sábado, 18 de abril de 2026

Renato Benvindo Frata (As madrugadas são desiguais)


Nas madrugadas acontecem espetáculos grotescos de magia. Aqui, ali, lá. Também no meu e no seu quarto. Com truques variados e, claro, cada qual com a concepção própria do artista. 

Todos se dão no escuro, no silêncio do aposento, quando uma das mãos vira lousa e a outra, um giz invisível.

Só o vê quem o manipula. Esse artista insone sou eu, é você. Que, apesar de não sentirmos, às vezes nos pomos a fazer cálculos intrincados de matemática e até de física, para tecer fórmulas.

Usamos expoentes, apêndices, colchetes. Sinal de maior e menor, percentuais nas operações de subtração, multiplicação, divisão. Não há soma: só subtração. Para encontrar, no final, o sinal de desigualdade.

Por que o fazemos? Por várias razões, mas, no mais das vezes, para encontrar uma saída, um esticar, até onde puder, o salário do mês. E quitar, fechando, os furos deixados pelos do mês anterior e do outro.

Confesse que não é assim!

Nesse ambiente do quarto, tornado insalubre em face dos olhos cansados e do sono mais uma vez abalado, ficamos.

Muitas vezes não entendemos, mas, ali do lado, como companhia muda, porém esperta, os olhos vermelhos do despertador, em razão dessa desdita, também lacrimejam. Com pesar.

Parece usar as mesmas lágrimas do artista insone, gastas com rabiscos inúteis nas mãos. Ambos comungam tristeza e insatisfação convertidas em planejamentos que, embora tenham sido bem pensados e argumentados, não serão concretizados.

Para provar, pela física e quaisquer ciências, que por mais rocambolescos que sejam os cálculos, as tentativas de espichar salários feitas nas madrugadas não produzem bons resultados.

Enquanto isso, nos porões palacianos, ternos e togas brindam com mulheres bem-vestidas e perfumadas. E dançam ao arrepio da verdade, na lentidão delirante que o bolero do poder concede.

Para esses não há contrassenso, nem preocupação com o dia que logo irá amanhecer e exigir cumprimento de horário, abastecimento de dispensa, liquidação de pendências financeiras a impedir nosso sono e, com ele, a nossa paz.

Até quando as madrugadas permanecerão tão desiguais?
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing