segunda-feira, 20 de abril de 2026

Dicas valiosas para assassinar seu texto de vez


Você leu o texto anterior sobre o bom e o mau texto, que bom! Agora, se você quer assassinar o seu texto, aqui seguem dicas de ouro. 

Escrever algo genuinamente ruim é quase uma arte. Se você quer que seu conto ou crônica seja uma experiência dolorosa para o leitor, aqui está o guia definitivo do que não fazer (fazendo):

Se o objetivo é realmente torturar o leitor e garantir que ninguém passe da primeira página, aqui estão alguns "ingredientes" infalíveis para um desastre literário:

1. Capriche no "Dicionário de Sinônimos"

Não use "disse". Use "prolatou", "exclamou com veemência", "articulou pausadamente". “Componentes da sinóvia”? Que horror! É um tratado de medicina? Quanto mais palavras difíceis e arcaicas você enfiar num texto moderno, mais o leitor vai se sentir lendo um contrato de 1800 e odiar “veementemente” o seu texto e nunca mais ler nada de sua autoria. Parabéns! Seu objetivo foi alcançado.

2. Abuse dos Adjetivos e Advérbios

Nunca deixe um substantivo sozinho. Não é apenas uma "noite". É uma "noite escura, tenebrosa, silenciosamente gélida e assustadoramente melancólica". Se o advérbio termina em "-mente", use três por frase.

3. O Clichê é seu Melhor Amigo

Comece o texto com o personagem acordando com o despertador tocando. Faça-o olhar no espelho e descrever a própria aparência para o leitor (que conveniência!). Termine com "e tudo não passava de um sonho".

4. Use o "Deus Ex Machina" sem Dó

O protagonista está cercado por dez vilões armados? Do nada, ele descobre que tem superpoderes que nunca foram mencionados, ou um raio cai do céu e mata todos os inimigos. Zero esforço, zero lógica.

5. Explique Tudo (Não Mostre Nada)

Em vez de descrever o suor frio e as mãos tremendo, escreva apenas: "Ele estava com muito medo". Não dependa da percepção do leitor; explique até as metáforas para garantir que ninguém precise usar a imaginação. Ou seja, se alguém dá “Bom dia”, seja irritante e detalhe o “Bom dia”.

6. Diálogos Automatizados

Faça os personagens falarem como se estivessem lendo uma enciclopédia.

— "Olá, João, meu irmão biológico que não vejo desde o incidente no coreto da praça em 1998."

— "Olá, Maria. Sim, eu me recordo bem daquele dia fatídico onde a chuva caía incansavelmente sobre nossas cabeças."

7. Fuja do Foco

Se for uma crônica sobre o preço do pão, gaste três parágrafos falando sobre a genealogia do padeiro e depois mude de assunto para a política externa da Mongólia sem nenhum conectivo. O caos é o objetivo.

8. Pontuação Opcional

Escreva parágrafos de duas páginas sem uma única vírgula ou ponto final para deixar o leitor sem fôlego literalmente ou então use pontos de exclamação em todas as frases para parecer que o texto está gritando com alguém!!!!

9. O Início Infinitamente Lento

Gaste as primeiras páginas descrevendo a meteorologia ou os móveis do quarto antes de qualquer ação acontecer. O leitor precisa sentir o tédio existencial do personagem na pele.

10. Mudanças de Foco Aleatórias (O "Flashback" do Nada)

No meio de uma cena de perseguição emocionante, pare tudo para contar o que o protagonista comeu no café da manhã há dez anos. Quebre o ritmo de forma brusca e sem propósito.

11. Narrador Onisciente e Intrometido

O narrador deve dar opiniões o tempo todo e julgar os personagens. "João entrou na sala, sem saber que era um idiota por fazer aquilo. Eu, o autor, jamais faria isso, mas João é limitado."

12. Erros de Continuidade "Criativos"

Na página 2, o personagem é loiro e mora sozinho. Na página 5, ele penteia seus cabelos negros e pede um conselho para a esposa que está na cozinha. Não explique a mudança; deixe o leitor confuso.

13. O Uso de Gírias Datadas ou Erradas

Tente fazer um jovem falar usando gírias que eram descoladas em 1970 ou invente gírias que não fazem sentido nenhum. "E aí, meu bicho-grilo, vamos supimpar aquele rolê topzera no videocassete?"

14. O Final Moralista e Cafona

Termine o conto com uma lição de moral escrita em letras garrafais, como se fosse uma fábula infantil mal acabada: "E assim aprendemos que o ódio não leva a lugar nenhum, apenas ao vazio."

15. Formatação Experimental (e Irritante)

Mude a fonte no meio do texto, use negrito em palavras aleatórias ou escreva frases inteiras EM CAIXA ALTA PARA MOSTRAR QUE O PERSONAGEM ESTÁ EMOCIONADO.

16. Onomatopeias em Excesso

Em vez de descrever o som, escreva-o literalmente e repetidamente. "Ele caminhava pela sala. Pof. Pof. Pof. De repente, o telefone tocou. Trrrriiiimmm! Trrrriiiimmm! Ele atendeu. Click.”

Exemplo:
Aqui está uma obra-prima do desastre literário, unindo o máximo de táticas irritantes em um único parágrafo:

"A aurora boreal dos sentimentos prolatou-se no horizonte gélido, úmido, escuro e tristemente melancólico daquela manhã fúnebre onde o sol, esse astro rei amarelado, insistia em brilhar intensamente. João, meu irmão caçula que nasceu em 1995 sob o signo de Escorpião, acordou com o estridente TRRRRIIIIIIIM do despertador e olhou-se no espelho retangular de moldura de mogno, observando seus olhos azuis como o mar revolto e seu nariz levemente adunco, pensando consigo mesmo: 'Estou sentindo uma tristeza profunda e avassaladora hoje'. De repente, um alienígena careca caiu do teto — que era pintado de branco neve com tinta látex de baixa qualidade — e disse: 'Olá, João, eu vim aqui para resolver todos os seus problemas financeiros agora'. João sorriu, mas o alienígena de cabelos loiros e tudo não passava de um sonho onde a moral da história é que quem cedo madruga, Deus ajuda!"

Por que este texto é um "sucesso" no fracasso:

Dicionário de Sinônimos: "Aurora boreal dos sentimentos" e "prolatou-se".

Adjetivos em excesso: "Gélido, úmido, escuro e tristemente melancólico".

Explicação óbvia: "Estou sentindo uma tristeza profunda".

Diálogo expositivo: "Meu irmão caçula que nasceu em 1995...".

Erro de continuidade: O alienígena careca que ganha cabelos loiros do nada.

Clichês supremos: Começar com o despertador, terminar com "era tudo um sonho" e uma lição de moral cafona.

Onomatopeia irritante: O TRRRRIIIIIIIM no meio da narrativa.


Contudo, se você quer escrever um texto bom, que não esteja fadado a participar do funeral dele, escreva o contrário das dicas acima. Existem muitos escritores que possuem o dom da escrita, mas também possuem o dom de estragar o texto inteiro por causa de algumas palavras mal colocadas. 

Se o texto é filosófico, não siga as regras acima, não queira mostrar sua erudição com palavras que raros leitores sabem o seu significado ou utilizar gírias que quebrem o texto. Ou seja, não assassine o seu texto. Tenho escritores que penso várias vezes se vou ler seus textos, são cheios de erros, palavras que nunca ouvi falar, ou fazem parte do vocabulário português, de Portugal. Decida que idioma vai escrever. 

Ou seja, as notícias estão repletas de crimes, estes crimes contra o leitor deveriam fazer parte de suas manchetes. Seria uma agenda cheia.

Referências:
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing