segunda-feira, 6 de abril de 2026

Irmãos Grimm (Os dois irmãozinhos)


O irmãozinho tomou a mão de sua irmãzinha e lhe falou assim:

- Desde que mamãe morreu, não tivemos mais uma hora de felicidade; a madrasta nos bate todos os dias e nos trata a pontapés. Como alimento só temos as duras migalhas que sobram do pão, e até o cãozinho embaixo da mesa leva uma vida melhor, pois de vez em quando lhe jogam alguma coisa boa para comer. Que Deus tenha piedade de nós! Se a nossa mãe soubesse disso! Vem, vamos sair daqui e correr mundo.

Caminharam o dia inteiro e, quando começou a chover, disse a irmãzinha:

- É Deus e os nossos corações que choram juntos!

Á noite chegaram a uma grande floresta e, como estivessem cansados de chorar e de tanto caminhar, e ainda por cima com fome, sentaram-se no oco de uma árvore e ali adormeceram.

Na manhã seguinte, ao despertarem, o sol já estava bem alto no céu e seus raios ardentes envolviam a árvore . Queixou-se, então, o irmãozinho:

- Estou com sede, irmãzinha; se soubesse de uma fonte, iria até lá beber. Parece que estou ouvindo um barulhinho de água.

E, levantando-se, pegou a menina pela mão e saíram à procura da fonte. A madrasta malvada, porém, era uma bruxa e percebera que as duas crianças haviam fugido de casa. Disfarçadamente, como fazem as bruxas, saíra atrás delas e enfeitiçara todas as fontes da floresta. 

Quando os dois encontraram um pequeno regato que saltava, alegre, por sobre as pedras, o irmãozinho quis saciar a sede, mas sua maninha ouviu que o regato murmurava:

- Quem bebe da minha água se transforma em tigre!

A menina, então, exclamou:

- Por favor, não bebas, meu irmãozinho; senão te transformarás num tigre e me devorarás.

Embora estivesse com muita sede, o menino obedeceu, dizendo:

- Esperarei até a próxima fonte.

Chegaram ao segundo regato e a garotinha ouviu que também esse falava:

- Quem beber da minha água será um lobo, quem beber da minha água erá um lobo!

Novamente ela pediu:

- Por favor, irmãozinho, não beba; senão te transformarás num lobo e me devorarás.

O garoto não bebeu, mas retrucou:

- Vou esperar até encontrarmos outra fonte; aí, então, beberei , digas o que disseres, pois minha sede é grande demais.

Quando chegam ao terceiro regato, a menina ouviu-o murmurar:

- Quem beber da minha água será um cervo, que beber da minha água será um cervo!

A irmãzinha voltou, de novo, a insistir:

- Peço-te que não bebas, meu irmãozinho; senão te transformarás num pequeno cervo e fugirás de mim.

Mas o menino já se ajoelhara junto à fonte para beber e, quando as primeiras gotas molharam os seus lábios, transformou-se num pequeno cervo.

A garotinha pôs-se a chorar, vendo seu pobre irmão enfeitiçado e o cervinho chorou também, deitado muito triste aos pés dela. Por fim disse a menina:

- Sossega, meu bonito cervo; eu nunca te abandonarei.

E, desatando uma das suas ligas dourada, colocou-a no pescoço do animalzinho; depois colheu alguns juncos e trançou uma corda bem macia. Com ela prendeu, o pequeno cervo e ambos foram andando cada vez mais para o interior da mata.

Andaram por muitas horas e finalmente chegaram a uma pequena casa. A menina espiou para dentro e, como estivesse vazia, pensou: " poderíamos ficar morando aqui.". 

Com folhas secas e musgos, preparou um leito macio para o cervo. Todas as manhãs saía em busca de frutinhas e nozes para si mesma; quanto ao animalzinho, trazia-lhe capim bem tenro e alegrava-se brincando ao seu redor. Quando à noite, cansada, já havia rezado as suas orações, ela deitava a cabeça sobre o dorso do pequenino cervo; era o seu travesseiro e ali adormecia suavemente. Se o menino tivesse conservado a forma humana, seria uma vida maravilhosa aquela!

Assim ficaram por algum tempo, sozinhos no bosque. Um dia, porém, o rei daquele país organizou uma grande caçada, e por toda a floresta ecoou o som das trombetas, o latido dos cães e o grito alegre dos caçadores. O pequenino cervo, ao ouvir tudo aquilo, sentiu uma vontade irresistível de assistir à caçada.

- Irmãzinha, - disse, - deixa-me acompanhar a caçada, não posso mais conter-me.

E tanto pediu, que ela, por fim, o deixou partir.

- Mas à noite terás de estar de volta, - recomendou a menina. - Fecharei a porta por causa desses caçadores. Para que possa reconhecer-te, deverás bater e dizer: " Irmãzinha, deixa-me entrar. " Se não fizeres assim, não abrirei.

O animalzinho saiu correndo e saltando, feliz com a liberdade. O rei e seus caçadores viram-no, porém, e o perseguiram sem que o conseguissem apanhar. Quando pensavam que já iam alcança-lo, ele saltava por cima das moitas e desaparecia. Ao escurecer, regressou à casinha, bateu à porta e disse:

- Irmãzinha,  deixa-me entrar!

A porta foi aberta e, correndo para dentro, o cervo descansou a noite inteira em seu leito macio. 

Na manhã seguinte a caçada recomeçou, e mal ouviu ele o som das trombetas e o "Hô! Hô!" dos caçadores, não teve mais sossego e pediu:

- Irmãzinha, abre a porta que eu quero sair.

A menina atendeu, recomendado:

- Mas presta atenção, à noite deves estar de volta e dizer as palavras que te ensinei.

Assim que o rei e seus homens avistaram, de novo, o cervo do colar  dourado, saíram todos em seu encalço. O animalzinho no entanto, era mais rápido e ágil do que eles, A perseguição durou o dia inteiro e somente ao anoitecer os caçadores o tinham, finalmente, cercado, sendo que um deles o feriu de leve numa das patinhas. Manco, o pequeno cervo só pode escapar andando muito devagarinho. Um dos homens o seguiu até a casinha e ouviu quando ele gritou:

- Irmãzinha, deixa-me entrar!

Viu que lhe abriram a porta e logo a fecharam. Foi ao rei e contou-lhe o que tinha visto e ouvido. E o rei respondeu:

- Amanhã faremos outra caçada!

A irmãzinha assustou-se muito quando viu que seu querido cervo estava ferido. lavou-lhe a pata suja de sangue, colocou ervas na ferida e disse-lhe:

- Vai para o teu leito, querido, até ficares bem bom.

O ferimento, porém, era tão leve que, na manhã seguinte, o animalzinho nada mais sentiu e, ao perceber de novo, lá fora, a alegre caçada, disse à irmã:

- Não resisto, preciso tomar parte.

A irmãzinha, chorando, exclamou:

- Vão matar-te e ficarei sozinha  na floresta, abandonada por todo o mundo! Não posso permitir que saia.

- Então morrerei de tristeza, - respondeu o cervo.- Quando ouço a corneta de caça, fico doido por sair correndo.

Incapaz de resistir àquela súplica, a garotinha abriu a porta, com o coração pesaroso, e logo o cervo se precipitou, alegre, pelo mato a dentro. O rei, ao avistá-lo, disse a seus caçadores.

- Persigam-no até anoitecer, mas que ninguém lhe cause dano.

Assim que o sol desapareceu no horizonte o rei chamou o caçador e lhe falou:

- Mostra-me, agora, a casinha do mato.

Ao encontrar-se diante da porta, bateu e pediu:

- Deixa-me entrar, irmãzinha querida!

Abriu e o rei entrou. À sua frente apareceu uma jovem tão bela como não vira outra igual. Ela assustou-se quando viu um homem, de coroa de ouro na cabeça entrar na casa, mas o rei olhou amavelmente para ela e, estendendo-lhe a mão, disse:

- Queres vir comigo para o meu castelo e ser a minha esposa?

- Sim. - retrucou a jovem, - mas o cervo terá de acompanhar-me; não me separo dele.

- Ficará contigo enquanto viveres e nada lhe faltará. - concordou o rei.

Nisto, o animalzinho entrou correndo e a irmã tornou a prendê-lo com a corda de juncos. A seguir, abandonaram a casinha da floresta.

O rei colocou a linda moça na garupa e partiram para o castelo, onde foi celebrado o casamento com grande pompa. Ela passou então a ser rainha e durante muito tempo viveram felizes. O pequeno cervo era bem tratado e vivia saltando, alegre, pelos jardins do castelo.

Entretanto, a madrasta malvada, que havia sido a causa de terem eles fugido de casa, pensava que a menina fora devorada pelas feras e seu irmão, transformado em cervo, morto pelos caçadores. Quando lhe chegou aos ouvidos que os dois viviam felizes e satisfeitos, seu coração quase arrebentou de inveja não a deixando em paz. Pôs-se a maquinar uma maneira de desgraçá-los! 

A filha dela, que era feia como a noite e tinha um olho só, espicaçava a mãe, dizendo-lhe:

- Eu é que deveria ser rainha.

- Acalma-te!- retrucou a velha. - Quando chegar a hora, saberei o que fazer.

Passado algum tempo, a rainha deu à luz um lindo menino. Como o rei, nesse dia, se afastara para caçar, a velha bruxa tomou a forma da camareira, entrou no quarto da rainha e disse-lhe:

- O banho está preparado e lhe fará bem; venha depressa antes que esfrie.

A filha da bruxa também estava presente e ambas levaram a rainha, ainda debilitada, ao quarto de banho, onde a meteram na banheira. Fecharam a porta e logo fugiram, pois tinham acendido ali um fogaréu dos diabos, que asfixiou a jovem e bela soberana.

Feito isto, a velha pôs uma touca na cabeça da filha e fê-la deitar-se na cama da rainha. Deu-lhe também a forma e o aspecto desta; só não pode restituir o olho que faltava e, para que o rei não lhe notasse o defeito, ordenou que se deitasse sobre o lado dele. À noite, quando o rei voltou da caça e soube que havia nascido um filho, alegrou-se de todo o coração e dirigiu-se ao leito da sua esposa, com o propósito de vê-la. Mas a bruxa apressou-se a dizer-lhe:

- De modo algum! Deixe as cortinas fechadas, que a rainha não suporta a luz e necessita de repouso.

O rei, então, se retirou, ignorando que na cama havia uma falsa rainha.

Mas aconteceu que, à meia-noite, quando todos dormiam, a ama, que velava sozinha junto ao berço, no quarto da criança, viu a porta abrir-se e entrar a rainha verdadeira. Debruçando-se sobre o bercinho, tomou nos braços o recém-nascido e o amamentou; depois ajeitou-lhe o travesseirinho e, feito isso, deitou novamente a criança. Também não esqueceu o pequeno cervo. Foi ao lugar em que estava deitado e lhe acariciou o pelo. Logo depois, saiu do quarto. 

Na manhã seguinte, a ama perguntou aos guardas se tinham visto alguém entrar no castelo durante a noite, mas eles responderam:

- Não, não vimos ninguém.

A cena repetiu-se ainda muitas noites, sem que a rainha fantasma pronunciasse uma só palavra. E, embora a ama sempre a visse, não se animava a contar o que estava acontecendo.

Decorrido algum tempo, a rainha, numa de suas visitas noturnas, quebrou o silêncio e começou a falar:

"Como vai meu filho? Como vai meu cervo? Virei mais duas noites, depois nunca mais."

A ama ouviu tudo quieta, mas, depois que a rainha desapareceu, foi ao rei e lhe contou o que se passara. Este, surpreso, exclamou:

- Meu Deus! Que significa isso? Amanhã de noite ficarei de guarda junto à criança.

Quando anoiteceu foi ao quarto do principezinho e à meia-noite a rainha apareceu e disse:

" Como vai meu filho? Como vai meu cervo?
Vim mais uma vez, depois nunca mais."

O rei, não podendo mais conter-se, exclamou:

- Não pode ser outra, senão minha esposa querida!

Ao que ela respondeu:

- Sim, eu sou a tua esposa.

Naquele mesmo instante, com a graça de Deus, voltou à verdadeira vida. Estava tão forte, rosada e bem disposta como antes. Contou logo ao rei o crime que a bruxa malvada e sua filha haviam cometido contra ela. 

O rei ordenou então que ambas fossem levadas perante um tribunal. Este as condenou à morte. A filha foi conduzida à floresta, onde as feras a estraçalharam, ao passo que a bruxa, condenada à fogueira, teve morte horrível. 

Depois que ela foi reduzida a cinzas, o pequeno cervo, transformando-se de novo, recuperou a forma humana, e o irmãozinho e a irmâzinha viveram juntos e felizes até o fim de seus dias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing