quarta-feira, 1 de abril de 2026

Laé de Souza (Animais de Estimação)


Quando Cilinha insistiu para que fossem visitar a feira de animais, tenho certeza de que já planejava conseguir o seu animalzinho. Lendo uma história de uma menina com o seu cachorrinho, ela se entusiasmou e achou que também deveria ter o seu.

A gente sempre considera a inocência das crianças; mas, de vez em quando, elas fazem as suas tramas e arquitetam como chegar aos seus objetivos. E Cilinha era uma criança esperta.

Na feira, a família vê patos, coelhos, cabras, gatos e Cilinha se abre em sorrisos, quando chegam aos cães. Cada um mais lindo que o outro! A garotinha se engraçou com um filhote de poodle que era a coisa mais linda. O vendedor deixou que ela o pegasse. A menina acariciou o cãozinho, levou-o ao colo, conversava com ele, e parecia que ele a entendia. Corriam, ela alisava a sua barriga e ele ficava de pernas para cima, todo dengoso. Uma coisa linda! Dival, pai da Cilinha, bateu fotos dos dois em poses variadas.

Na hora de ir embora, Cilinha se agarrava ao Bob (já tinha colocado até nome no cão) e chorava. Queria o seu Bob de qualquer jeito. Dival tentou convencê-la a deixar para outro dia, mas Cilinha, viva como ela só, sabia que aquele outro dia significava nunca, e aquela era a oportunidade única de ter o seu cãozinho. E abriu um berreiro. Por fim, Dival arriscou um “Quanto custa?” para o vendedor, o que fez Gerusa, sua mulher, reagir “O problema não é preço, Dival. Pode ser até de graça, que não vai levar! Quem vai cuidar dessa coisa? Você?” 

Cilinha aumentou o choro e dizia que o seu Bob não era “coisa” não. Era um cãozinho bonzinho. O coitado do Dival, entre a cruz e a espada, aproveitou-se da fala do vendedor, que dizia “Ele não cresce muito não, dona”, para tentar convencer que o trabalho seria mínimo e um bichinho de estimação seria muito bom para Cilinha.

Pra resumir: foram-se. E com eles, Bob. Gerusa emburrada no banco da frente, Dival contorcendo-se com a lambida do Bob no seu pescoço e Cilinha toda sorridente, segurando o cachorrinho atrás do banco do Dival, a falar “Ele gosta de você papai. Lambe o nosso paizinho, lambe, Bob.”

No começo, era festa. O Bob na sala, no quarto, na cama e pra todo lado no colo da Cilinha.

O cachorro foi crescendo e aprontando. Comia o tapete, sujava a casa, latia. Resolveram que era hora de colocar a casinha dele no quintal. Desde a primeira noite, Bob latia e os gatos passavam para infernizar. Quando não apareciam, Bob latia mesmo assim, parecendo que a chamá-los. Pensou-se que seria só até que ele se acostumasse, mas os dias passavam e o animal latia a noite toda. Cilinha, vez ou outra, brincava um pouco com ele no quintal. Mas, era só a menina entrar para que Bob recomeçasse os latidos. A menina não podia ficar muito tempo, porque tinha de levantar cedo para ir à escola. Assim, ia dormir. E que sono pesado tinha a mocinha, que nem se ligava para o barulho. Na verdade, tanto Cilinha quanto Bob estavam grandes e não tinham mais tanto entrosamento para brincadeiras.

Num dia, em que por três noites seguidas Bob não o deixara dormir, Dival estourou “Ou eu, ou ele! Se não derem fim neste animal, eu vou embora de casa.” Gerusa deixou correr uma lágrima, pois já tinha criado amor ao Bob; Cilinha disse que não via motivo para tudo aquilo e que era exagero do pai, talvez irritado por problemas no trabalho descarregava no Bob. Mas, a decisão do Dival era definitiva.

Buscavam alternativa, quando Dival lembrou-se de uma amiga da mulher que tinha vindo, outro, dia em sua casa com a filha, que brincou o dia todo com Bob e chorou na hora de ir embora, querendo ficar mais tempo com o cão. Gerusa pensou em ligar para a amiga, mas Dival achou que era melhor ir pessoalmente e oferecer o cachorro na frente da menina.

A amiga recusou; a menina chorou muito e o pai convenceu a mulher a aceitar o Bob, com o argumento de que seria muito bom para a filha Analice, porque precisava de companhia. Assim, foi-se o Bob e junto a casinha e demais pertences, deixando um vazio.

No primeiro dia, enquanto o pai da Analice saía com o carro da garagem, Bob escapou. O homem sem saber ainda o nome do cão, chamava:

 “Vem cachorro! Cãozinho, venha cá! Vem aqui com o papai, vem!”, e Bob nem aí. Tentou segura-lo pela coleira e levou uma mordida. Apanhou uma vassoura e saiu correndo atrás do Bob, que voltava para a casinha, enquanto Analice aparecia de pijamas chorando e pedindo “Não bate no Bob, não, papai!” 

O pai olhando a mão mordida, respondeu “Desta vez passa, mas este bicho vai ter de aprender a me obedecer.” Bob lambia Analice e olhava para o pai da menina, creio que pensando que a sua história dali em diante seria diferente. Bem, vamos ver à noite…
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco. 

Fontes:
Laé de Souza. Espiando o Mundo pela Fechadura: crônicas. SP: Ecoarte, 2018.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing