Matilde assistia, pela televisão, pessoas opinando sobre a redução do consumo de energia e se espantou, quando reconheceu o marido sendo entrevistado pelo repórter. Contrário a todos que diziam da dificuldade em diminuir o consumo, Aristides achava possível e até disse que se todos colaborassem e tivessem espírito cívico conseguiriam ultrapassar os 20%. O repórter instigou e Aristides, inflamado, disse que, com certeza, sua família chegaria aos 50%. Matilde balançou a cabeça e comentou com os filhos que se preparassem porque o aperto seria grande. Relembrou que o marido fora um dos fiscais do Sarney, na época do tabelamento de preços, anotando preço por preço dos produtos; querendo ajudar a buscar os bois no pasto; denunciando e criando inimizades com os comerciantes da vizinhança.
Aristides chegou em casa e todos fizeram de conta que não tinham visto nada para ver se a coisa se esfriava, mas qual nada. Chamou mulher e filhos para a mesa, não sem antes apagar todas as luzes, deixando apenas a da sala. E começou a desfiar o rosário. “Antes que a coisa fique mais grave, vamos nos precaver” e começou a ditar as novas regras: “Banho com o chuveiro no frio.” Zequinha questionou que a informação que se tinha era de que o chuveiro deveria estar no verão, ao que Aristides, com o olhar severo, respondeu que na sua casa seria no frio.
“Passar roupas, Matilde, você pode quando quiser, desde que seja durante o dia. Aqui, está o ferro, o saco de carvão e já encomendei um fole ao marceneiro. Pode encaixotar o micro-ondas, a cafeteira e o ventilador, pois só voltaremos a usá-los depois de dois mil e doze. Televisão, só na hora do jornal.”
Matilde pensou em pedir para que se esticasse até o final da novela, mas desistiu, por pensar que seria um crime contra a pátria. Aristides, depois de enfiar pregos nas paredes, abriu uma caixa, retirou candeeiros e espalhou pelos cômodos. Depois, com paciência, ensinou aos filhos o manuseio.
“Nós estamos mal-acostumados. Se não fosse esse modernismo todo, não teria chegado na situação em que estamos. Máquina de lavar, secador, computador e outras coisas mais, levando ao exagero do consumo de energia. Nós vamos dar o exemplo. E, a partir de agora, começa a vigorar aqui a lei seca. Economia de guerra!”
Soninha tentou avisar que o racionamento era, a partir de junho, enervando Aristides, que achava falta de bom-senso a observação da filha, esbravejou um “Aqui, quem manda sou eu e a coisa começa já. E aquele teu namorado folgado que costuma ficar duas horas no banho, pode avisar que mesmo sendo frio vou controlar o tempo.”
Sandrinha resmungou que o pai cismava com o coitado do Kiko e fez uma cara de choro. Matilde e os filhos já sabiam que iriam sofrer o diabo nos próximos dias e seriam vigiados. Aliás, não só eles, mas também os vizinhos. Seriam brigas e mais brigas, Aristides reclamando e exigindo colaboração de todos no racionamento. Certamente, como da outra vez, faria visitas aos moradores do bairro, num trabalho de conscientização e, depois, de fiscalização.
Matilde suplicou aos filhos que, junto com ela, rezassem para que o presidente da República estivesse virando profeta e a chuva viesse mesmo em setembro.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco.
Fonte:
Laé de Souza. Espiando o Mundo pela Fechadura: crônicas. SP: Ecoarte, 2018.
