Acordo suada e amarrotada. Mais uma noite sem luz e sem brisa. Outro amanhecer sem teus beijos. Tento avivar o corpo me espreguiçando quase no mesmo momento em que tateio a beirada da cama para levantar. Consigo.
Reparo no vaso de flores murchas que está na mesinha de cabeceira. O cheiro da água turva repleta de folhas é nauseante e conforme os dias se movimentam, ainda não me sinto preparada para dispensar o passado.
Caminho lentamente até o banheiro, abro a torneira pesada e enxaguo com moleza o rosto e pescoço. A toalha, que está suspensa pela etiqueta, ainda tem o preço. Ela continua ali desde que tu foi embora e nem lembro quando. Talvez uma semana, talvez uns quinze dias.
Será que foi ontem?
Levanto a tampa do vaso, sento para urinar e com os cotovelos apoiados nas pernas, revivo o nosso último encontro. Aquele em que recebi o ramalhete de flores de campo. Tão lindas e coloridas. O perfume suave e adocicado das flores de mel e que se misturavam às demais, permanece como um vestígio de que tudo foi tangível.
Eu bem lembro desse dia. Estou de vestido jeans de alças e sandálias de tiras com salto quadrado. Nos cabelos negros e lisos uma tiara perolada e nos lábios um tom roseado. Pego a bolsa de crochê azul que está pendurada no cabide da entrada de casa, destranco a porta e, com as chaves na mão, saio. Desço pelas escadas, cumprimento com um aceno o porteiro e alcanço a rua.
Marcamos no parque, perto da fonte. De onde eu moro até lá não é longe. Caminho apreciando o sol, os canteiros em frente aos prédios recheados de margaridas e o aroma dos sonhos da padaria.
Aproveito cada passo para observar o tanto de folhas que as árvores das calçadas tem em seus galhos nessa época do ano. Inclusive, a quantidade de ninhos de passarinhos. Reflito que quando estamos felizes tudo se torna muito mais poético e livre. Sem amarras e desculpas.
Percorro o trecho da entrada do parque com uma certa inquietação. Apesar de saber que estou dentro do horário combinado, um arrepio percorre a nuca. Esbarro nos galhos de um salgueiro. Com os braços interrompo seus trejeitos e abro uma clareira contínua com as mãos. Enxergo o banco vazio. Aliás, nem tão vazio.
Agarro a bolsa e solto o nó. Vasculho cada pedacinho daquele espaço forrado e sem fecho e me deparo com batom, espelhinho, um passador de cabelos com fios arrebentados, lenço de papel, balas de goma e as chaves da casa. E o celular?
Cadê o celular? Onde está o celular? Em que lugar deixei o celular?
Não adianta mais procurar ou tentar imaginar que encontraria alguma mensagem tua cancelando o compromisso.
Espreito as pessoas próximas caminhando silenciosamente. Somente rostos desconhecidos e em preto e branco. A passos contidos me aproximo e do canto da boca surge um sorriso trêmulo dissipando a curiosidade: um ramalhete de flores atado com laços de palha. Refinado e assustador. Novamente olho nas redondezas. Apenas figuras distorcidas. Trancafio o buquê no meu peito e dentre os diversos pigmentos, um envelope em papel pardo e dentro um cartão:
- Sinto muito, não estou pronto para ti.
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LEINE MARIA LUCHESE é natural de Caxias do Sul. Escritora e artesã brasileira, residente em Porto Alegre Ela participou do curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose. Contribuiu para a antologia de contos "Resgate em Pamplona". Escritos românticos sensuais, contos que retratavam seu estado de espírito ou que lhe faziam transportar para um universo paralelo, onde tudo é possível. De todos os lugares que aventurou escolheu Porto Alegre para morar e formar sua família. É Bacharel em Administração. Integrou a primeira Oficina de Criação Literária da Metamorfose em 2016. Faz parte da Antologia Palavras de Quinta lançado em 2018. Atualmente participa do Curso Extensivo de Escritores, também pela Metamorfose, para explorar os diversos gêneros literários. Produz e comercializa acessórios manuais exclusivos, como colares e brincos feitos com sementes, pedras naturais, pérolas e madeira.
Fontes:
Kethlyn Machado (org.). Crônicas de Primavera. Porto Alegre/RS: Metamorfose, 15 de setembro de 2025.
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