Bendito o sábado em que o marido não tenha que se vestir de “Jack”. E possa gozá-lo como deve ser vivido; com direito a cerveja e picanha na grelha, salada verde e pão da hora, além, é claro, da roda de amigos e samba.
Esse é o verdadeiro sábado. O dia do descarrego, onde as agruras da segunda, terça, quarta e quinta se afogam no copo gelado, mantido entre dedos.
Mas não! Não é assim que acontece. Falo com propriedade e traduzo: “Jack”, na linguagem marital, é o enxugamento da expressão dita com voz fina, melodiosa e sugestiva, logo na manhãzinha:
“Já que você está aqui”, preciso que faça isso, mais isso, mais aquilo...” Aproveite o sábado para fazer, amanhã teremos missa e passeio com as crianças.
Pronto! Lá se vai a beleza, o descanso e o complemento que ele concebe. Para nos transformar em tudo que termine em “eiro, ista, dor”, como pedreiro, marceneiro, carpinteiro, jardineiro, costureiro, telhadista, encanador, eletricista, arrumador, e aí vai até o apagar das luzes.
Para sobrar um domingo minguado e repleto de dores nas mãos, nas costas, nas pernas, e uma vontade louca de dizer palavrão. Ô raiva!
Quem duvida que se case – e experimente os sábados encompridados, vestidos de “Jack!”
Essas tarefas não são distintas, mas que deveriam ter sido realizadas por quem, habilitado, cobrasse para fazê-las durante a semana: os profissionais do ramo. Mas não. A lembrança de que tal coisa merece reparo, só se acontece aos sábados.
Ou só se deixa para comunicá-los nesse dia, para quebrar o encanto que o sábado tem.
Dessa forma, a despeito dos demais dias da semana que são gastos com a profissão, o sábado vira o dia dos consertos caseiros, como trocar um cabo de panela, ou arrancar com os dedos de unhas limpas a tiririca teimosa, em meio aos rejuntes da calçada.
Pode, isso? Poder, não pode. Não pode e não deve, mas acontece. Comigo, conosco. Os homens que se vestem de Jack nos sábados.
Para esse sábado, porém, que não estava de Jack – uma coisa boa, uma coisa ótima aconteceu:
Passei os olhos numa propaganda de loja de vinhos e vi, deslumbrado, garrafas de rótulos chamativos, desses que só de olhar dão água na boca. E saí sem nada dizer.
Hoje à noite, quando as crianças forem dormir, ah! – tenho em mente – abrirei uma delas, ou duas, com direito a quadradinhos de um queijo de cura longa que também comprei.
Então, com as mãos hábeis e ligeiras do faz-tudo das tarefas de sábado que sou, brindarei com ela os momentos de folguedos a dois. E o “Jack” que espere o próximo sábado.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs: Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.
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Imagem e Texto enviados pelo autor.
