domingo, 5 de abril de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 7. O Caçador do Silêncio

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites

"Salaam’aleikum"
(Que a paz esteja convosco), meus ouvintes de alma atenta. O silêncio que agora nos envolve é o tapete sobre o qual esta história vai caminhar. Eu, Mustafá, vi muitos homens tentarem roubar ouro e poder, mas apenas um teve a ousadia de roubar o que pertence aos desertos profundos.

Em Nishapur, vivia um poeta chamado Faruq. Seus versos eram belos, mas a cidade era barulhenta — o martelar dos ferreiros, o grito dos mercadores e as intrigas dos palácios sufocavam sua inspiração. 

"Ya Allah" (Ó Deus), clamava ele, "como posso ouvir a música das esferas se o mundo não para de gritar?".

Consumido por um desejo ardente, Faruq viajou até o coração do deserto, onde dizem que o silêncio é tão espesso que se pode cortá-lo com uma adaga. 

Lá, ele encontrou um "dervixe" (monge sufi) que meditava sobre uma duna que nunca se movia.

"Ensina-me a capturar o silêncio", pediu Faruq. 

O ancião entregou-lhe um frasco de cristal vazio e disse: "O silêncio não se captura com as mãos, mas com a ausência do 'ana' (eu/ego). Se fores capaz de passar sete dias sem pensar em ti mesmo, o silêncio entrará no frasco."

Faruq lutou. No sétimo dia, ele esqueceu seu nome, sua fome e sua fama. O frasco brilhou com uma luz opala. Ele o arrolhou e voltou para a cidade. 

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), ele conseguira!

Ao abrir o frasco em sua casa, o silêncio derramou-se como um rio invisível. Subitamente, todo o barulho de Nishapur cessou ao redor de sua morada. 

Mas houve um preço: as pessoas não conseguiam mais se entender, os pássaros esqueceram o canto e até o vento parou de soprar. Faruq percebeu que, ao roubar o silêncio para si, ele roubara a alma do mundo.

Arrependido, ele subiu ao minarete mais alto e quebrou o frasco. O silêncio espalhou-se, mas desta vez ele não abafou os sons; ele tornou-se a pausa entre as notas, o espaço entre as palavras que permite que a fala tenha sentido. 

"Shukran" (Obrigado), murmurou o poeta, entendendo que o silêncio não é a ausência de som, mas a presença da paz.

Desde aquele dia, Faruq escreveu seus melhores poemas, pois aprendeu que o segredo não é fugir do barulho, mas carregar o deserto dentro do peito.

“As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês). Que o silêncio de vocês seja sempre um refúgio, e nunca uma prisão.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Assina seus escritos por Floresta/PR.. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
“Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo.
Em andamento: "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing