sábado, 25 de abril de 2026

Gabrielle Freitas (Reinícios)

Imagem criada com Microsoft Bing

A primavera é tempo de reinícios. Assim como o ano novo. E o Natal, para os cristãos. E o pós-carnaval, para os brasileiros. E as segundas-feiras, para os adeptos das dietas inconstantes. A vida e os anos têm muitos desses marcos simbólicos de renovação, de energia, de esperança, de mudança. São em sua maioria ciclos com movimentos quase cronometrados, um ritual que envolve três movimentos básicos. Ou pelo menos é assim que costuma parecer para mim.

Primeiramente, enfadada, desgastada ou desgostosa com algo em minha vida, crio na minha cabeça uma resposta para minhas aflições. O primeiro momento em um ciclo de renovação antecede seu marco e é composto de desejo por mudança, planejamento fantasiado, espera aflita, imaginação fértil e nenhuma experiência.

Existe um momento para a experiência, mas este deve ser aguardado. "Começo esse projeto na segunda", "ano que vem vou passar a escrever todos os dias", "depois do carnaval, eu descubro o que vou fazer". Adiar um início é parte essencial do ritual. Adio o primeiro passo até que chegue o marco que vai mudar um aspecto essencial da vida como mágica. E ele chega, o marco sempre chega. A mudança, às vezes. Este é o segundo momento, a virada do ano, o fim do carnaval, o equinócio de primavera. Aquilo que foi adiado deve ser realizado, executado com a mesma perícia de alguém experiente. Foram incontáveis as vezes que subestimei a força dos meus hábitos e superestimei a minha, careci de planejamento ou de consistência. Olhei para os lados e só vi pessoas que tinham chegado lá mesmo quando o "lá" delas era tão diferente do meu.

O terceiro momento é o da desistência, seja esta parcial ou completa. O primeiro caso é o mais comum. Se não consegui começar a meta de ano novo ou mantê-la basta transferi-la para ano que vem. Já a desistência completa é o abandono da meta e costuma ocorrer após muitas desistências parciais da mesma meta. Depois de adiar um início por vezes suficientes, o sentido de reagendá-lo se perde.

Faz pouco tempo que decidi que o erro não está no final, na desistência completa, ou no início, na invenção de uma resposta para minhas aflições. Quando sempre é tempo de esperar pelo momento de um início, nunca é momento de começar coisa alguma. O erro talvez esteja em imaginar que preciso esperar por um marco para iniciar uma mudança.

A primavera do ano passado trouxe consigo uma promessa de renovação e como tantas outras não trouxe nada além da promessa. Esse ano comecei a mudança no inverno.
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GABRIELLE CLARA é natural de São Gonçalo/RJ, e pedagoga formada pela Faculdade de Educação da UERJ. Já apresentou suas poesias em sarau, evento de slam e congresso acadêmico. Depois de se aventurar no ambiente acadêmico, decidiu revisitar aspirações passadas e atualmente participa do Curso Online de Formação de Escritores.

Fonte:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Publicado em 15 de setembro de 2025 pela Editora Metamorfose https://www.escritacriativa.com.br/cronicasdeprimavera