sexta-feira, 10 de abril de 2026

José Feldman (A Identidade Perdida)


Local: Uma Universidade, Sala 203.

Aula: Literatura Inglesa.

Hora: 19h00.

A sala 203 fervilhava com uma energia caótica que, de certa forma, espelhava a peça em discussão: "A Comédia dos Erros", de Shakespeare. O ar estava pesado, não apenas pelo calor que teimava em entrar pelas janelas fechadas, mas pela confusão gerada por dois pares de gêmeos idênticos separados ao nascer.

A professora Léia abriu o livro com um sorriso malicioso. Hoje o clima era de puro caos.
 
— Muito bem, turma. Hoje vamos analisar A Comédia dos Erros, considerada a peça mais curta e... caótica de Shakespeare. Quem aqui já leu e pode resumir a trama sem ficar tonto?
 
A turma se entreolhou. O Juninho, que já tinha chegado com uma latinha de refrigerante escondida na mochila, levantou a mão na hora.
 
— Professora, eu posso! Resumindo: é uma bagunça generalizada baseada em DNA!

— Como assim, DNA, Juninho? — perguntou a professora, ajustando os óculos.

— Tipo assim: tem dois irmãos gêmeos idênticos, chamados Antífolo de Éfeso e Antífolo de Siracusa. E para piorar, cada um tem um servo que também são gêmeos idênticos, chamados Dromio. Ou seja, temos dois Antífolos e dois Dromios. Todo mundo igual, todo mundo com a mesma roupa, mesma cara. É o pesadelo de quem tem problema de rosto!

— Eu acho que o Dromio de Siracusa deveria ter batido mais forte no Dromio de Éfeso - declarou Clara, uma estudante com uma energia que parecia prestes a incendiar a sala. – Se alguém me confundisse com um ladrão e me batesse, eu não ia ficar só reclamando, ia revidar!

— Mas, Clara, o ponto é justamente a confusão! - argumentou Léo, o eterno cético do grupo, que parecia ter nascido com uma sobrancelha arqueada. – Se eles começassem a se bater de volta, a peça acabaria em cinco minutos. O humor vem da exasperação, da total falta de lógica que a situação impõe.

A professora, com seu habitual ar de quem viu tudo (e provavelmente já escreveu um artigo sobre isso), ajustou os óculos. – Léo está certo. A genialidade de Shakespeare aqui reside na exploração do absurdo. A identidade, a percepção, a realidade... tudo se desintegra quando você tem duas pessoas idênticas em locais diferentes, vivendo vidas paralelas, mas interligadas pelo acaso. E excelente síntese, Juninho. É exatamente isso. Uma comédia de equívocos baseada na semelhança física.

A Márcia, já com as canetas coloridas na mão, interveio:
 
— Na minha análise, professora, a peça questiona a própria identidade. Veja bem: quando todos confundem o Antífolo A com o Antífolo B, ele começa a questionar sua própria sanidade. Ele pensa que enlouqueceu! É uma crítica filosófica: "Eu sou quem eu penso que sou, ou sou o que os outros veem?"
 
— Que viagem, Márcia! — disse o Pedro — Mas vamos para a realidade. Imagina o stress: o cara chega na cidade, a mulher do irmão dele vem e abraça ele chamando de marido, leva ele para jantar, dá presentes... e ele pensando "meu Deus, eu namoro sério ou eu sou farra mesmo?"

— E o melhor — gritou a Bia do fundo — É que o Antífolo de Éfeso estava casado, né? Aí ele chega em casa, a porta está trancada, a família está dentro jantando com o outro ele! Ele bate na porta, grita, e o pessoal de dentro fala "mas como assim? Você já está aqui dentro!" Ele ficou louco da vida, né? Imagine a frustração! "Eu sou eu! Abra a porta!" E eles: "Não, você não é você, o você está aqui!"
 
— Isso é coisa de filme de terror psicológico! — riu o Zé — Eu ia chamar o exorcista na hora. Ou ia achar que estava drogado.
 
A professora aproveitou o gancho:
 
— E sobre os servos, os Dromios? O que acham da relação deles com os patrões?
 
O Zé se animou:
 
— Ah, esses dois são sofredores! Os patrões vivem mandando eles fazer coisa, brigando com eles, e os coitados só tentam sobreviver. Tem uma hora que o Dromio fala sobre uma cozinheira gorda que quer casar com ele, e ele diz que ela é tão grande que ele poderia se perder dentro dela tipo um mapa! Shakespeare tinha humor negro, hein?
 
— E as confusões amorosas? — perguntou a Carol — Tem uma cortesã lá, certo? Ela dá um anel de presente para um Antífolo, e depois vai cobrar do outro. O cara fica "que anel minha filha? Eu nunca te vi na vida!" E ela achando que ele está querendo queimar o filme. É o tipo de situação que termina na delegacia hoje em dia.
 
— Ou no Tinder! — completou Juninho — "Nossa, você é idêntico ao cara que eu saí ontem!" "Mas eu não saí com ninguém!" "Para de mentir, perfil falso!"
 
— A situação chega a um ponto crítico — explicou a professora — onde todos acham que há magia negra, que a cidade está cheia de bruxas e fantasmas. Até que no final, os dois pares de gêmeos se encontram frente a frente.
 
— Aí sim o bicho pegou! — disse Pedro — Imagina a cena: dois caras idênticos olhando um para o outro. "Você é quem?" "Não, você é quem?" E os servos do lado também iguais. Deve ter sido o primeiro encontro de clones da história da literatura!
 
— E a solução? — perguntou Márcia — Eles separam as vidas?

— Basicamente, cada um segue com a sua realidade. O Antífolo que foi confundido fica com a grana e os presentes que ganhou, o outro volta para a sua esposa, e os Dromios... ah, os Dromios decidem que são como duas gotas d'água e vão sair por aí explorando a semelhança.
 
— E a Adriana!- suspirou Sofia, a romântica incurável da turma, que passava mais tempo suspirando pelos personagens do que anotando. – Ela é tão desesperada! Confundir o Antipholus de Siracusa com o marido dela? E ainda por cima, ficar furiosa porque ele não a reconhece? Se meu marido agisse assim, eu chamaria a polícia, ou um exorcista!

— Exatamente! - concordou Clara. – E o Antipholus de Éfeso, o 'marido', coitado. Ele só queria um casaco e acabou sendo expulso de casa, acusado de loucura e traição. Imagina a cena: você chega em casa, sua esposa te acusa de ter um caso com você mesmo, e seu 'servo' te chama de louco. Eu estaria mais perdida que um peixe fora d'água num deserto."

Juninho bateu na mesa, indignado:
 
— Professora, mas uma coisa me incomodou muito nessa história.

— O quê, Juninho?

— Ninguém usava roupa diferente? Não tinha camisa de time? Não tinha corte de cabelo diferente? Tudo igual! Até o nome igual! Que mãe é essa que coloca o nome dos dois filhos de Antífolo? Para quê? Para dar problema na vida adulta?
 
— É justamente o erro cômico, Juninho. A convenção teatral.

— Se fosse hoje, teria solução fácil. Era só pedir o CPF! "Tá, você diz que é Antífolo? Mostra o documento! Vamos ver a data de nascimento!" Acabava a peça em cinco minutos.
 
A turma riu muito. A professora olhou para o quadro e escreveu: Identidade X Aparência.
 
— Muito bem, turma. Enquanto em Sonho de uma Noite de Verão a confusão era causada por magia, aqui é pura genética e má gestão de identidade. A lição que fica é: nunca confie apenas na cara de alguém, e sempre verifique se a pessoa que está te respondendo é realmente a mesma que você mandou fazer o serviço… A peça nos força a questionar o que é real e o que é percebido. Os personagens estão presos em suas próprias realidades, incapazes de ver a verdade óbvia que está bem na frente deles – ou, neste caso, bem ao lado deles.

— Ou pelo menos, o quão facilmente os personagens de Shakespeare podem ser enganados - corrigiu Clara, com um sorriso. – Ainda acho que o Dromio de Siracusa merecia um prêmio por aguentar tudo aquilo.

— E principalmente, professora — concluiu Bia — se você chegar em casa e tiver um outro você jantando a sua janta... corre! Ou pede um pedaço também, porque já que deu tudo errado...
 
— Exato! — disse a professora — Para a próxima aula, quero que vocês pensem: e se vocês tivessem um sósia perfeito aqui na universidade? O que poderia dar errado?
 
— Para mim daria certo, professora! — gritou Juninho — Eu mandava ele vir aqui na aula de Literatura e eu ficava em casa jogando videogame!
 
— Ideia anotada, Juninho. Mas na prova quem vai ter que ir é você mesmo. Aula encerrada!
 
E assim, a turma saiu da Sala 203, cada um olhando para o próprio reflexo na vitrine do corredor, meio desconfiados se eram realmente eles mesmos.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Assina seus escritos por Floresta/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Foi Vice-Presidente da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI). Presidente da Confraria Brasileira de Letras (CBL) e vice-presidente da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (CLBT). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
“Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo; Minhas irmãs de quatro patas (crônicas sobre gatas e cadelas).
Em andamento: "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

Fontes:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing