domingo, 26 de abril de 2026

Mensagem na Garrafa 177 = O Camelo e a Corcova


AUTOR: RUDYARD KIPLING*

No início dos tempos, quando o mundo era tão novo, e tudo o mais, os animais mal estavam começando a trabalhar para o homem, havia um camelo que vivia no meio de um Deserto dos Lamentos, porque não queria trabalhar; além disso, ele próprio era um lamentável absurdo. Comia galhinhos, espinhos, plantinhas, doído de tão preguiçoso; quando alguém falava com ele, só dizia:

- Uma ova! - Só isso: - Uma ova! - e nada mais.

Uma manhã de segunda-feira, o cavalo chegou para ele, sela às costas e freio na boca, e disse:

- Camelo, ó Camelo, venha aqui trotar conosco.

- Uma ova! - disse o camelo; e o cavalo foi embora e contou para o homem.

Veio o cachorro, com uma vareta na boca e disse:

- Camelo, ó Camelo, venha aqui catar conosco.

- Uma ova! - disse o camelo; e o cachorro foi-se embora e contou para o homem.

Depois veio o Boi, com uma cangalha no pescoço e disse:

- Camelo, ó Camelo, venha aqui arar conosco.

- Uma ova! - disse o camelo; e o boi foi embora e contou para o homem.

No fim do dia, o homem chamou o cavalo, o cachorro e o boi e disse:

- Três, ó Três, lamento muito por vocês (nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais); mas aquela Coisa-ova no Deserto não consegue trabalhar, senão já estaria aqui agora. Por isso, vou deixá-lo sozinho lá e vocês vão ter que trabalhar dobrado para compensar.

Isso deixou os Três furiosos (naquele mundo tão novo-e-tudo-o-mais) e foi um palavrório, uma confusão, um comício escandaloso na beira do deserto. O camelo veio mascando uma mamona, doído de tão preguiçoso e ficou rindo deles. Depois disse:

- Uma ova! - e foi-se de novo.

Veio chegando o Djinn (gênio) que reinava sobre todos os desertos, rolando numa nuvem de poeira (os Djinn sempre viajam assim, porque é magia), e parou para um palavrório e um comício escandaloso com os Três.

- Djinn de Todos os Desertos - disse o Cavalo -, pode alguém ser tão preguiçoso, nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais?

- Certamente que não - disse o Djinn.

- Bem - disse o Cavalo -, tem uma coisa no meio do Deserto dos Lamentos (e ele é o próprio lamentável absurdo) com um pescoço comprido e pernas compridas, que não moveu uma palha de trabalho desde a manhã de segunda-feira. Ele nem trota.

- Puxa! - disse o Djinn, dando um assovio - É o meu Camelo, por todo o ouro da Arábia! O que é que ele diz disso?

- Ele diz uma ova! - disse o Cachorro - E nem pega nem carrega.

- Ele diz alguma outra coisa?

- Só uma ova! e ele nem ara - disse o boi.

- Muito bem - disse o Djinn. - Eu vou ovacioná-lo, se vocês fizerem a gentileza de esperar um minuto.

O Djinn se enrolou no seu casaco de poeira, determinou sua posição no deserto e achou o Camelo doído de preguiça, olhando seu próprio reflexo numa poça d'água.

- Meu amigo comprido e borbulhante, - disse o Djinn - que é que eu ando ouvindo, de você não querer trabalhar, nesse mundo tão novo-e-tudo-o-mais?

- Uma ova! - disse o Camelo.

O Djinn sentou-se, queixo na mão, e começou a pensar uma Grande Magia, enquanto o Camelo continuou olhando seu reflexo na poça d'água.

- Você fez os Três trabalharem dobrado desde manhã de segunda-feira, só porque fica doído de preguiça - disse o Djinn; e continuou pensando magias, com o queixo na mão.

- Uma ova! - disse o Camelo.

- Eu não repetiria isso, se fosse você - disse o Djinn. - Você pode falar demais da conta. Bolas, eu quero que você trabalhe.

E o Camelo disse:

- Uma ova! - de novo.

Mas logo que falou, viu suas costas, das quais tinha tanto orgulho, estufando, estufando, até virar uma enorme corcova.

- Viu só? - disse o Djinn - Foi a sua própria preguiça que você trouxe como um peso às suas costas, por não querer trabalhar. Hoje é quinta-feira e você não trabalhou nada desde segunda, quando começou o trabalho. Agora, você vai trabalhar.

- Como é que eu posso - disse o Camelo -, com essa corcunda nas minhas costas?

- Foi de propósito - disse o Djinn - porque você faltou esses três dias. Agora você vai poder trabalhar três dias sem comer, porque você vive da sua corcunda-uma-ova, que vai ser sua corcova; e nunca diga que nunca fiz nada por você. Saia do deserto e vá com os Três, comporte-se. Corcove-se!

E o Camelo corcoveou-se, corcova e tudo, e foi juntar-se aos Três. E desde aquele dia, o Camelo sempre teve um corcova-uma-ova (a gente chama de corcunda, hoje, para não magoá-lo, lembrando uma ova!); mas ele nunca compensou os três dias que faltou no começo do mundo; e até agora ainda não aprendeu a se comportar.
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* Joseph Rudyard Kipling (1865–1936) foi um renomado autor, poeta e jornalista britânico, imortalizado por obras como O Livro da Selva e o poema Se. Nascido na Índia sob o domínio britânico, ele é considerado um dos maiores inovadores na arte do conto curto e foi, em 1907, o primeiro escritor de língua inglesa e o mais jovem a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Sua produção literária é vasta e abrange diversos gêneros: “O Livro da Selva”: Sua obra mais famosa, que apresenta as aventuras de Mogli, o "menino lobo". “Kim”: Muitas vezes aclamado como seu melhor romance, narra a história de um órfão irlandês na Índia no contexto do "Grande Jogo" político. “Gunga Din”: Poema que descreve o heroísmo de um carregador de água indiano.
Nascido em Bombaim, teve uma infância feliz cercado pela cultura local até ser enviado aos 5 anos para a Inglaterra, onde sofreu maus-tratos em um internato, trauma que influenciou sua escrita. Retornou à Índia aos 16 anos para trabalhar em jornais como o Civil and Military Gazette, onde começou a publicar seus primeiros contos. Casou-se com a americana Caroline Balestier e viveu em Vermont por quatro anos, período em que escreveu O Livro da Selva. Perdeu sua filha primogênita, Josephine, por pneumonia em 1899, e seu filho John na Primeira Guerra Mundial em 1915, eventos que o marcaram profundamente.  Embora celebrado por seu talento narrativo, Kipling é uma figura controversa devido ao seu forte apoio ao imperialismo britânico. Ele acreditava na "missão civilizadora" do Império, conceito imortalizado em seu poema "O Fardo do Homem Branco". Atualmente, sua obra é analisada sob lentes críticas que discutem colonialismo e racismo, embora sua habilidade literária continue atraindo leitores.