A cena faz a saudade invadir as frestas da memória. As cores, que chegam junto com a criança, iluminam vãos inexistentes de mim mesma.
Por um instante, vejo minha mãe no lugar dele, segurando outro pequeno pássaro caído, Papa-capim-do-peito-branco, ela explicou. E eu passei a tarde cantarolando o nome comprido.
Eu me embriagava na paleta que nos cercava: o muito azul do céu, o amarelo incandescente dos girassóis, o barrento do rio que nos contornava. E sua voz me chegava em sobretons - às vezes gris, às vezes na calmaria dos tons pastéis.
As tardes eram verdes e se enroscavam modorrentas em nossas pernas sobre o galho, enquanto explodíamos jabuticabas no céu da boca.
No dia em que fui embora, havia um azul embotado em seus olhos. Ela me segurou pelas mãos e disse:
- Toma, filha, para ajudar nas despesas.
Dentro delas, duas notas de cem reais. Tudo o que tinha. Tudo o que eu queria, no entanto, era a fortaleza segura do seu abraço.
Murmurei um "obrigada" e entrei no carro. Meus olhos, agrilhoados aos seus, eram cinza opaco.
O mesmo cinza que toma o céu após a tempestade.
Subo na escada e devolvo o passarinho ao ninho. Os olhos do meu filho, tão idênticos aos seus, brilham azul.
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PATRICIA DALTRO é escritora carioca, formada em Letras. Publicou algumas obras como: "A Vida Sem Manual" (2015), "A Versão da Madrasta" (2017), "O Amor é um Terno Azul Turquesa" (2020) e "O Ano que Deixei de Ser Invisível" (2024).
Fonte:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera
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