sexta-feira, 17 de abril de 2026

José Feldman (Entre a Lua e o Vizinho)


Crônica tendo por base a trova abaixo

Hoje é simples ir à Lua:
fica ali… basta um pulinho…
Proeza é cruzar a rua
para abraçar o vizinho.
A. A. DE ASSIS 
Maringá/PR

Esta trova, com a precisão de um bisturi, corta o tecido da nossa modernidade e expõe uma ferida que insistimos em cobrir com telas e fibra ótica. Ela nos lembra que, enquanto expandimos as fronteiras do universo, estamos encolhendo os limites da nossa própria calçada.

Hoje, ir à Lua virou questão de logística e alguns bilhões de dólares. Temos foguetes recicláveis, sondas em Marte e telescópios que flagram o nascimento de galáxias a trilhões de anos-luz. O céu, antes o reino do impossível, tornou-se um destino com check-in e contagem regressiva. O "pulinho" não é apenas ironia; é o retrato de uma humanidade que aprendeu a vencer o vácuo, mas desaprendeu a vencer o asfalto.

A verdadeira proeza, o "salto gigante para a humanidade" que nos falta dar, está a menos de dez metros de distância: na porta da frente do vizinho.

Cruzamos oceanos em horas, mas levamos meses para descobrir o nome de quem mora no 402. Conhecemos a rotina de influenciadores que vivem em fusos horários distantes, sabemos o que comeram no café da manhã e qual a cor de suas novas cortinas, mas ignoramos o luto ou a alegria que habita a casa ao lado. O vizinho tornou-se um fantasma que compartilha o mesmo CEP; um vulto que evitamos no elevador fingindo uma urgência súbita no celular.

Abraçar o vizinho exige uma coragem que a NASA não ensina. Requer a audácia de ser visto sem filtros, de interromper o isolamento produtivo da rotina e de admitir que, sob o mesmo teto ou na mesma rua, somos todos tripulantes de uma mesma solidão. Cruzar a rua é um ato de subversão. É dizer que o aperto de mão real vale mais que o "joinha" virtual.

Talvez o problema seja o foco. Olhamos tanto para as estrelas buscando sinais de vida inteligente que esquecemos de emitir sinais de vida afetuosa para quem está ao alcance da voz. O espaço é silencioso e frio, fácil de mapear. O ser humano, por outro lado, é um território caótico, cheio de relevos e crateras emocionais — e é por isso que o abraço dá tanto medo.

No fim das contas, a tecnologia nos deu asas para tocar a Lua, mas a pressa e o individualismo nos tiraram as pernas para atravessar a rua. Que saudade do tempo em que o mundo era grande e os vizinhos eram próximos. Hoje o mundo é pequeno, mas a calçada... ah, a calçada virou um abismo.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertenço a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Fui Delegado da UBT em Ubiratã, ajudei na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Organizei diversos torneios de trovas, assim como elaborei centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. Possuo 8 livros publicados e 4 em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem: www.freepik.com