domingo, 12 de abril de 2026

Humberto de Campos (Represália)


Informado da maldade com que a baronesa de São Bonifácio punira, na véspera, na chácara dos Peixoto Leroux, a tríplice viuvez da sua sobrinha, Mme. Lilita Wilson, o almirante Ribas, tão famoso pela sua malícia irreverente, resolveu tomar uma desforra da linda titular, punindo-a pela perfídia com que se referira à sua encantadora amiguinha de outrora. E o lugar escolhido para a vindita foi a segunda mesa à direita, na Lalet, onde se acharam, frente a frente, ontem, à tarde, entre o desembargador Ataulfo e Me. Carvalho Gondra, a maravilhosa Anfitrite do norte e o velho tritão dos grossos mares do sul.

A palestra decorria brilhante e amável, quando o almirante, encontrando uma oportunidade feliz, observou, rindo, à baronesa:

- É verdade; achei admirável aquela comparação da Lilita com os rios que mudam frequentemente de leito!

- Quem lhe contou isso? - estranhou a baronesa, espantada, recuando o busto soberbo.

- O desembargador Abelardo, que a ouviu dos seus lábios.

- Indiscreto... - sussurrou a fidalga, num muxoxo, retomando a xícara.

O almirante precisava, porém, de uma vingança mais positiva, mais clara, mais ferina, e, sem deixar que a presa fugisse, mudando de assunto, volveu, impiedoso:

- A baronesa sabe, porém, quando é que os rios mudam de leito?

A fidalga encarou-o, franzindo a testa magnifica, e ele, aproveitando o diálogo em que se distraíam os dois companheiros de mesa, fulminou-a, terrível, descendo os olhos pelo vestido significativamente frouxo:

- É quando engrossam... Compreendeu?

E, vendo-a empalidecer, alto, e risonho:

- V. Ex. está se sentindo mal?
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Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fontes:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing