Há poucas semanas, testemunhei um acontecimento que me deixou ao mesmo tempo estarrecido e com medo. Este episódio ocorreu numa cidade do interior de Minas Gerais e se eu não tivesse visto, não teria acreditado.
Tudo começou numa terça-feira. Estava passando as férias na casa de um amigo meu chamado Rodrigo. Uma de suas sobrinhas – a Carol – desfrutava alguns dias em sua casa.
O dia transcorria normalmente. Conversava com Rodrigo sobre os nossos velhos tempos de garotos, quando um barulho nos desviou a atenção. Eram gritos vindos do quarto de Carol. Disso tínhamos certeza. Fomos até lá ver porque ela gritava daquela maneira. Rodrigo imediatamente procurou por Carol. E lá estava ela, encolhida em um canto do quarto chorando. Dos seus olhos escorriam “lágrimas de sangue”. Olhei para aquilo estarrecido. Ela parecia estar em transe e da sua boca saíam palavras sem sentido. O meu amigo virou-se para ela e perguntou-lhe:
- O que está acontecendo?
E ela lhe respondeu:
- Não saia hoje à noite de carro. Vejo... dor... sofrimento e... morte. Um caminhão vindo em sua direção.
- Do que você está falando?
- Só... evite... sair hoje.
- Mas tenho um compromisso hoje à noite.
- Tio... Por favor, não vá!
De repente, seus olhos se fecharam e ela voltou a si. Perguntou a ele o que havia acontecido e ele lhe disse que ela havia desmaiado. Notei um certo temor em seus olhos. Queria entender melhor aquele fato ocorrido, mas não conseguia. Rodrigo me chamou e disse:
- Quero levar a Carol no médico. Vou levá-la amanhã de manhã. Não sei o que há com ela. Alguém nesta maldita cidade tem de saber o que é que ela tem. Como é que não descobrem nada?
- Peraí... você está querendo me dizer que isto já aconteceu antes? O que houve?
- Desculpe, mas tenho que me arrumar. Marquei uma reunião hoje para fechar acordo com uma empresa. Se der certo, começarei a vender os produtos através dela. Conversamos sobre isso amanhã.
- Espere um minuto. Você não pode ir. Sua sobrinha disse...
- Ah! Você não vai dar ouvidos ao que uma criança de seis anos diz quando desmaia, não é?
- Mas...
- Chega! Amanhã conversamos melhor. Se quiser, há uma lasanha na geladeira. Até logo!
E algumas horas depois, a polícia local telefonava para a casa de Rodrigo contando sobre um terrível acidente com ele. Um caminhão desgovernado batera de frente com seu carro. Infelizmente, ele ficara preso nas engrenagens e morrera em instantes. Fiquei boquiaberto com aquela notícia. Um frio na minha espinha invadia meu corpo e minha mente divagava em perguntas.
Andei até Carol e tentei contar-lhe o que acabara de ocorrer. Falei que o seu tio agora estava com “papai do céu”. Ela chorou e me abraçou. Senti-me naquele momento, impotente diante daquela situação. Pensei por alguns minutos e decidi ligar para seus pais. Procurei em uma agenda pelo telefone e logo a encontrei. Disquei os três primeiros dígitos e tive que interromper a ligação. Novamente, Carol agonizava em prantos e seus olhos se enchiam de “lágrimas de sangue” mais uma vez. Tentei confortá-la naquele momento, mas com um empurrão, ela me afastou. Foi então, que de novo voltou a falar daquela maneira tão estranha e irreal:
- Saia daqui agora. Não... fique... nem... mais um minuto. Vá... enquanto... é tempo.
- Mas o que está acontecendo? O que você vê? Diga-me o que você vê.
Inesperadamente, a porta da sala foi arrebentada a pontapés e vários homens vestidos de preto penetraram por ela. Carol me abraçava novamente e pedia para que eu corresse. Corri em disparada com Carol agarrada a meus braços. Entretanto, os invasores mandaram que eu não me mexesse. Decidi não obedecer e continuei a correr. Eis que uma bala parou minha trajetória e me fez cair. Tentava erguer-me, embora não conseguisse. Um deles virou-se para mim e disse:
- Não se meta nisso. Só queremos levar a garota conosco.
- Mas quem são vocês e o que querem?
- Se falarmos, teremos que matá-lo.
- Vocês não vão levá-la.
Os outros corpulentos sujeitos juntaram-se a ele e olharam para mim sarcasticamente. Aproveitei um minuto de distração e fugi com a garota. Peguei meu carro e sai em disparada. Eles tentaram me alcançar, mas felizmente não conseguiram. Por sorte, ganhava alguns minutos de vantagem.
Assim, teria algum tempo para pensar. Carol olhava-me comovida e chorava. Tentava perguntar-lhe se ela conseguia se lembrar de algo; ela não se lembrava. Não sabia para onde ia e nem de quem fugia. Tinha que buscar ajuda e rápido.
Uns instantes depois, eles já estavam atrás de mim. Tentaram a qualquer custo me fazer parar. Foi então, que num movimento brusco, joguei meu carro para o lado e o carro deles perdeu o controle, batendo contra uma árvore. Parei o automóvel e pude ver que estavam inconscientes ou mortos. Necessitava ir até lá para descobrir quem eles eram e o que queriam. Dei alguns passos e fiquei de frente para o carro. Peguei o documento de um deles e então, tudo o que havia surgido até aqui parecia ter mais nexo. Eles eram de uma agência governamental que estudavam casos paranormais e provavelmente, queriam a garota para futuras análises.
No dia seguinte, fui até a empresa que produzia um jornal local e decidi falar sobre a garota. Logo, consegui alcance nacional e a história virou capa dos principais jornais do Brasil.
Levei a garota até seus pais e me despedi dela. Mais uma vez, teve um surto daqueles. E, apenas me disse para ir ao médico e chorou.
Voltei para minha cidade e logo que cheguei lá, liguei para meu médico e pedi um check-up. Descobri que tinha um tumor no cérebro que não podia ser operado e que meu tempo de vida era curto.
Lembro-me constantemente do que aconteceu e fico feliz por Carol estar bem com seus pais. Quanto a mim, vou aproveitar os dias que me restam até ver o meu último pôr-do-sol.
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GASTON LEONARDO STEFANI (33), é natural de Maringá/PR. Escritor de contos, crônicas e poemas. Suas publicações frequentemente exploram temas fantásticos e reflexivos sobre a vida e o universo. Participou de diversas antologias, recebeu menções honrosas e prêmios em concursos literários. Principais Livros são Portal das Sombras: Histórias Fantásticas: Uma coletânea focada no gênero de contos fantásticos; 50 (Gas)tons de Poesia: Lançado em 2018, focado em versos poéticos; Rascunhando sobre a Vida nas Entranhas do Universo: Obra que combina reflexões existenciais e poéticas.
Fontes:
Gaston Leonardo Stefani. Contos fantásticos. e-book.
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