sexta-feira, 3 de abril de 2026

José Feldman (A Praça dos Mal-Entendidos)


Vinícius caminhava pela praça com o ar satisfeito de quem descobriu que aposentadoria é basicamente uma desculpa oficial para observar pombos profissionalmente. Lápis, bloco de notas, jaqueta azul cansada de guerra e um boné torto completavam a obra. Ele escrevia frases como “pombo com alma de diplomata” enquanto os bichos desfilavam.

Bento chegou com o mesmo entusiasmo infantil de sempre, pronto para espalhar cumprimentos, mas carregando — sem saber — uma bagagem de sílabas que às vezes travavam na saída. Vinicius, alvo fácil do vento e meio surdo desde uns anos atrás, também chegava desinformado: não fazia ideia de que o amigo tinha gagueira. E Bento, por sua vez, achava que Vinicius continuava ouvindo como um rádio limpo.

Vinte e cinco anos sem se ver, e o reencontro acontece assim:  uma sombra, um sorriso e a primeira confusão.

— Viiii… — começou Bento.  

Vinícius, que já não distinguia as palavras, ouviu “Li”.  

Sorriu de volta, sem entender nada.

— Quem? — gritou Vinícius, mais alto do que necessário.

Bento assustou-se com o grito. Achou que Vinícius estivesse bravo ou dramático demais. Tentou corrigir:

— B-B-Bento!  

Vinícius entendeu: “Tento!”.  

Respondeu com um gesto amigável, acreditando que Bento dizia estar “tentando lembrar dele”.

— Ah, claro, claro, eu também tento! — disse Vinícius, contente.  

Bento piscou, confuso, mas seguiu em frente.

Ele abriu os braços para um abraço. Vinícius, achando que isso era um aviso de queda iminente, segurou Bento pelos ombros como se o estivesse impedindo de tombar.

— Tá tudo bem! Já te seguro! — disse.  

— E-eu só… ab... ab… abra...  

— A praça é escorregadia mesmo — declarou Vinícius, convicto.  

Bento desistiu e apontou um banco.

Sentaram-se no banco. Bento tentou puxar assunto.

— Sa-bes há qu... há quan...quanto,,,  

Vinícius ouviu: “Rabos? Há quantos…?”.  

Pegou o bloco e anotou: “Assunto: rabos? perguntar depois”.

Bento respirou fundo e tentou de novo:  

— Há quanto tem...  

— Ah! Quando tá bem! — interrompeu Vinícius, triunfante por acreditar ter decifrado algo.  

Bento, achando que havia conseguido finalmente completar a frase, concordou animado.

Fizeram as contas com os dedos. A matemática deles não bateu — por razões evidentes — mas os dois ficaram satisfeitos com conclusões diferentes.

Bento quis lembrar o bar antigo.

— Lembra do b...b...b...

— Bebê? — deduziu Vinícius. — Não, Bento, nunca tive um bebê.  

— N-n-não! O b...b...bar!  

— Ah, sim, o mar! Claro que lembro, fomos na praia, não?  

— B...B... bar!  

— Mar?  

— Bar!  

— Mar?  

Desistiram com um aperto de mão.

Quando Bento contou da sua gata:  

— Ela dá… c...c...c…  

Vinícius entendeu: “Tá com o quê?”.  

E imediatamente lhe ofereceu uma balinha de vitamina C achando que ele estava gripado.  

Bento, achando que era um presente, aceitou a balinha e guardou no bolso, decidido a come-la depois.

O auge da confusão ocorreu quando Bento anunciou, teatral:

— Pre...pre...pre...sente!  

Vinícius saltou do banco:  

— Você está com pressa? Quer que eu chame alguém?  

— Não! É um presente!  

— Pressão?  

— Pre...sen...te!  

— Pressão alta?  

— PRESENTE!!!  

— Ah! Você quer que eu me apresente! Meu nome é Vinícius, prazer novamente!  

Bento suspirou, derrotado, e apenas entregou o chaveiro do mini-ukulelê.  

Vinícius ficou emocionado, acreditando que Bento dizia que ele tinha “cara de quem precisa tocar mais música”.

Num momento de emoção, Bento tentou confessar sua ansiedade:

— Às ve...ve...ve... às vezes me sinto... o le...  len... ço...

Vinícius ouviu: “Às vezes eu sinto quê? O Preço?”.  

Anotou: “Conversar sobre inflação depois.”

Mas Bento usou gestos, e Vinícius, mesmo surdo, entendeu ao olhar.  O mal-entendido sumiu; o afeto não precisava de acerto fonético.

No final da tarde, Bento tentou trocar telefone.

— Q... q... quer que eu te... le... le...  

— LED? — perguntou Vinícius, já pescando o celular. — Ah, sim, luz! Você quer luz?  

— Não! Te...le...fone!  – e apontou para o celular.

— Ahhhh! Claro! 9-8-7-6-5-4!  

— Ó... ti... mo! — disse Bento, não tão certo, mas feliz.

A despedida foi uma obra-prima do caos:

— A... a... a...té lo...lo...go!  

— O quê? “Até o jogo”?  

— Até lo... logo!  

— Jogo! Isso, marcamos um jogo!  

E marcaram mesmo — sem querer.

Voltaram a se encontrar nas semanas seguintes:  

Bento levando coisas que Vinícius não tinha pedido,  

Vinícius entendendo metade das frases e inventando a outra metade, e os dois rindo até espantar os pombos — que, sinceramente, já achavam os dois inteiramente loucos.

A amizade seguiu firme, construída não no entendimento, mas na alegria sincera de tentar — e rir do fracasso glorioso de cada tentativa.

Porque, às vezes, o mal-entendido é só outra forma de afeto.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, editor de e-books, copidesque e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing