Bonita, para alguns. Simpática, gentil, generosa, para muitos. Seus olhos, porém, todos cortejavam. Os belos olhos de Sônia.
Aos vinte e poucos anos, descobriram-lhe mais um atributo: azarenta. Sim, só podia ser azar aquilo. Muito caiporismo. Ora, ninguém é atropelado três vezes em menos de um mês.
Muita sorte a dela, diziam os médicos. Escapar com vida de três atropelamentos! A maioria morre da primeira vez. Uns poucos chegam à segunda. Por milagre!
Sônia se dizia sempre atenta ao trânsito de veículos. Nunca atravessava rua sem antes ter certeza de não correr perigo.
— Não existe mais certeza, minha filha.
— Todos corremos perigo, até quando dormimos.
Além de prudente, Sônia se mostrava ágil. Como nos tempos de ginasta. Quando adolescente, nadava, praticava esportes, ganhava medalhas.
O primeiro acidente causou-lhe apenas escoriações leves. O carro surgiu de repente. Parecia encantamento. Um descuido, e quase perde a vida. Se não fosse tão ligeira...
Uma semana após este pequeno incidente acabou num hospital. Um braço quebrado, ferimentos da cabeça aos pés, dores de toda ordem.
Não durou muito, aconteceu o terceiro acidente. Salvou-a a grama aonde foi lançada. Por pouco não teve o crânio rachado e a bacia espatifada.
Nem quando viu um homem morrer baleado, Sônia não suspeitou de estar sendo perseguida. Não havia motivos para perseguições. Não tinha inimigos, não guardava segredos, não detinha poderes.
A única bala disparada atingiu a cabeça do homem. Pacífico comerciário. Marido doméstico. Paizinho de estimação.
O inquérito policial nunca desvendou o crime. Homicídio imotivado — concluiu.
Sônia e o homem trocaram ainda duas palavras. Ele perguntou a hora. Ela olhou para ele e respondeu. A seguir, ele deu um grito agudo e tombou.
Sônia ainda não morreu. Uns a chamam de azarenta. Outros dizem-na cheia de sorte. Na verdade, ela não mais trabalha, quase não sai de casa, protegida dia e noite por parentes e amigos. Diz-se perseguida, ameaçada de morte. E poucos dela duvidam. Só os médicos de um banco de olhos.
— Uma louca! — resmunga um deles.
— Que belos olhos! — sussurra outro.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999).
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
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