Contos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites
"Bismillah" (Em nome de Deus), partamos para além das fronteiras.
Havia um homem chamado Ziad, um "musafir" (viajante) incansável. Ele já havia visto as pirâmides do Egito e os jardins suspensos, mas uma pergunta o consumia: "Onde termina o mundo?".
Ele acreditava que, no fim de tudo, encontraria uma muralha de cristal ou o próprio jardim do éden.
Ziad despediu-se de sua família com um "fi amanillah" (fique com a proteção de Deus) e caminhou para o leste. Ele cruzou rios impetuosos e montanhas que tocavam o céu.
Em cada aldeia, perguntava: "Falta muito para o fim?".
Os anciãos sorriam e diziam: "Maktub" (Está escrito), "o fim está onde o coração descansa".
Ziad não entendia. Ele caminhou por quarenta anos. Seus cabelos tornaram-se brancos como a neve e suas sandálias foram trocadas cem vezes. Um dia, exausto, ele chegou à beira de um oceano infinito, onde o sol mergulhava em águas douradas. "Ya Allah" (Ó Deus), gritou ele, "finalmente cheguei ao fim do mundo!"
Ali, ele encontrou um eremita que vivia em uma caverna.
"Shukran" (obrigado) por me receber, disse Ziad, "concluí minha jornada".
O eremita, rindo suavemente, apontou para o mar.
"Vês aquele horizonte? Se navegares até lá, encontrarás outra terra. E se caminhares por essa terra, voltarás exatamente ao lugar de onde partiste. O mundo é um círculo, meu filho. Ele não tem fim, pois a criação de Deus é infinita em sua perfeição."
Ziad caiu de joelhos.
"Alhamdulillah" (louvado seja Deus), murmurou.
Ele percebeu que passara a vida fugindo do "huna" (aqui) para buscar o "Lá", sem notar que a beleza estava em cada grão de areia que pisara. O "fim do mundo" era, na verdade, o momento em que ele parasse de procurar fora o que já possuía dentro: a paz.
Ziad voltou para sua casa, não mais como um buscador, mas como um sábio. Ele ensinou que a vida não é uma linha reta até um abismo, mas uma dança em torno do que é sagrado.
"Shukran" (obrigado) por caminharem comigo nesta narrativa. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, editor de e-books e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).
Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing