Ao tecer o último nó da encomenda, dona Neife não sorriu. Havia outro trabalho a ser feito com urgência e, embora relutasse em rendá-lo, sua obrigação era fazê-lo como último da vida. Resolvera assim. O último.
-Tarefa ingrata - resmungou e, antes de iniciar o trabalho, pegou como sempre fazia o Talmude que mantinha ao lado, no canto da mesa.
Abriu-o e leu; "Tomando a decisão e querendo, os pés a conduzirão para a realização". Lição judaica que serviu de inspiração para mantê-la sóbria, segura e ciente de que a vida como tudo um dia acabaria.
A doença lhe macerava o corpo, impingia-lhe incertezas e a deixava cansada, sem forças, com dores. Ardiam-lhe os olhos, a visão se turvava, mas apesar de tudo, algo a impulsionava. Não se deixaria vencer sem concluir o trabalho.
Estava determinada.
Delicadamente juntou navetes*, agulhas, carretéis e retroses sem se preocupar com tamanhos, cores e espessuras das linhas. Desta vez não precisaria tanta atenção. Se já dera milhares de nós e laços que consumiram quilômetros de linhas em toalhas que enfeitaram lares, mangas, golas, punhos e lenços que puseram elegância em braços e colos na magnitude que só a renda em frivolité consegue, por que não teceria o último?
Por que não o faria para si?
Gratidão. Sim, demonstraria gratidão pela oportunidade no compromisso com a vida e, entretida, sorriu. Ser frivoliteira era uma dádiva que a fazia se envaidecer com o brilho de olhos das freguesas diante de um trabalho seu. Precisava mais? Não. Nascera humilde e assim terminaria. A singela frivolité lhe revigorava o ânimo e, mesmo triste por se saber próxima do fim, louvou à paciência, à persistência, ao bom gosto e também aos dedos já nodosos e de juntas endurecidas. Com eles, nós e laços dançavam na linha a música de enternecer...
Mas, instintivamente, levou a mão ao pescoço sentindo dor. O nódulo, como falara o médico, crescera muito e nada mais havia a ser feito senão esperar, e ela, ciente de que vivera bem graças ao jeito suave de voltear navetes, manipular agulhas, laçar e enozar linhas com a precisão que a beleza exige ao compor laços, pontos e nós nas espetaculares rendas, pegou de um pequeno espelho e se viu de pálpebras descidas, pele frisada, rugas latentes, provando que o tempo, ao passar, maquia a juventude a seu modo.
E não era aquela a fisionomia que pretendera ver. Nunca fora ou se sentira feia, e não o seria agora,
Num gesto rápido tingiu os lábios, empoou-se, penteou-se discordando tanto da doença que lhe consumia o corpo como do tempo, esse ingrato que dá e toma sem nos perguntar.
Com a perseverança que marcou a profissão, rendou rapidamente o trabalho, decidida que só pararia no último nó daquele derradeiro: a mortalha que a envolveria na última viagem.
Arcada sobre fios e navetes, no silêncio do entardecer, com a renda sendo ligeiramente cosida, orou agradecendo pela oportunidade.
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* Navete = Ferramenta de madeira que carrega o fio para frente e para trás através dos fios verticais para criar tecidos e tapetes.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs: Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.
Renato Benvindo Frata. Fragmentos. SP: Scortecci, 2022. Enviado pelo autor
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