Sujeito baixo, com leve desvio na visão, vestido sempre a rigor, não importa onde se encontre. Mesmo nos morros e favelas está ele com sua maneira imponente de se vestir. O apelido foi colocado pelo Maluco Beleza que é exemplar criador de alcunhas. Tem gente que até evita se encontrar com o Maluco Beleza, porque seus apelidos são daqueles que pegam mesmo. Em consideração ao amigo, respeita o original e corrige qualquer engraçadinho e metido a sábio que o chame por Zarolho.
Desde que conheço o Zaroio, suas atividades estão ligadas à criação de crimes. Insuperável idealizador de planos, sempre cheio de encomendas, nunca o vi reclamar de crise. Por questão de ética, não participa da execução de nenhum e guarda segredo absoluto sobre seus mandantes, que são do conhecimento só do assistente Cambito. Orgulha-se dos seus projetos serem sempre de sucesso, exceto aqueles em que os executantes tenham, por conta própria, alterado seus traçados. Sabendo que os executores estão agindo de forma diversa do indicado, abandona o caso, sem dar mais qualquer palpite, deixando o fulano cuidar por seu inteiro risco. Grandes e noticiados crimes de autoria desconhecida passaram pela sua prancheta e seu PC 486 DX4. Crimes bobos e pequenos foram criados para fazer favor a algum amigo ou ajudar algum estelionatário em baixo astral, os quais, geralmente, são produzidos e aplicados no dia a dia.
O caso do Queixada foi encomendado, mas com gente grande no meio, porque o pobre Queixada não tinha grana para bancar sozinho. Para idealizar uma nova igreja, treinar testemunhos e transformar o cabeça dura do Queixada no pastor Genaro foram necessários três anos de exercício e prática, possível só mesmo para o Zaroio. E o plano é para findar em dez anos com lucro alto para todo mundo.
Não o via há mais de três anos. Não é à toa que reclamou do meu sumiço.
É do Zaroio também o plano da “paquera de risco” que foi praticada, em primeira mão, pelo mesmo Queixada, com a Sandrinha. Num shopping qualquer, uma bela se finge de casada e se deixa paquerar por um sujeito acompanhado de sua mulher. Numa chance, passa-lhe o telefone e fica no aguardo da ligação que, geralmente, ocorre. Depois de muita dor de consciência, ela trai pela primeira vez. Um dia, o marido ciumento “descobre” tudo e o galã é obrigado a montar apartamento e manter o status da madame por longo tempo, sob pena de chegar o caso ao conhecimento da família. Por estas e por outras é que, aconselhado pelo Zaroio, se vejo aliança, na mão esquerda, não paquero mulher, principalmente se eu estiver perto da minha.
Com certeza, no lançamento deste livro estará circulando solitário e vestido a rigor, com sua gravata borboleta, bebericando, observando e saindo sem alarde.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =
LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco.
Fonte:
Laé de Souza. Coisas de homem & Coisas de mulher. SP: Ecoarte, 2018.
