Vez por outra, Hulda desaparecia dentro de casa. Parecia fantasma. Eu a chamava, ela nada respondia. Vasculhava todos os cômodos e não a encontrava. E a casa era pequena. Sala, três quartos, dois banheiros, cozinha e quintal.
Hulda desaparecia como por encanto. Às vezes estávamos na sala, eu lendo jornal ou livro, ela polindo unhas. Eu comentava notícia ou capítulo. Ministro demissionário, homem perdido em casa mal-assombrada. Ela se aborrecia. Pouco lhe importava o destino da república. Menos ainda o fim dos livros. E deixava de lado as unhas e a sala. Eu a chamava, ela nada respondia. Largava o jornal ou o livro e ia ao banheiro. Não estava. Corria ao quarto do casal, ansioso, sôfrego, impaciente. Ninguém deitado na cama. Nenhuma mulher dormida, a sonhar.
E o ministro? Talvez já estivesse demitido. E o homem, coitado, morto de medo, perseguido por assombrações na casa velha! Hulda que se cuidasse. Ela não valia a república. Nem uma casa de fantasmas. E eu lia e relia o jornal ou o livro. E queria comentar notícia ou capítulo. Chamava Hulda, ela não respondia. Largava então o jornal ou o livro e ia ao quarto dos nossos filhos. Não, não sabiam da mãe. Devia estar na cozinha. Eu corria para lá. A cozinheira resmungava besteiras. Importava-lhe apenas o destino do frango. O ministro, o homem assombrado, a patroa, fossem todos para o inferno.
Eu voltava ao sofá, reabria o livro ou o jornal. Não entendia mais nada. Ou o mundo enlouquecera, ou jornalistas, escritores e tipógrafos brincavam comigo. Um ministro assombrado, um homem demissionário. Eu ria, gargalhava. Hulda precisava ouvir aquelas barbaridades. Talvez ela estivesse no quarto da cozinheira. Ou no banheiro. Não, ela não se aviltaria tanto.
Restava o quintal. Sim, colhendo flores, aguando plantas, catando frutas. Quem sabe, dando comida ao cachorro. Atirando pedras às lagartixas. Estendendo roupas no varal. Simplesmente aspirando ar puro.
Durante a noite, o mesmo tormento. Eu acordava sobressaltado e queria conversar. Generais davam golpes, fantasmas debaixo da cama. E Hulda, por onde andava? Passava a mão, e só encontrava travesseiro, lençol, vazio.
Ia ao banheiro e me assustava. Um homem assombrado à minha frente. Era o espelho. Corria à sala. O jornal espalhado pelo chão, o livro aberto sobre o sofá. As crianças dormiam em paz. A cozinheira estendida no catre, desarrumada. O cachorro latia, o vento abanava as roupas estendidas no arame, a lua clareava tudo.
Esse tormento durou dias e noites. Anos e anos.
Ainda bem que tudo acabou. Não leio mais jornais nem livros. Pode cair a república, pode o homem morrer de medo na casa mal-assombrada. Agora sou um homem sossegado. Quanto a Hulda, se desapareceu definitivamente, não sei. Se virou fantasma ou se morreu, pouco me importa. Esta casa é que não deixo.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999).
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
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