Ele acordou, e em frente ao espelho, notou um velho a mirá-lo fixamente. Passado o susto, percebeu que era ele mesmo a olhá-lo.
Sentiu necessidade de desabafar sozinho, e o fez em voz alta.
– Que contraste! Ainda ontem recebi uma fotografia em que eu, criança, brincava com um caminhãozinho de madeira. Estava risonho, inocente e totalmente embevecido pelo brinquedo.
Continuou olhando a imagem no espelho, e ela envelhecida, fitando-o, sem sorrir, e impassível. Ligeiramente irritado, falou:
– Aliás, respondendo a todos os que hoje perguntam-me por que eu não sorrio nas fotos como antes, basta devolver-me o caminhãozinho de madeira, que voltarei a sorrir novamente.
Prosseguiu:
– Também é interessante o fato de poder, nessa idade, falar sozinho, sem que pensem que estou maluco. Senil, podem pensar, mas doido, não.
Emendou outro pensamento:
– Mais um fato marcante é notar que tornei-me um alguém solitário, que fala sozinho, porque nenhum dos amores em minha vida soube sequer igualar o intenso êxtase que eu tive em brincar com meu caminhãozinho de madeira.
A imagem no espelho tentou falar.
– Amigo…
Interrompeu-o bruscamente:
– Espere um pouco. Não creio que você possa chamar-me de amigo, pois acabei de conhecê-lo.
E prosseguiu:
– Na última vez que o vi no espelho, você era mais jovem, com bigode negro e muito sorridente.
A imagem tentou novamente falar:
– Sim, mas…
Aparteou-o outra vez:
– E tem mais, você era otimista, uma outra pessoa, totalmente diferente.
Seguiu falando sozinho:
– E pensar que a simples perspectiva de um dia seguinte, e tudo o que com ele viria, já era motivo, naquela época, de expectativa e otimismo. Hoje, os dias transcorrem exasperantemente idênticos e monótonos.
Lamentando, continuou:
– Ah! Tão efêmera é essa vida, que nem notei a distância entre a brincadeira com o caminhãozinho de madeira e hoje, aqui, olhando você nesse espelho. Tudo foi reduzido a lembranças e fatos esquecidos, sabe-se lá onde.
Permaneceu pensando:
– Tenho muito a agradecer pelo fato de ter envelhecido, isso não posso negar, e poder olhar aquele velho refletido no espelho. Mas muitos amigos foram ficando pelo caminho, impedidos de brincar com os próprios caminhõezinhos, o que causou em mim uma sensação de abandono. Onde estão vocês, meus amigos?
Terminou, solitário, em frente ao espelho, olhando para o alto, quase em uma súplica:
– Devolvam-me o querido caminhãozinho de madeira, eu quero voltar a brincar.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Contos ao Léu – Inimagináveis,“Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.
Fontes:
Texto e imagem do livro: Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis.
Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.
