segunda-feira, 27 de abril de 2026

Nilto Maciel (Olho Mágico)


A campainha soou e Inácio assustou-se. O jornal chegou a escorregar de suas mãos. Por que só inventavam torturas? Bem podiam conservar as pancadas com os nós dos dedos, as palmas, os “ôi de casa”. Civilização do terror, era o que era.

A resmungar, deixou o jornal espatifar-se no chão e arrastou-se na direção da porta. Não deu tempo, ao menos, de meter os pés nos chinelos. Melhor, talvez fosse visita indesejável, vendedor de porcarias, cobrador de dívidas. Nem devia atender. Nem sequer levantar-se do sofá. Mas a campainha voltou a berrar e Inácio apressou o passo.

  — Já vai.

Aproximou-se da porta, levou a mão à maçaneta e só então se lembrou do olho mágico. Primeiro precisava saber quem o procurava àquela hora. Seguro morreu de velho. O nariz chegou a doer. Olhou, olhou com atenção. E viu, do outro lado, o homem. Não, não podia ser verdade. A não ser que o olho fosse um espelho. Ou então houvesse um espelho do outro lado da porta. Ora, o homem era a sua imagem e semelhança. Deixou-se a olhá-lo, admirá-lo, investigá-lo. O mesmo rosto, o mesmo jeito, o mesmo corpo. Afinal, devia abrir ou não a porta? E se se tratasse de uma cilada? Um mascarado?

Imaginava mil possibilidades, e o outro postado diante da porta, pensativo, paciente, persistente. Não acionou mais a campainha, porém. Até que Inácio se cansou e voltou ao sofá.

— Ora, não há olho mágico — murmurava, enquanto apanhava do chão o jornal.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing