domingo, 12 de abril de 2026

Geraldo Pereira (O Gordo e o Magro)


Tem gente no mundo mais do que interessante, pois que não descuida dos outros, mas não cuida de si mesma! Quando o semelhante, penitente deste mundo de Deus, engorda um pouco - o meu caso agora - é impossível livrar-se dos comentários nascidos de todos os lados. 

Vai pra lá e vem pra cá, ouve, sempre, uma observação nunca cautelosa! A mais simples de todas: “Você engordou!”. Alguns, entretanto, deixam de passar as mãos nas costas do amigo e adotam o alisar da protuberância abdominal - da emergente barriga -, como se o lugar dos afagos e dos carinhos tivesse mudado. 

Poucos são aqueles que fazem como o gazeteiro - Mané do jornal -, há muito desaparecido dessas paragens pombalinas e que voltando a gritar os jornais pelo nome, disse: “Quase não lhe conheço, de tão gordo e bonito!”. Aí, também, já é exagero!

A verdade é que às custas dos acepipes e de outras guloseimas, degustados nas recepções e nas festas que ando frequentando, por conta dos meus deveres do aqui e do agora, os do ofício, o mostrador da balança mudou de número. E, inevitavelmente, mudaram os comentários! 

Ora, sou de outros tempos, pois que nascido e criado nos meados do século, cresci ouvindo a máxima: “Saúde e Gordura!”. Menino novo, naqueles anos, tinha dobras e mais dobras e até participava de concurso nas emissoras de rádio, vencendo o mais rechonchudo. As mulheres, também, eram massudas! Na minha rua, nos idos de sessenta, andavam três irmãs de dotes assim, protundentes e a meninada, de logo, criou o apelido apropriado à época e à mesa: “As Albacoras!”. Não que se desdenhasse das moças, mas pela indiferença à rapaziada do lugar! Vingança, pois!

As madonas de avantajadas formas tinham admiradores certos e uma delas até, posta diante do prédio dos correios, esperando o marido, que fora ali postar uma carta, quase protagoniza uma briga. É que estando o cônjuge do outro lado da rua e encontrando amigo há muito distante, ouviu do velho companheiro a observação definitiva: “Olha pra ali! Vê que mulher!”. É minha esposa, respondeu, sem graça, o interlocutor de ocasião! E quase vão às turras! 

Hoje em dia, pode-se deixar, à vontade, na av. Guararapes ou noutro lugar qualquer, uma gordinha, que seja, sem risco algum de gracejos ou de sedutoras formas de verbais elogios. Ninguém presta mais atenção aos culotes, tão decantados nos meus outroras ou ninguém liga mais para as pernas volumosas, de cujas batatas nasceram tantas das fantasias pueris, naqueles pretéritos!

Contabilizo, na memória dessas sensualidades perdidas, diversas figuras femininas que marcaram época, com essas obesas características! Gente do porte de uma Marinete, que mesmo tendo um busto contido, dentro das proporções das adequações nacionais, avolumava-se daí pra baixo! Aquela mulher não tinha cadeiras, mas poltronas - Isso sim! - e guardava, nos longos e protetores vestidos, pernas tão grossas, que despertavam as tentações todas do mundo. Por essa razão, não podia ir pra casa sozinha, tal o cuidado do amante, que na garupa da lambreta transportava a Vênus do tempo, desfilando desejos nas ruas do Pombal. 

Ainda hoje, nas brumas perdidas, pairam os devaneios e os sonhos, enquanto ela, a musa encantada, cumpre o bailado sagrado da feminilidade. Vez ou outra, nas nuvens dos céus, senta-se no divã de algodão dos deuses e acomoda no colo todos os anjos. Ouve-se, então, o som das trombetas, em louvor à deusa dessas tupiniquins origens. Um ode à beleza das celulites!

Vive-se, entretanto, neste presente da globalização, um tempo diferente, o reinado dos magricelas. Se uma modelo qualquer, esquálida, que seja, desfila na telinha de casa, mostrando os ossos e as saliências, é incluída, de pronto, dentre as belas. Louva-se a caquexia e sobretudo a anorexia, desprezando-se, então, grandeza do paladar! 

Tem gente por ai que não conhece o sabor de uma “Mão de Vaca” ou de uma “Dobradinha com Feijão Branco”, que ignora o “Sarapatel” e a “Galinha de Cabidela”, que dá de ombros se chega à mesa um “Cozido a Brasileira”! Ninguém se arrisca ao caldinho da feijoada, pior o pé de porco, o paio e a charque. 

Em toda farmácia que se preza, de outra parte, há, sempre, uma balança digital, com os números em vermelho bem vivo, determinando sentenças. Se o resultado supera as expectativas, instala-se a depressão e se restringe o prato. Quando há dinheiro sobrando, o socorro está nas clínicas sofisticadas de emagrecimento. É a escravidão das verduras!

Mas, os verdureiros de outrora, que usavam balaios ou empurravam carroças, repletos de cenouras, de xuxu e de alface ou cheios de jerimum, de vagem e de tomate, que na verdade é fruta, se reaparecessem agora, fariam a festa, a feira e a féria, tal a procura nos dias que correm, céleres, como se fossem contados em minutos, apenas! E o homem do miúdo, com o tabuleiro carregado por seu auxiliar, negociando o fígado e a passarinha e entregando o miolo de boi, que garantia a inteligência e o talento de meu pai, na crença da época? Morreria de fome! Bom seria para o vendedor de laranjas, com dois sacos enormes, carregados da cítrica fruta.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  
Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. A medida das saudades. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing