quarta-feira, 1 de abril de 2026

Álvares de Azevedo (Oceano de Poesias)


ANJOS DO MAR

As ondas são anjos que dormem no mar, 
Que tremem, palpitam, banhados de luz... 
São anjos que dormem, a rir e sonhar 
E em leito d’escuma revolvem-se nus!

E quando de noite vem pálida a lua 
Seus raios incertos tremer, pratear,
E a trança luzente da nuvem flutua, 
As ondas são anjos que dormem no mar!

Que dormem, que sonham – e o vento dos céus 
Vem tépido à noite nos seios beijar!
São meigos anjinhos, são filhos de Deus, 
Que ao fresco se embalam do seio do mar!

E quando nas águas os ventos suspiram, 
São puros fervores de ventos e mar:
São beijos que queimam... e as noites deliram, 
E os pobres anjinhos estão a chorar!

Ai! quando tu sentes dos mares na flor 
Os ventos e vagas gemer, palpitar, 
Por que não consentes, num beijo de amor, 
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?
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DINHEIRO

Oh! argent! Avec toi on est beau,
jeune, adoré; on a considérations, honneurs, qualités, vertus. 
Quand on n’a point d’argent, on est dans la dépendance de toutes choses et de tout le monde.
CHATEAUBRIAND

Sem ele não há cova – quem enterra 
Assim grátis, a Deo? O batizado 
Também custa dinheiro. Quem namora 
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio? 
Demais, as Danaes também o adoram, 
Quem imprime seus versos, quem passeia, 
Quem sobe a Deputado, até Ministro, 
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio, 
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro? 
Fora a canalha de vazios bolsos! 
O mundo é para todos... Certamente 
Assim o disse Deus – mas esse texto 
Explica-se melhor e doutro modo.
Houve um erro de imprensa no Evangelho: 
O mundo é um festim, concordo nisso, 
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
= = = = = = = = = 

NAMORO A CAVALO

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça 
Que rege minha vida malfadada, 
Pôs lá no fim da rua do Catete 
A minha Dulcineia namorada.

Alugo (três mil-réis) por uma tarde 
Um cavalo de trote (que esparrela!) 
Só para erguer meus olhos suspirando 
A minha namorada na janela...

Todo o meu ordenado vai-se em flores 
E em lindas folhas de papel bordado, 
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso, 
Algum verso bonito... mas furtado.

Morro pela menina, junto dela 
Nem ouso suspirar de acanhamento... 
Se ela quisesse eu acabava a história 
Como toda a Comédia – em casamento...

Ontem tinha chovido... Que desgraça! 
Eu ia a trote inglês ardendo em chama, 
Mas lá vai senão quando uma carroça 
Minhas roupas tafuis encheu de lama...

Eu não desanimei. Se Dom Quixote 
No Rossinante erguendo a larga espada 
Nunca voltou de medo, eu, mais valente, 
Fui mesmo sujo ver a namorada...

Mas eis que no passar pelo sobrado, 
Onde habita nas lojas minha bela, 
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela... 

O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada, 
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo 
Com pernas para o ar, sobre a calçada...

Dei ao diabo os namoros. Escovado 
Meu chapéu que sofrera no pagode, 
Dei de pernas corrido e cabisbaixo 
E berrando de raiva como um bode.

Circunstância agravante. A calça inglesa 
Rasgou-se no cair de meio a meio, 
O sangue pelas ventas me corria 
Em paga do amoroso devaneio!…
= = = = = = = = = 

SONETO

Pálida, à luz da lâmpada sombria, 
Sobre o leito de flores reclinada, 
Como a lua por noite embalsamada, 
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria 
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada 
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando... 
Negros olhos as pálpebras abrindo... 
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo! 
Por ti – as noites eu velei chorando, 
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!
= = = = = = = = = 
Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831–1852) foi o maior expoente da segunda geração do Romantismo no Brasil, conhecida como "Mal do Século" ou Ultrarromantismo. Nasceu em São Paulo (SP) em 12 de setembro de 1831 e morreu precocemente aos 20 anos, no Rio de Janeiro (RJ), em 25 de abril de 1852, em decorrência de uma infecção após uma queda de cavalo e um tumor. Ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP). Ele era considerado um aluno brilhante, mas não chegou a concluir o curso devido à sua morte prematura. Poeta, contista e ensaísta. Sua obra é marcada pelo dualismo: oscila entre o sentimentalismo ingênuo e um pessimismo profundo, irônico e macabro. Foi fortemente influenciado por Lord Byron e Shakespeare. Consolidou a estética ultrarromântica no Brasil. Trouxe temas como a morte, a noite, o erotismo platônico e o tédio existencial para o centro da poesia nacional, influenciando gerações de escritores com seu estilo melancólico e sarcástico. Principais Obras (publicadas postumamente) são: Lira dos Vinte Anos (poesia - sua obra mais famosa). Noite na Taverna (contos fantásticos e sombrios). Macário (peça de teatro/drama).

Antonio Cândido (seleção). Melhores poemas de Álvares de Azevedo. SP: Gloval, 2013. Ed. Digital
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