Há uma lentidão que não é preguiça, é história. É o ritmo dos passos de Dona Maria, do Seu João, de tantos que carregam nas costas a idade e no coração a vontade de ainda ir e vir. Mas sair de casa hoje em dia virou uma prova de resistência, um obstáculo que muitos são obrigados a enfrentar diariamente.
A cidade, no seu ritmo frenético, esqueceu-se de quem precisa de tempo. Para estes idosos, o simples ato de ir à padaria não é uma caminhada; é uma operação de risco, um exercício diário de bravura e paciência. Ao cruzar a soleira de casa, o cenário que o espera é um tabuleiro de xadrez onde todas as peças jogam contra eles.
Basta olhar para o chão. As calçadas, que deveriam ser o abrigo seguro dos pedestres, parecem campos de batalha. Buracos, lajotas soltas, degraus que aparecem do nada e buracos que a chuva esconde. Para quem tem os olhos já cansados e os joelhos que doem com a mudança do tempo, cada metro percorrido exige uma atenção redobrada. É preciso olhar para baixo o tempo todo, como se estivessem pedindo permissão ao asfalto para caminhar.
E quando o caminho parece livre, lá estão eles: os galhos grandes, caídos das árvores, que ninguém remove, ocupando metade da passagem. O idoso tem que se desviar, se apertar, muitas vezes ter que sair da calçada e pisar na rua, exposto ao perigo.
Ah, a rua... Essa sim é um mundo hostil. Os carros passam velozes, como se o tempo deles fosse mais importante que a vida dos outros. Não há respeito à faixa, para os motoristas a faixa de pedestre é só um desenho no chão sem sentido, não há paciência com quem caminha mais devagar. Para um corpo que já não reage com a agilidade de outrora, o barulho do motor e a velocidade das máquinas causam pânico. É o medo constante de não conseguir cruzar a tempo, de tropeçar e cair justamente no meio do caminho.
Chegar ao outro lado é uma vitória silenciosa. Seu João suspira, aliviado, mas já preocupado com a volta. Ele não pede muito: apenas um chão plano, um segundo a mais no sinal e o respeito de quem, um dia, também andará devagar. A cidade precisa lembrar que envelhecer não é um crime, e caminhar não deveria ser uma punição.
É triste ver como a cidade, que deveria acolher a todos, parece construída apenas para os fortes, para os rápidos, para os jovens. Esquecem de que aqueles que hoje mancam, que demoram mais, que olham com cuidado para onde pisam, podem ser um espelho dos que um dia envelhecerão e passarão pelo mesmo drama.
As rachaduras no cimento e a pressa dos automóveis não deveriam ser o cenário da velhice. Cuidar das calçadas, podar as árvores e diminuir a velocidade não é só questão de infraestrutura, é questão de humanidade. É garantir que, mesmo que os passos fiquem mais curtos, eles ainda possam ser seguros. Porque um lugar que não sabe cuidar dos seus idosos não sabe, de fato, ser uma cidade.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Assina seus escritos por Floresta/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Foi Vice-Presidente da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI). Presidente da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações:
Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo.
Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Sunshine.
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