

Mais tarde, naquele mesmo dia, ela foi ao corpo de bombeiros local, na cidade de Phoenix, Arizona, onde se encontrou com um bombeiro de enorme
coração, chamado Bob. Ela explicou a situação de seu filho, seu último desejo e perguntou se seria possível dar ao seu filhinho de seis anos uma volta no carro dos bombeiros em torno do quarteirão.

O bombeiro Bob disse:

- "Veja, NÓS PODEMOS FAZER MAIS QUE ISSO! Se você estiver com seu filho pronto as sete horas da manhã, na próxima quarta-feira, nós o faremos um bombeiro honorário por todo o dia. Ele poderá vir para o quartel, comer conosco, sair para atender as chamadas de incêndio!". E se você nos der as medidas dele, nós conseguiremos um uniforme verdadeiro para ele, com chapéu, com o emblema de nosso batalhão, um casaco amarelo igual ao que vestimos e botas também. Eles são todos confeccionados aqui mesmo na cidade e conseguiremos eles rapidamente." 

Três dias depois, o bombeiro Bob pegou o garoto, vestiu-o em seu uniforme de bombeiro e escoltou-o do leito do hospital até o caminhão dos bombeiros. Billy ficou sentado na parte de trás do caminhão, e foi levado até o quartel central. Ele estava no céu. 

Ocorreram três chamados naquele dia na cidade de Phoenix e Billy acompanhou todos os três. Em cada chamada ele foi em veículos diferentes: no caminhão tanque, na van dos paramédicos e até no carro especial do chefe do corpo de bombeiros.

Ele também foi filmado pelo programa de televisão local. Tendo seu sonho realizado, todo o amor e atenção que foram dispensadas a ele acabaram por tocar Billy, tão profundamente que ele viveu três meses mais que todos os médicos haviam previsto.

Uma noite, todas as suas funções vitais começaram a cair dramaticamente e a enfermeira-chefe, que acreditava no conceito de que ninguém deveria morrer sozinho, começou a chamar ao hospital toda a família. 

Então, ela lembrou do dia que Billy tinha passado como um bombeiro, e ligou para o chefe e perguntou se seria possível enviar algum bombeiro para o hospital naquele momento de passagem, para ficar com Billy. O chefe dos bombeiros respondeu:

- "NÓS PODEMOS FAZER MAIS QUE ISSO! Nós estaremos aí em cinco minutos. E faça-me um favor? Quando você ouvir as sirenes e ver as luzes de nossos carros, avise no sistema de som que não se trata de um incêndio. É apenas o corpo de bombeiros vindo visitar, mais uma vez, um de seus mais distintos integrantes. E você poderia abrir a janela do quarto dele? Obrigado!”

Cinco minutos depois, uma van e um caminhão com escada Magirus chegaram no hospital, estenderam a escada até o andar onde estava o garoto e 16 bombeiros subiram pela escada até o quarto de Billy. Com a permissão da mãe, eles o abraçaram e seguraram e falaram para ele o quanto eles o amavam. 

Com um sopro final, Billy olhou para o chefe e perguntou: "Chefe, eu sou mesmo um bombeiro?" 

"Billy, você é um dos melhores"- disse o chefe. 

Com estas palavras, Billy sorriu e fechou seus olhos pela última vez.
* * * * *

E você, diante do pedido de seus amigos, filhos e parentes, tem respondido: "EU POSSO FAZER MAIS QUE ISSO!" ?

Reflita se sua vida tem sido em serviço a si próprio(a) e ao próximo também, e tome uma decisão hoje mesmo.

José Feldman (Ecos do Deserto) 6. O fim do mundo

Contos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites

"Salaam’aleikum"
(Que a paz esteja convosco), buscadores do horizonte. Preparem o coração, pois esta história atravessa dunas que nenhum mapa ousa registrar. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje lhes conto sobre a busca de um homem que não se contentava com o que os olhos podiam ver.

"Bismillah" (Em nome de Deus), partamos para além das fronteiras.

Havia um homem chamado Ziad, um "musafir" (viajante) incansável. Ele já havia visto as pirâmides do Egito e os jardins suspensos, mas uma pergunta o consumia: "Onde termina o mundo?". 

Ele acreditava que, no fim de tudo, encontraria uma muralha de cristal ou o próprio jardim do éden.

Ziad despediu-se de sua família com um "fi amanillah" (fique com a proteção de Deus) e caminhou para o leste. Ele cruzou rios impetuosos e montanhas que tocavam o céu. 

Em cada aldeia, perguntava: "Falta muito para o fim?". 

Os anciãos sorriam e diziam: "Maktub" (Está escrito), "o fim está onde o coração descansa".

Ziad não entendia. Ele caminhou por quarenta anos. Seus cabelos tornaram-se brancos como a neve e suas sandálias foram trocadas cem vezes. Um dia, exausto, ele chegou à beira de um oceano infinito, onde o sol mergulhava em águas douradas. "Ya Allah" (Ó Deus), gritou ele, "finalmente cheguei ao fim do mundo!"

Ali, ele encontrou um eremita que vivia em uma caverna. 

"Shukran" (obrigado) por me receber, disse Ziad, "concluí minha jornada".

O eremita, rindo suavemente, apontou para o mar. 

"Vês aquele horizonte? Se navegares até lá, encontrarás outra terra. E se caminhares por essa terra, voltarás exatamente ao lugar de onde partiste. O mundo é um círculo, meu filho. Ele não tem fim, pois a criação de Deus é infinita em sua perfeição."

Ziad caiu de joelhos. 

"Alhamdulillah" (louvado seja Deus), murmurou. 

Ele percebeu que passara a vida fugindo do "huna" (aqui) para buscar o "Lá", sem notar que a beleza estava em cada grão de areia que pisara. O "fim do mundo" era, na verdade, o momento em que ele parasse de procurar fora o que já possuía dentro: a paz.

Ziad voltou para sua casa, não mais como um buscador, mas como um sábio. Ele ensinou que a vida não é uma linha reta até um abismo, mas uma dança em torno do que é sagrado.

"Shukran" (obrigado) por caminharem comigo nesta narrativa. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, editor de e-books e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Laé de Souza (Animais de Estimação)


Quando Cilinha insistiu para que fossem visitar a feira de animais, tenho certeza de que já planejava conseguir o seu animalzinho. Lendo uma história de uma menina com o seu cachorrinho, ela se entusiasmou e achou que também deveria ter o seu.

A gente sempre considera a inocência das crianças; mas, de vez em quando, elas fazem as suas tramas e arquitetam como chegar aos seus objetivos. E Cilinha era uma criança esperta.

Na feira, a família vê patos, coelhos, cabras, gatos e Cilinha se abre em sorrisos, quando chegam aos cães. Cada um mais lindo que o outro! A garotinha se engraçou com um filhote de poodle que era a coisa mais linda. O vendedor deixou que ela o pegasse. A menina acariciou o cãozinho, levou-o ao colo, conversava com ele, e parecia que ele a entendia. Corriam, ela alisava a sua barriga e ele ficava de pernas para cima, todo dengoso. Uma coisa linda! Dival, pai da Cilinha, bateu fotos dos dois em poses variadas.

Na hora de ir embora, Cilinha se agarrava ao Bob (já tinha colocado até nome no cão) e chorava. Queria o seu Bob de qualquer jeito. Dival tentou convencê-la a deixar para outro dia, mas Cilinha, viva como ela só, sabia que aquele outro dia significava nunca, e aquela era a oportunidade única de ter o seu cãozinho. E abriu um berreiro. Por fim, Dival arriscou um “Quanto custa?” para o vendedor, o que fez Gerusa, sua mulher, reagir “O problema não é preço, Dival. Pode ser até de graça, que não vai levar! Quem vai cuidar dessa coisa? Você?” 

Cilinha aumentou o choro e dizia que o seu Bob não era “coisa” não. Era um cãozinho bonzinho. O coitado do Dival, entre a cruz e a espada, aproveitou-se da fala do vendedor, que dizia “Ele não cresce muito não, dona”, para tentar convencer que o trabalho seria mínimo e um bichinho de estimação seria muito bom para Cilinha.

Pra resumir: foram-se. E com eles, Bob. Gerusa emburrada no banco da frente, Dival contorcendo-se com a lambida do Bob no seu pescoço e Cilinha toda sorridente, segurando o cachorrinho atrás do banco do Dival, a falar “Ele gosta de você papai. Lambe o nosso paizinho, lambe, Bob.”

No começo, era festa. O Bob na sala, no quarto, na cama e pra todo lado no colo da Cilinha.

O cachorro foi crescendo e aprontando. Comia o tapete, sujava a casa, latia. Resolveram que era hora de colocar a casinha dele no quintal. Desde a primeira noite, Bob latia e os gatos passavam para infernizar. Quando não apareciam, Bob latia mesmo assim, parecendo que a chamá-los. Pensou-se que seria só até que ele se acostumasse, mas os dias passavam e o animal latia a noite toda. Cilinha, vez ou outra, brincava um pouco com ele no quintal. Mas, era só a menina entrar para que Bob recomeçasse os latidos. A menina não podia ficar muito tempo, porque tinha de levantar cedo para ir à escola. Assim, ia dormir. E que sono pesado tinha a mocinha, que nem se ligava para o barulho. Na verdade, tanto Cilinha quanto Bob estavam grandes e não tinham mais tanto entrosamento para brincadeiras.

Num dia, em que por três noites seguidas Bob não o deixara dormir, Dival estourou “Ou eu, ou ele! Se não derem fim neste animal, eu vou embora de casa.” Gerusa deixou correr uma lágrima, pois já tinha criado amor ao Bob; Cilinha disse que não via motivo para tudo aquilo e que era exagero do pai, talvez irritado por problemas no trabalho descarregava no Bob. Mas, a decisão do Dival era definitiva.

Buscavam alternativa, quando Dival lembrou-se de uma amiga da mulher que tinha vindo, outro, dia em sua casa com a filha, que brincou o dia todo com Bob e chorou na hora de ir embora, querendo ficar mais tempo com o cão. Gerusa pensou em ligar para a amiga, mas Dival achou que era melhor ir pessoalmente e oferecer o cachorro na frente da menina.

A amiga recusou; a menina chorou muito e o pai convenceu a mulher a aceitar o Bob, com o argumento de que seria muito bom para a filha Analice, porque precisava de companhia. Assim, foi-se o Bob e junto a casinha e demais pertences, deixando um vazio.

No primeiro dia, enquanto o pai da Analice saía com o carro da garagem, Bob escapou. O homem sem saber ainda o nome do cão, chamava:

 “Vem cachorro! Cãozinho, venha cá! Vem aqui com o papai, vem!”, e Bob nem aí. Tentou segura-lo pela coleira e levou uma mordida. Apanhou uma vassoura e saiu correndo atrás do Bob, que voltava para a casinha, enquanto Analice aparecia de pijamas chorando e pedindo “Não bate no Bob, não, papai!” 

O pai olhando a mão mordida, respondeu “Desta vez passa, mas este bicho vai ter de aprender a me obedecer.” Bob lambia Analice e olhava para o pai da menina, creio que pensando que a sua história dali em diante seria diferente. Bem, vamos ver à noite…
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco. 

Fontes:
Laé de Souza. Espiando o Mundo pela Fechadura: crônicas. SP: Ecoarte, 2018.
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Álvares de Azevedo (Oceano de Poesias)


ANJOS DO MAR

As ondas são anjos que dormem no mar, 
Que tremem, palpitam, banhados de luz... 
São anjos que dormem, a rir e sonhar 
E em leito d’escuma revolvem-se nus!

E quando de noite vem pálida a lua 
Seus raios incertos tremer, pratear,
E a trança luzente da nuvem flutua, 
As ondas são anjos que dormem no mar!

Que dormem, que sonham – e o vento dos céus 
Vem tépido à noite nos seios beijar!
São meigos anjinhos, são filhos de Deus, 
Que ao fresco se embalam do seio do mar!

E quando nas águas os ventos suspiram, 
São puros fervores de ventos e mar:
São beijos que queimam... e as noites deliram, 
E os pobres anjinhos estão a chorar!

Ai! quando tu sentes dos mares na flor 
Os ventos e vagas gemer, palpitar, 
Por que não consentes, num beijo de amor, 
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?
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DINHEIRO

Oh! argent! Avec toi on est beau,
jeune, adoré; on a considérations, honneurs, qualités, vertus. 
Quand on n’a point d’argent, on est dans la dépendance de toutes choses et de tout le monde.
CHATEAUBRIAND

Sem ele não há cova – quem enterra 
Assim grátis, a Deo? O batizado 
Também custa dinheiro. Quem namora 
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio? 
Demais, as Danaes também o adoram, 
Quem imprime seus versos, quem passeia, 
Quem sobe a Deputado, até Ministro, 
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio, 
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro? 
Fora a canalha de vazios bolsos! 
O mundo é para todos... Certamente 
Assim o disse Deus – mas esse texto 
Explica-se melhor e doutro modo.
Houve um erro de imprensa no Evangelho: 
O mundo é um festim, concordo nisso, 
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
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NAMORO A CAVALO

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça 
Que rege minha vida malfadada, 
Pôs lá no fim da rua do Catete 
A minha Dulcineia namorada.

Alugo (três mil-réis) por uma tarde 
Um cavalo de trote (que esparrela!) 
Só para erguer meus olhos suspirando 
A minha namorada na janela...

Todo o meu ordenado vai-se em flores 
E em lindas folhas de papel bordado, 
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso, 
Algum verso bonito... mas furtado.

Morro pela menina, junto dela 
Nem ouso suspirar de acanhamento... 
Se ela quisesse eu acabava a história 
Como toda a Comédia – em casamento...

Ontem tinha chovido... Que desgraça! 
Eu ia a trote inglês ardendo em chama, 
Mas lá vai senão quando uma carroça 
Minhas roupas tafuis encheu de lama...

Eu não desanimei. Se Dom Quixote 
No Rossinante erguendo a larga espada 
Nunca voltou de medo, eu, mais valente, 
Fui mesmo sujo ver a namorada...

Mas eis que no passar pelo sobrado, 
Onde habita nas lojas minha bela, 
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela... 

O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada, 
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo 
Com pernas para o ar, sobre a calçada...

Dei ao diabo os namoros. Escovado 
Meu chapéu que sofrera no pagode, 
Dei de pernas corrido e cabisbaixo 
E berrando de raiva como um bode.

Circunstância agravante. A calça inglesa 
Rasgou-se no cair de meio a meio, 
O sangue pelas ventas me corria 
Em paga do amoroso devaneio!…
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SONETO

Pálida, à luz da lâmpada sombria, 
Sobre o leito de flores reclinada, 
Como a lua por noite embalsamada, 
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria 
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada 
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando... 
Negros olhos as pálpebras abrindo... 
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo! 
Por ti – as noites eu velei chorando, 
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
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Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831–1852) foi o maior expoente da segunda geração do Romantismo no Brasil, conhecida como "Mal do Século" ou Ultrarromantismo. Nasceu em São Paulo (SP) em 12 de setembro de 1831 e morreu precocemente aos 20 anos, no Rio de Janeiro (RJ), em 25 de abril de 1852, em decorrência de uma infecção após uma queda de cavalo e um tumor. Ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Ele era considerado um aluno brilhante, mas não chegou a concluir o curso devido à sua morte prematura. Poeta, contista e ensaísta. Sua obra é marcada pelo dualismo: oscila entre o sentimentalismo ingênuo e um pessimismo profundo, irônico e macabro. Foi fortemente influenciado por Lord Byron e Shakespeare. Consolidou a estética ultrarromântica no Brasil. Trouxe temas como a morte, a noite, o erotismo platônico e o tédio existencial para o centro da poesia nacional, influenciando gerações de escritores com seu estilo melancólico e sarcástico. Principais Obras (publicadas postumamente) são: Lira dos Vinte Anos (poesia - sua obra mais famosa). Noite na Taverna (contos fantásticos e sombrios). Macário (peça de teatro/drama).

Antonio Cândido (seleção). Melhores poemas de Álvares de Azevedo. SP: Gloval, 2013. Ed. Digital
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Nilto Maciel (Casa mal-assombrada)


Vez por outra, Hulda desaparecia dentro de casa. Parecia fantasma. Eu a chamava, ela nada respondia. Vasculhava todos os cômodos e não a encontrava. E a casa era pequena. Sala, três quartos, dois banheiros, cozinha e quintal.

  Hulda desaparecia como por encanto. Às vezes estávamos na sala, eu lendo jornal ou livro, ela polindo unhas. Eu comentava notícia ou capítulo. Ministro demissionário, homem perdido em casa mal-assombrada. Ela se aborrecia. Pouco lhe importava o destino da república. Menos ainda o fim dos livros. E deixava de lado as unhas e a sala. Eu a chamava, ela nada respondia. Largava o jornal ou o livro e ia ao banheiro. Não estava. Corria ao quarto do casal, ansioso, sôfrego, impaciente. Ninguém deitado na cama. Nenhuma mulher dormida, a sonhar.

  E o ministro? Talvez já estivesse demitido. E o homem, coitado, morto de medo, perseguido por assombrações na casa velha! Hulda que se cuidasse. Ela não valia a república. Nem uma casa de fantasmas. E eu lia e relia o jornal ou o livro. E queria comentar notícia ou capítulo. Chamava Hulda, ela não respondia. Largava então o jornal ou o livro e ia ao quarto dos nossos filhos. Não, não sabiam da mãe. Devia estar na cozinha. Eu corria para lá. A cozinheira resmungava besteiras. Importava-lhe apenas o destino do frango. O ministro, o homem assombrado, a patroa, fossem todos para o inferno.

  Eu voltava ao sofá, reabria o livro ou o jornal. Não entendia mais nada. Ou o mundo enlouquecera, ou jornalistas, escritores e tipógrafos brincavam comigo. Um ministro assombrado, um homem demissionário. Eu ria, gargalhava. Hulda precisava ouvir aquelas barbaridades. Talvez ela estivesse no quarto da cozinheira. Ou no banheiro. Não, ela não se aviltaria tanto.

Restava o quintal. Sim, colhendo flores, aguando plantas, catando frutas. Quem sabe, dando comida ao cachorro. Atirando pedras às lagartixas. Estendendo roupas no varal. Simplesmente aspirando ar puro.

Durante a noite, o mesmo tormento. Eu acordava sobressaltado e queria conversar. Generais davam golpes, fantasmas debaixo da cama. E Hulda, por onde andava? Passava a mão, e só encontrava travesseiro, lençol, vazio.

Ia ao banheiro e me assustava. Um homem assombrado à minha frente. Era o espelho. Corria à sala. O jornal espalhado pelo chão, o livro aberto sobre o sofá. As crianças dormiam em paz. A cozinheira estendida no catre, desarrumada. O cachorro latia, o vento abanava as roupas estendidas no arame, a lua clareava tudo.

Esse tormento durou dias e noites. Anos e anos.

Ainda bem que tudo acabou. Não leio mais jornais nem livros. Pode cair a república, pode o homem morrer de medo na casa mal-assombrada. Agora sou um homem sossegado. Quanto a Hulda, se desapareceu definitivamente, não sei. Se virou fantasma ou se morreu, pouco me importa. Esta casa é que não deixo.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
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Contos Policiais (Origem e Evolução)


O conto policial (ou detetive) é um subgênero da ficção narrativa que se centra em investigações criminais, com foco na resolução de crimes como assassinatos, roubos ou sequestros. Caracterizado por elementos como enigmas, pistas, suspeitos e detetives (profissionais ou amadores), o gênero surgiu como expressão da valorização da razão e da ciência no século XIX, evoluindo para incluir subgêneros como noir, suspense psicológico e investigação forense.
 
Origem e Primeiros Contos Conhecidos
 
As raízes do gênero podem ser encontradas em narrativas antigas que envolviam mistérios e descobertas, como "A História de Susana e os Velhos" (do Antigo Testamento) e contos do Decamerão de Boccaccio. No entanto, o formato moderno do conto policial teve início no século XIX, com obras que formalizaram os elementos característicos do gênero.
 
O primeiro conto policial reconhecido é "O Mistério de Marie Rogêt" (1842) de Edgar Allan Poe, que seguiu seu conto "As Cartas Roubadas" (1841) — considerado o primeiro conto de detetive da literatura ocidental, pois apresentou um detetive amador (C. Auguste Dupin) que resolve um enigma por meio da dedução lógica.
 
Contos Importantes do Gênero
 
Século XIX
 
1. "As Cartas Roubadas" (1841, Edgar Allan Poe)

Primeiro conto de detetive moderno, com o detetive C. Auguste Dupin resolvendo o desaparecimento de uma carta crucial para o governo francês. Introduziu o tropeço da "evidência óbvia".

2. "O Mistério de Marie Rogêt" (1842, Edgar Allan Poe)

Baseado em um caso real, é o primeiro conto de investigação criminal baseado em fatos, com Dupin analisando pistas e testemunhos para solucionar um assassinato.

3. "O Crime na Rua Morgue" (1841, Edgar Allan Poe)

Embora seja mais longo (próximo a um conto longo), é considerado o primeiro romance policial, mas sua estrutura influenciou profundamente o gênero do conto.

4. "O Caso dos Óculos Dourados" (1892, Arthur Conan Doyle)

Um dos primeiros contos de Sherlock Holmes, onde o detetive resolve o desaparecimento de um par de óculos valiosos, demonstrando sua habilidade em observar detalhes minúsculos.

5. "A Liga dos Homens Ruivos" (1891, Arthur Conan Doyle)

Conto icônico de Sherlock Holmes que explora um enigma envolvendo uma organização secreta, destacando a capacidade do detetive de desvendar planos elaborados.

6. "O Problema da Corona" (1893, Arthur Conan Doyle)

Conto que mistura crime e política, com Holmes investigando o roubo de uma coroa real, explorando temas de honra e traição.

7. "O Assassinato do Boulevard Morgue" (1866, Émile Gaboriau)

Conto francês que popularizou o detetive profissional (Le Lecoq), antecedendo Holmes e focando em investigações técnicas e trabalho em equipe.

8. "A Casa das Teias de Aranha" (1891, Israel Zangwill)

Conto pioneiro do subgênero do "detetive judaico" e precursor do suspense psicológico, com um mistério envolvendo uma família em uma casa isolada.
 
Século XX
 
9. "O Cão dos Baskerville" (conto adaptado, 1902, Arthur Conan Doyle)

Embora originalmente um romance, versões condensadas como conto se tornaram populares, explorando o terror gótico dentro do gênero policial.

10. "A Lei do Mais Forte" (1920, S.S. Van Dine)

Conto do detetive Philo Vance que seguiu regras rigorosas para o gênero (como revelar todas as pistas ao leitor), influenciando o "romance policial de quebra-cabeça".

11. "O Crime do Orient Express" (conto adaptado, 1934, Agatha Christie)

Versões em formato de conto da obra icônica de Christie, com Hercule Poirot resolvendo um assassinato em um trem isolado — um marco do subgênero do "crime fechado".

12. "O Caso do Colar de Pérolas" (1923, Agatha Christie)

Conto de Hercule Poirot que explora o roubo de um colar valioso, destacando a habilidade do detetive em desvendar mentiras e manipulações.

13. "A Janela Indiscreta" (1948, Cornell Woolrich)

Conto noir que inspirou o filme de Alfred Hitchcock, explorando temas de paranoia e observação, com um homem acidentalmente testemunhando um crime.

14. "O Homem que Odiava os Animais" (1939, Raymond Chandler)

Conto do detetive Philip Marlowe que mistura crime, corrupção e violência, representando o gênero noir americano.

15. "A Última Pergunta" (1956, Isaac Asimov)

Embora seja ficção científica, inclui elementos de investigação policial, com um robô detetive resolvendo um crime envolvendo inteligência artificial — precursor do policial futurista.

16. "O Assassino" (1953, Roald Dahl)

Conto psicológico que narra o crime do ponto de vista do assassino, invertendo os papéis tradicionais do gênero e explorando a mente do criminoso.

17. "A Loja dos Bonecos" (1964, Jorge Luis Borges)

Conto argentino que mistura policial, fantasia e filosofia, com um detetive investigando um assassinato que parece estar ligado a bonecos que ganham vida.

18. "O Caso do Juiz Que Sumiu" (1975, Rubem Fonseca)

Conto brasileiro que representa o policial contemporâneo do país, explorando corrupção política e violência urbana, com um tom cru e realista.

19. "A Morte e a Menina" (1992, Ariel Dorfman)

Conto que mistura policial e drama político, com uma mulher confrontando o homem que a torturou durante uma ditadura — explorando temas de justiça e vingança.
 
Século XXI
 
20. "A Chave Mestra" (2001, Stieg Larsson)

Versão em formato de conto da obra de Larsson, com Lisbeth Salander investigando um assassinato familiar — representando o policial contemporâneo com elementos de suspense psicológico e crítica social.

21. "O Caso do Cachorro Que Não Latia" (2010, Gillian Flynn)
Conto que inspirou o filme Gone Girl, explorando o desaparecimento de uma mulher e a manipulação da mídia, invertendo os clichês do gênero

A. I. Dola, 2026.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

segunda-feira, 30 de março de 2026

Lançamento do E-Book “Nosso Português de Cada Dia”, de Célio Simões


O e-book "Nosso Português de Cada Dia" é uma obra essencial do advogado, escritor e memorialista paraense Célio Simões, que se dedica a registrar a alma da língua falada no Brasil. Composto por uma coletânea de expressões idiomáticas, o livro explora o "falar comum" que, embora muitas vezes se distancie das regras gramaticais rígidas, constitui a verdadeira identidade cultural do povo.

As crônicas que deram origem ao e-book possuem um histórico de publicação digital marcante na Terça da Cultura Popular: Sob este título, Célio Simões publica semanalmente artigos em diversos portais do Pará, como o Obidos.Net e o Amazon Pauxis, e no Paraná, no blog Singrando Horizontes.

Conhecer a origem permite entender por que certas frases, como "pé de meia" ou "com as mãos abanando", possuem significados figurados que transcendem a literalidade das palavras.

Célio Simões, membro de instituições como a Academia Paraense de Letras, transforma o cotidiano linguístico em um objeto de estudo rico e acessível, reafirmando que o português brasileiro é um organismo vivo e histórico.

Baixe o livro gratuitamente no link abaixo:

domingo, 29 de março de 2026

Asas da Poesia * 169 *


Poema de
JULIÃO SOARES SOUSA
Bula/Guiné-Bissau

Cantos do Meu País

Canto as mãos que foram escravas
nas galés
corpos acorrentados a chicote
nas américas

Canto cantos tristes
do meu País
cansado de esperar
a chuva que tarde a chegar

Canto a Pátria moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças

Canto as horas amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raiz
de outro mundo
estes grilhões que ainda detêm
a marcha do meu País
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Trova de
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN (1951 – 2013) Natal/RN

Cheia de brilho e de encantos,
loucamente apaixonada,
a lua faz chover prantos
nos olhos da madrugada.
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Soneto de
OTÁVIO VENTURELLI
Nova Friburgo/RJ

Ressonância

Há uma impotência enorme no vazio
que me rodeia o coração magoado,
já nem mais ao silêncio eu desafio,
embarguei minha voz, fiquei calado.

Igual à correnteza que há no rio
meu pensamento passa acelerado,
não tenho mais como encontrar o fio
de um novelo de amor embaralhado.

Hoje meus dias vou passando-os triste,
sem saber com certeza se ainda existe
um pouco de nós dois dentro de nós,

mas quando as vozes ao redor se calam,
nos meus silêncios as saudades falam
com as vozes iguais à tua voz…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Premiada na Academia Brasileira de Trova/1991 de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Queres vencer? - Pensa bem
e não dês passos a esmo,
ninguém pode ser alguém
sem conquistar a si mesmo.
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Soneto de
RITA MOUTINHO
Maria Rita Rodrigo Octavio Moutinho
Rio de Janeiro/RJ

Soneto do equinócio adiado

Hoje o silêncio corta o fio do equador
e incomunicáveis os polos orbitam
desgarrados da esfera terrestre. O calor
e a ardência tropical, mudos, se gelificam.

No equinócio, dia e noite — assim como o amor —
se equivalem e por isso se presentificam
o equilíbrio, a medida-anel do cobertor
e do corpo gelado quando se unificam.

Estamos na distância e no incomunicável
por motivos que nem os astros nos explicam.
Medo? Será o medo que faz dissociável

a junção dos amantes que se estigmatizam?
A nódoa do pecado no imo é implacável.
E, súbito, equinócio e harmonia se adiam.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Popular

Inda que meu pai me mate,
minha mãe me tire a vida,
minha palavra está dada,
minha alma está prometida.
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Poema de
BERNARDO TRANCOSO
Vitória/ES

O disfarce

Cobre a máscara
O jeito verdadeiro que tens.
Quando estás próxima a mim,
Veste-a e finge ser um falso alguém.
Teu cheiro mostra-me o teu disfarce.
É por modéstia?
Temes não me agradar, pois,
Por inteiro, sendo honesta.
Mas, mesmo que eu
Deteste-a ao ver quem és,
De fato,
Vou primeiro partir por tua mentira
Ante a moléstia.
Se existe algum problema,
Algum motivo pra enganação,
Permite-me ajudá-la agora,
Antes que eu pense
Estar errado ao te amar.
Já tem sido inofensivo - não mais -
Meu coração que, hoje, te fala
Em forma de um soneto
Disfarçado.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
HERMES FONTES
Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes
Buquim/SE, 1888 – 1930, Rio de Janeiro/RJ

A odisseia do verso

Vieram da fonte sensitiva e casta
do Coração: filtraram-se em requinte,
nos centros cerebrais: são versos... basta.
É estrofá-los em luz, por conseguinte.

É escrevê-los em fogo, em tom que os pinte,
voz que os declame... E a língua mal se arrasta!
E a pena extrai-lhes a expressão seguinte
que os fixa nos papéis da minha pasta...

Levamos o impressor, a publicá-los.
Lá se vão os meus versos... E eu sucumbo,
ao despedir-me da alma, entre ais e abalos...

E, ante a máquina, agora, o olhar descerro:
— vejo o meu Sonho transformado em chumbo!...
— vejo a minha Arte reduzida a ferro!...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

O detalhe de estar só
aguça o meu pensamento...
Vivo sem de mim ter dó;
- compor trova é doce alento!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
CLEUSA PIOVESAN
Capanema/PR

Razões além de mim

Escrevo, sinto, preciso
arejar minhas ideias...
Partilhar as emoções.

Não há dia para sonhar
mundos fora de mim. É 
ser, estar, ter, ver razões
pra existir, ir além, sorver,
amar, ter ar nos pulmões!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Veja os mistérios que existem
contidos em um olhar.
Às vezes eles persistem...
outros, somem num piscar.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
LÓLA PRATA
Bragança Paulista/SP

Soneto-comentário sobre "São Francisco e o rouxinol", de Martins Fontes

Um rouxinol cantava”... é o primeiro verso
do encantador soneto de Martins Fontes
em cujo clássico teor eu me alicerço
para a louvação de seus vastos horizontes.

Cativa a todos a singela narrativa
do elo musical da ave com São Francisco
que no assobio alegre, imita a patativa
como se numa vitrola, emperrasse o disco.

Mas o santo cansa-se... o pássaro segue...
e o praiano bardo se descongestiona,
pondo no papel até que o dom descarregue

todo o amor dedicado ao humilde frade...
depois, relendo o poema, se emociona
e vê que pra versos nasceu, eis a verdade!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
VICÊNCIA JAGUARIBE
Fortaleza/CE

Correndo com a liberdade

Correndo na calçada
Como quem não quer nada
Lá vem o Zezé
Na ponta do pé.

Atrás do Zezé
Com cara de índio
Corre o Mané.
Pra onde estão indo?

Vendo correrem os dois
Corre também a Verinha
Que tem cara de arroz
Mas é muito boazinha.

Levantando do meio-fio
Pedro segue os vadios.
E o João, sem o pé de feijão,
Quase entra na contramão.

A Lúcia, a Ana e a Teresa,
Quando tornam da surpresa,
Entram no rolo sem saber
Por que estão a correr.

Os curiosos perguntam
O motivo ou a razão
De tamanha confusão
De tanta criança junta.

Será que aqueles meninos
Correm de boi desenfreado?
Fogem de dentes caninos
Por eles desafiados?

Invadiram o pomar
Do afobado seu Oscar?
Ou mexeram no jardim
Do coitado seu Joaquim?

Os meninos diligentes
Só desejam, simplesmente,
Desfrutar a liberdade
Que lhes permite a idade.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Coceirinha furibunda, 
coça embaixo, coça em cima... 
Quando coça na cacunda, 
sinto cócegas... na rima!
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP

Sertão

NO TOPO:
"No Sertão é tanta paz
Que eu chego a ouvir, da soleira,
O esforço que o vento faz
Tentando abrira porteira".
JOSÉ OUVERNEY
Pindamonhangaba/SP

SUBINDO:
"Tentando abrir a porteira"
que prende meus velhos sonhos,
ouço a saudade matreira
falando em dias risonhos.

"O esforço que o vento faz"
farfalhando no telhado
dá-me a sensação de paz
que ficou !á no passado.

"Que eu chego a ouvir, da soleira,"
uma canção de ternura
que a brisa sopra, ligeira,
tangendo a doce ventura,

"No Sertão é tanta paz"
e a vida para, intrigante,
que o coração é capaz
de sorrir, mesmo distante.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Humorística de
GERSON CÉSAR SOUZA
São Leopoldo/RS

Vendo as listras do pijama
que vestia Dorotéia,
seu genro, bêbado, exclama:
- A zebra engoliu a véia!!!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
FÊNIX/ PR

I
Nos braços do Ivaí caudaloso
Que ergue forte e varonil
Ó Fênix meu torrão formoso
Terra rica e tão gentil

II
Vila Rica do Espírito Santo
Testemunha os autores da história
Esta plaga que eu amo tanto
E hei de ver eternamente em tom de glória

III
És Fênix, amada
Orgulho dos filhos teus
Nasceste predestinada
E abençoada por Deus

IV
Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná

V
Há de ter alguém no Norte
Qual majestoso pinheiro
Do povo ao Brasil forte
No labor é o primeiro

VI
Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná

VII
Aos heroicos pioneiros
Que ascendiam o sucesso
Nosso afeto verdadeiro
Pela glória e o progresso

VIII
Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O bêbado e sua mulher

Nem medo nem vergonha contrariam
A natural tendência.
O conto que se segue
Tem, neste caso, a marca da evidência.

Um devoto de Baco arruinava-se
Por causa da goela;
De força andava baldo, e de pecúnia...
Nem sombras na escarcela.

Um dia em que perdera a tramontana
Bebendo a bom beber,
Numa espécie de tumba
Fê-lo a esposa meter.

Quando ele, enfim, saiu da raposeira,
Viu todos os sinais que indicam morte,
A lâmpada, a mortalha... «Ó Deus, que é isto?...
Fiz viúva a consorte?»

Esta, em trajos de parca disfarçada,
Do marido se abeira:
«Quem és?» — «Eu sou da lúgubre morada
A eterna despenseira.

Dou de comer à farta aos que repouso
No reino escuro tem».
E o marido a bradar muito aguçoso:
«E que beber, não vem?»
= = = = = = = = = = = = = = = = = =