(tradução do espanhol por José Feldman)
Nascido em Montevidéu, capital do Uruguai, Rodó cresceu em um ambiente intelectual e em uma família que fomentou seu amor pela literatura e pelo pensamento. Desde jovem, foi atraído pelas obras de pensadores de diferentes épocas, especialmente os gregos, leituras que mais tarde se refletiriam no conteúdo de alguns de seus trabalhos.
Em 1900, publicou uma de suas obras fundamentais, "Ariel". Na época, era diretor interino da Biblioteca Nacional. Um ensaio considerado um clássico da literatura latino-americana. Em seu conteúdo, há um apelo à busca de ideais elevados e à formação de um novo homem latino-americano, que transcenda a materialidade e a superficialidade.
Rodó utiliza a figura de Ariel, o espírito da poesia e da beleza, para contrastar com Calibã, que representa a brutalidade e o materialismo. Em Ariel, ele defende a espiritualidade e a cultura, algo que exerceu grande influência por décadas, tornando José Enrique Rodó uma figura de destaque no pensamento idealista latino-americano.
Em Ariel, ele combina os valores do idealismo espiritualista com os princípios do evolucionismo de Herbert Spencer, a lei geral do progresso. Ele explica o desenvolvimento da sociedade e da humanidade, ao mesmo tempo que promove uma consciência superior centrada nos mais elevados valores morais e intelectuais.
Subjacente a isso está uma crítica ao utilitarismo americano, já que o que faltava à cultura americana, segundo Rodó, era inteligência, sentimento e idealismo. Ariel despertou o espírito da consciência latino-americana.
Além de "Ariel", Rodó escreveu outros ensaios importantes, como "O Espírito da Letra" e "A Luta com o Anjo", onde aborda temas como educação, cultura e identidade latino-americana. Seu estilo é poético e reflexivo, imbuído de um profundo senso de estética e beleza.
Sobre a obra de José Enrique Rodó, o escritor e poeta uruguaio Mario Benedetti (Paso de los Toros 1920 – Montevidéu 2009 – Uruguai) afirmou:
“A maior injustiça que se pode cometer em relação a Rodó é não o situar, ao considerar e julgar sua obra, em seu contexto histórico.”
A vida de Rodó foi marcada por seu compromisso com a educação e a cultura. Ele foi um fervoroso defensor da educação laica e do papel da cultura na construção de uma sociedade mais justa e equitativa, algo que teve a oportunidade de defender em diversas ocasiões como membro do parlamento pelo Partido Colorado.
Sua visão era de uma educação integral, humanista e anti-pragmática, que transcendesse a mera instrução utilitarista. Sua proposta inclui formação ética e estética e busca cultivar cidadãos que desenvolvam o pensamento crítico e sejam cultos, não meramente tecnicamente capacitados. Infelizmente, na América Latina atual, a educação é o completo oposto do que esse pensador uruguaio idealizou.
Lembremos que a obra de José Enrique Rodó não foi isenta de críticas. Ele foi acusado de elitismo e de estar alheio às realidades sociais de sua época, de ser um utópico.
Sua abordagem idealista era frequentemente vista como uma forma de escapismo dos problemas concretos enfrentados pela sociedade uruguaia e latino-americana. Apesar disso, seu legado perdura e sua obra continua a inspirar novas gerações de leitores e pensadores nesta região.
Entre suas obras mais importantes estão: "O Novo Romance" (1897), "Ariel" (1900), "Liberalismo e Jacobinismo" (1906), "O Mirante de Próspero" (1913), "A Estrada de Paros" (1918) e "Epistolar" (1921). Rodó é o principal expoente do ensaio literário do Modernismo Hispano-Americano.
Como político e membro do parlamento, opôs-se a regimes oligárquicos, defendeu a democracia e os princípios fundadores e contribuiu com seus ideais para a consolidação da República Oriental do Uruguai. Exaltava o trabalho dos operários, considerando-os a única classe social de verdadeiro valor, pois eram eles que trabalhavam.
A vida e a obra de Rodó são um testemunho da busca por ideais em um mundo em constante transformação. Seu pensamento nos convida a refletir sobre a importância da cultura e da educação na construção da identidade coletiva e na busca por um futuro mais promissor.
Em um momento em que as sociedades enfrentam desafios extremamente complexos, a voz do orador e ensaísta José Enrique Rodó ressoa fortemente, destacando a necessidade de resgatar aqueles valores que transcendem o material e nos conectam com a essência do ser humano. Sua obra é uma luz guia na tempestade de anti-valores em que nos encontramos imersos, conduzindo-nos à busca de uma existência significativa, na qual a beleza e o idealismo são as forças motrizes da mudança e da necessária transformação social. Por seu trabalho incansável e altruísta em prol da juventude, ele é conhecido como "O Mestre da Juventude da América".
José Enrique Rodó faleceu em um hotel em Palermo, Sicília, Itália, em 1º de maio de 1917, vítima de febre tifoide. Coincidentemente, Rodó faleceu na data em que se comemora o Dia do Trabalho. Na época, trabalhava como correspondente da revista argentina Caras y Caretas, viajando por toda a Europa durante a Primeira Guerra Mundial.
Seus restos mortais foram repatriados para o Uruguai em 27 de fevereiro de 1920, com todas as honras fúnebres e um grande cortejo em Montevidéu. Seu túmulo pode ser visitado no Cemitério Central de Montevidéu.
No Parque Rodó, em Montevidéu, encontra-se um belo monumento em sua memória, criado pelo grande escultor uruguaio José Belloni. Esta obra escultórica inclui a figura alada de Ariel, do ensaio mais influente do escritor uruguaio.
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COMPLEMENTO PELO BLOG
"Ariel" (1900) foi escrito em tom de lição para a juventude, utiliza personagens de A Tempestade de Shakespeare. Ariel representa a espiritualidade e a cultura, enquanto Calibã representa o materialismo pragmático. Defende uma identidade cultural latino-americana, criticando a influência norte-americana. Além de Ariel, produziu textos importantes na Revista Nacional de Literatura y Ciencias Sociales. Suas cartas revelam uma rede de influência com intelectuais hispânicos e brasileiros. Rodó defendia um estado focado no desenvolvimento humano, não apenas no lucro ou progresso material.
Trecho de “Ariel”:
“Naquela tarde, o velho e venerado mestre, a quem costumavam chamar de Próspero, em alusão ao sábio mago de *A Tempestade*, de Shakespeare, despedia-se de seus jovens discípulos, após um ano de trabalho, reunindo-os mais uma vez ao seu redor.
Eles já haviam chegado à espaçosa sala de estudos, onde um gosto refinado e austero era evidente em todos os cantos, honrando a nobre presença dos livros, fiéis companheiros de Próspero. Dominando a sala — como o espírito que guiava sua atmosfera serena — estava um requintado bronze representando Ariel, de *A Tempestade*. O mestre costumava sentar-se ao lado desse bronze e, por isso, o chamavam pelo nome do mago a quem o personagem fantástico, retratado pelo escultor, serve e favorece na peça. Talvez, em seus ensinamentos e caráter, houvesse uma razão e um significado mais profundos para o nome.
Ariel, o espírito do ar, representa, no simbolismo da obra de Shakespeare, a parte nobre e alada do espírito. Ariel é o reinado da razão e do sentimento sobre os impulsos básicos da irracionalidade; ele é o entusiasmo generoso, o motivo nobre e altruísta em ação, a espiritualidade da cultura, a vivacidade e a graça da inteligência, o ideal ao qual a seleção humana ascende, retificando no homem superior os vestígios tenazes de Calibã, símbolo da sensualidade e da inaptidão, com o cinzel persistente da vida.
A estátua, uma obra de arte, retratava o espírito etéreo no momento em que, libertado pela magia de Próspero, está prestes a alçar voo para desaparecer num lampejo. Suas asas estão desdobradas; sua túnica leve, que o toque da luz sobre o bronze damasquinado com ouro, é solta e esvoaçante.
Sua testa larga erguida; seus lábios entreabertos num sorriso sereno; tudo na postura de Ariel revelava admiravelmente o início gracioso de seu voo. E, com inspiração divina, a arte que conferira firmeza escultural à sua imagem conseguira preservar nela, simultaneamente, tanto sua aparência seráfica quanto sua leveza ideal.”
O livro pode ser obtido no Projeto Gutemberg (em espanhol), no link
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WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ nasceu em 24 de junho de 1961, em Montevidéu, Uruguai. Desde 1991, reside em Irapuato, Guanajuato, México. Naturalizado cidadão mexicano em 1999. É formado em Jornalismo aplicado às Mídias Sociais pelo Uruguai, possui bacharelado em Sociologia da Educação pelo México, mestrado em Sociologia da Educação pelo México e é doutorando em Pedagogia pelo México.
*Escritor, poeta, ensaísta, pesquisador, jornalista, palestrante e professor universitário. É autor da coluna "Encuentro con Gorosito" (Encontro com Gorosito), que aborda política internacional e temas culturais e é publicada em países das Américas e da Europa. É analista de informação e defesa internacional. Algumas de suas obras literárias e jornalísticas foram traduzidas e publicadas em inglês, russo, japonês, italiano, romeno e português. Ele recebeu prêmios de poesia, ensaio, conto e jornalismo no Uruguai, México, Brasil, Chile, Argentina, Estados Unidos, Espanha, França e Alemanha.
Fonte:
Sumar Literomania nr. 401-402 (04.04.2026)
https://www.litero-mania.com/el-escritor-uruguayo-jose-enrique-rodo/
