segunda-feira, 6 de abril de 2026

Asas da Poesia * 172 *


Poema de
A. M. A. SARDENBERGER
Antonio Manoel Abreu Sardenberg
São Fidélis/RJ

Travessia

Peguei o rumo da estrada
Marcando firme o compasso
E fui buscar meu espaço
No romper da madrugada.

Atravessei as cancelas,
Saltei valas e valões,
Abri portas e janelas,
Penetrei pelas favelas,
Andei muitos quarteirões.

Busquei fé e esperança,
Dividi o pão que tinha,
Rezei muitas ladainhas,
Pedi a DEUS proteção…
Dei o abraço apertado
No meu tão sofrido irmão!

Passei fome, senti sede,
Pisei em pedras e espinhos,
Nunca fugi dos caminhos
Que pela vida encontrei
Pois quem foge é covarde
E eu nunca me acovardei.

Fui em busca de um amor,
Movido pela paixão.
Machuquei meu coração,
Que tanto tinha pra dar,
Mas fingi não sentir dor
Conjugando o verbo amar.
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

O vento está dormindo na calçada
(Mário Quintana in "A rua dos Cataventos", p. 20)

“O vento está dormindo na calçada”
A tempestade o pôs fora de portas
Já ia alta a noite, a horas mortas
Quando ele entrou no lar de madrugada.

Andou a perseguir uma noitada
Que se agitava amena, em curvas tortas
Pelos campos lavrados, junto às hortas
E nela se enredou, noite fechada.

Não foi, de modo algum, um caso sério
Somente as aparências de adultério
Que agora paga, exposto ao pó da rua.

Em casa todos dormem sem cuidados
Só os raios do luar, sempre acordados
O cobrem com a luz que vem da lua.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Acabou

Fim de romance... nossa despedida.
E os teus olhos nada revelaram...
Nem sequer um instante vacilaram,
Na hora triste da cruel partida!

Chaga imensa se abriu em minha vida
Desde o instante em que se afastaram
Nossas almas que sempre caminharam
Juntas, unidas, numa mesma lida.

Apartaram-se. Fim do nosso amor
... melhor assim...
Sigamos, pois, esse destino enfim,
Sem queixa, lamúria, ou rancor,

Saiba, tudo farei para um dia esquecer
... sem sofrer...
Mas... Não! O que estou a dizer?!
Oh! Não te vás! Não me deixe, meu amor!...
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Quadra do Folclore Português

Todo homem que arrasta asa
à mulher deste ou daquele
merece, perto de casa,
outro homem igual a ele.
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Soneto de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Cansaço

No cansaço da noite, entre os cansaços, 
tive um sonho esquisito e diferente,
pois, sonhei abraçado noutros braços,
entre os braços da noite, descontente.

Ante um sonho, outro sonho e, de repente,
eu me sinto algemado noutros laços,
como quem segue a vida loucamente,
controlando as pegadas de outros passos...

E, eu sonhando e sonhando pouco a pouco,
fui ficando no sonho quase louco
nessa louca paixão que não passou...

Se os teus beijos, neguei sem ter ressábios,
quero agora, pagá-los noutros lábios
esses beijos que a vida me negou!
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Na banda surrealista
havia um som com falsete;
o bebum clarinetista
pôs pinga no clarinete.
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Idílio de
BOCAGE
(Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage)
Setúbal/Portugal (1765 – 1805) Lisboa/Portugal

Poema dedicado à saudade pelas belezas naturais da cidade ática de Filena

Que terna, que saudosa cantilena 
Ao som da lira Melibeu soltava 
O pastor Melibeu, que por Filena, 
Pela branca Filena em vão chorava! 

Inda me fere o peito aguda pena, 
Quando recordo os ais que o triste dava, 
O pranto que vertia, amargo e justo 
A sombra que ali faz aquele arbusto.
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Idílio, termo de origem grega para uma pequena composição poética de inspiração pastoril, geralmente tratando de assuntos amorosos, religiosos ou utópicos. O lirismo destas composições é marcado pela forte afetação do discurso, repleto de confidências e pensamentos íntimos. 
O primeiro grande cultor deste tipo de poesia foi Teócrito, que nos legou Idílios, mas o modelo clássico mais copiado é sem dúvida o de Virgílio e as suas Bucólicas. Na poesia de Virgílio, o termo reservado para definir este tipo de composição é o de écloga, o que levou a confundir os dois gêneros, bastante semelhantes no tratamento temático, mas diferentes na extensão: o idílio tende a ser mais breve e de versos mais curtos. 
A partir do século XVII e até ao Romantismo, registram-se nas literaturas de expressão portuguesa e castelhana variadíssimos exemplos, que concorrem com inúmeras imitações de Teócrito e Virgílio. Bocage foi um dos cultores portugueses mais encantados pela forma clássica do idílio, escrevendo composições de temas marítimo, pescatório e pastoril. 
O cenário de um idílio obriga à idealização da vida campestre e ao elogio permanente dos seus atributos. O ideal de vida campestre assegura uma paz de espírito e uma serenidade de comportamento que muitos poetas não resistem a cantar, criando cenários mágicos e recorrendo a uma retórica recheada de figuras de pensamento e de linguagem.     (Carlos Ceia. e-Dicionário de Termos Literários)  
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Jaz o ancião na cascata!...
Seu anjo, que é seu abrigo,
já velho e com catarata,
não viu a placa "PERIGO"!
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Soneto de
LAÉRCIO BORSATTO
Poços de Caldas/MG

A Esperança

Como um cisne a nadar por sobre o lago,
Vejo-te quando friso as águas cristalinas.
Por entre as flores, num espaço vago,
Dando inveja às palmeiras das campinas.
 
Vejo duas pombas, que num doce afago,
No galho balançam quais as bailarinas...
Toca em meu coração o anseio que trago
Que tu desconheces e nem imaginas.

Mas confessar-te eu jamais poderia,
Se nunca me olhas, como ousaria,
Falar de amor a quem só me ignora?

Contento-me a contemplar tua face...
Um dia morre logo outro dia renasce...
A esperança há de voltar com a aurora.
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Os meus momentos felizes,
logo o vento os dissipou...
Trago, porém, cicatrizes,
que nem o tempo apagou.
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Poema de
MARCELO RICARDO
Rio de Janeiro/RJ

Seria loucura pura 
Dar apenas razão 
Ao próprio poder

De pensar? Pensar estar certo 
O tempo todo é colocar
Sempre a mesma capa. Ser
Ou não ser termina soando 
Como uma coisa a perecer.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Do conquistador, a lábia,
terminou em um relance,
quando a moça, muito sábia
exigiu casto romance...
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Soneto de
ALINE BRITTO SOARES
Rio de Janeiro/RJ

Cântico do nordeste

Já não ouvem as palmas dos coqueiros
doces palavras vindas de além-mar;
não lhes sussurram cânticos brejeiros
trêfegos ventos vindos de ultramar.

Onde andarão os vendavais arteiros
que suas folhas vinham estalar,
pelas noites sem fim, dias inteiros,
nuvens de areia levantando ao ar?

Já outras nuvens que, rolando ao léu,
bailavam, céleres, no azul do céu,
não sombreiam os belos coqueirais.

O árido solo de cuidados urge.
Torna-se agreste a cada sol que surge.
Secam-se os rios nos mananciais!
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Indriso de
SÔNIA DE FÁTIMA MACHADO SILVA
Coromandel/MG

Tardes de abril
 
 Escancaro a janela ...  sinto o ar ainda morno
filtrado pela brisa já quase despida de sol
a soprar as leves folhas amarelas...
 
Meu pensamento rodopia ao longo da rua
misturado às folhas e saudades
sob um  ocaso luminoso e outonal...
 
Dançam as folhas dos arvoredos...
 
Recolho-me às minhas lembranças…
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Trova de
BELMIRO BRAGA 
Vargem Grande/MG, 1872 – 1937, Juiz de Fora/MG

As almas de muita gente
são como o rio profundo:
- A face tão transparente,
e quanto lodo no fundo!…
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Pantum de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Doa-se um Coração

Doa-se um bom coração...
Muito afoito e destemido!
Já viveu tanta paixão,
apesar de ter sofrido...

Muito afoito e destemido,
um eterno sonhador.
Apesar de ter sofrido
da solidão tem horror.

Um eterno sonhador,
por muitos, manipulado.
Da solidão tem horror;
quer amar e ser amado.

Por muitos, manipulado
mas ainda em condição...
Quer amar e ser amado
... Doa-se um bom coração!
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Braços brancos, amarelos,
ou negros, cor de café,
unidos, são fortes elos
que ao futuro dão mais fé!
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Hino de 
ENGENHEIRO BELTRÃO - PR

I
Qual a estrela que a história ocultasse
Entra as sombras do velho sertão
Eis agora a esplender sua face
Minha terra Engenheiro Beltrão
Há em seu nome crescente homenagem
Ao herói que este chão desbravou
E no seio da agreste paisagem
Uma nova cidade plantou.

Estribilho
Força viva propulsora
Nosso amor palpita em ti
Nessas glebas promissoras
Que embelezam o Ivaí.
Num porvir que já não tarda
Tua marcha alcançará,
As fileiras da vanguarda
Que honram o nosso Paraná.

II
Teu progresso é vibrante mensagem
De trabalho, de amor e de fé.
Que mudou a floresta selvagem
Em perene caudal de café.
Pelas dignas mãos dessa gente
Que o teu alto destino conduz
Qual rosário deslizam sementes
Que germinam searas de luz

Estribilho
Força viva propulsora
Nosso amor palpita em ti
Nessas glebas promissoras
Que embelezam o Ivaí.
Num porvir que já não tarda
Tua marcha alcançará,
As fileiras da vanguarda
Que honram o nosso Paraná.
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Poetrix de
JUSSARA MIDLEJ
Jequié/BA

Palavras

Quedam-se nas linhas.
Nós só precisamos
das entrelinhas.
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Poema de
ANTÓNIO BARAHONA
(António Manuel Baptista Barahona da Fonseca)
Lisboa/Portugal

Naufrágio

Aves mudas
com olhares secretos
para a sede da terra

Na praia
os grãos de areia em moedas
e as ondas
de mãos inquietas

Passos indecisos
na expiação de pedras
atiradas ao mar

De bruços
aos fundos do oceano
eu prisioneiro das redes
no pensamento dos peixes
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O homem e o bosque

Um homem por um bosque um certo dia entrou,
E assim com branda frase às árvores falou:
«Propício o céu vos seja, e nunca o rijo vento,
Nos ares combatendo em furacão violento,
Da rama vos despoje, ou faça baquear
Dos vossos um só tronco». E vendo-as exultar
Com suas expressões, o astuto lisonjeiro
Prossegue: «Oh! tende dó de um triste passageiro
Que de pesada marcha em tal cansaço vem,
Que a força o abandona, em pé mal se sustém.
Dai-me um estéril ramo, a que eu possa encostado
Os passos dirigir». E apenas lhe foi dado,
Com muita prontidão da casca o despojou,
E numa extremidade um ferro lhe ajeitou.
Peita a bipene* assim, o bosque foi cortando;
Com hórrido estampido à terra vem rodando
Piramidal cipreste, o teixo carpidor,
O louro, que coroa o vate, o vencedor:
Rui o frondoso ulmeiro, os choupos alvejantes,
O pinho, o roble, o buxo, o mirto dos amantes:
E todos ao cair, diziam a uma voz:
«Para a desdita nossa os meios demos nós!»

Aquele que armas dá da pátria ao inimigo,
Por suas próprias mãos procura o seu castigo.
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* Bípene = machadinha romana de dois gumes.
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