sábado, 4 de abril de 2026

Asas da Poesia * 171 *


Poema de
ANTÓNIO BOTTO
Freguesia de Concavada/Concelho de Abrantes (1897 – 1959) Rio de Janeiro/RJ

Anda vem...

Anda vem..., porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha… rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
… Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos! 
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Trova de
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP (1890 – 1969) São Paulo/SP

Tudo muda, tudo passa,
neste mundo de ilusão:
Vai para o céu a fumaça,
fica na terra o carvão.
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Sonetilho de
JORGE DAS NEVES
Rio de Janeiro/RJ

 Sonetilho escrevo,
componho com afinco,
e se errar não devo
no erro ponho trinco.

 Componho com enlevo
em versos de cinco
e jamais me atrevo
com telha de zinco.

 Meu telhado é forte,
tenho muita sorte,
nessa construção.

 Vate tarimbado,
cuido do telhado
e da fundação.
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Trova de
ÉLBEA PRISCILA S. DE SOUZA
Piquete/SP, 1942 – 2023, Caçapava/SP

A escolha do par perfeito,
farei nesta… em qualquer vida,
ao resgatar de outro peito,
minha metade perdida!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Ponto pacífico

Os gritos
ferem os ouvidos
Mas o silêncio,
ao contrário,
Abranda o coração
estraçalhado.
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Trova Popular

Ninguém deve, neste mundo,
de alheias desgraças rir.
Quando o sol troveja, o raio
não faz ponto onde cair...
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Sobre as nuvens

Na lida ingrata e rude do vaquejo,
no carrascal inóspito e ardente,
manda uma prece o pobre sertanejo
a um Deus que há muito lhe parece ausente.

Nos seus olhos vermelhos, o desejo
de que uma chuva, mesmo impersistente,
venha molhar, com dúlcido bafejo,
seu chão gretado de um sol inclemente.

Ao dedilhar simplório do violeiro,
chora a toada monótona o vaqueiro,
na noite sem espera e sem promessa.

E quando sobre as nuvens paira a prece,
quando a esperança já quase fenece…
um raio, o espaço, rútilo, atravessa.
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Na lousa de um tempo ausente:
silêncio!... as letras a giz
pairam no olhar de um docente…
discente... rindo... feliz.
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Poema de
CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Cidade de Goiás/GO (1889 – 1985) Goiânia/GO

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Na escada, a aposta suicida
dos genros, no arranha-céu:
- Leva, quem perde a corrida,
a sogra... como troféu!
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Soneto de
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ

Aurora Desbotada

Desperta a aurora fria e desbotada,
Em mais um dia que precede o fim,
E essa minha alma frágil e tão cansada,
Já não suporta a dor que dói em mim.

A noite avança, rompe a madrugada,
Eu já não sinto o aroma do jasmim
Que andava no meu quarto e na sacada
E perfumava todo o meu jardim.

Dia morto... noite morta... tudo é nada...
Viver só por viver não me consola
Se a aurora só é bela colorida.

Sinto que irei sem ti nessa jornada,
E a suportar a angústia que me assola,
Prefiro não viver - isso não é vida!
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Poema de
CARLA BUENO OLIVEIRA
São Paulo/SP

Encontrei você

Imenso em mim
todo esse amor
sempre irei enaltecer.

A porção minha que faltava
outra metade de mim encontrei
amor verdadeiro a cada amanhecer.
Felicidade estar sempre com você
privilégio somente a você pertencer.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Ah! Meu amor, quem me dera
voltar ao nosso cantinho.
Tão pequeno que ele era...
cabia tanto carinho!
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Soneto de
RUBÊNIO MARCELO
Campo Grande/MS

A cruz de um adeus

Já é madrugada. Eu estou pela rua…
Na trilha dourada dos olhos da lua.
No meu desvario, na minha tristeza,
Ainda aprecio os dons da Natureza.

E assim, sem destino, tal qual vagalumes,
Aos entes sagrados faço queixumes.
Ao longe, o clarão dos astros em prumo…
E o meu coração errante, sem rumo.

A brisa vadia soprando com jeito…
E uma agonia tomando meu peito.
Estrelas cadentes brincando no céu…

E eu, decadente, pervagando ao léu.
Cometas pulsando pertinho de Deus…
E eu carregando a tal cruz de um adeus!
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Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

Poetas Velhos 

Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Amai-vos, e as derradeiras 
muralhas hão de cair. 
– Havendo amor, as barreiras 
não têm razão de existir! 
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Pantum de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Navegando contra o vento 

Navegando contra o vento
sem levar mercadoria,
o seu barco sonolento
bordejava em agonia.

Sem levar mercadoria
num mar bravio e revolto
bordejava em agonia
um dos barcos, leve e solto.

Num mar bravio e revolto
num balanço tempestuoso
um dos barcos, leve e solto,
seguiu trajeto tortuoso.

Num balanço tempestuoso
naquele dia cinzento
seguiu trajeto tortuoso
Navegando contra o vento.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Embora sozinha eu siga
e sigas também a sós,
dentro do amor que nos liga
não há distância entre nós!
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Hino de 
CASCAVEL/ PR

Cascavel, cidade hospitaleira
Tu és fonte rica de labor
Do quadrante oeste és a primeira
Te amamos com todo o fervor

Tua história é bela e fascinante
Que o passado nos faz sempre reviver
Feitos heroicos de um grande bandeirante
Que criou-te e feliz te fez crescer

Tua beleza imponente tem vida
És a sombra que acolhe o forasteiro
Ganhas bênçãos pelas mãos da Aparecida
Portas abertas a todo brasileiro

No horizonte d 'oeste estrela fulgurante
Tua gente tão nobre de amor varonil
És crescente progresso a todo instante
És o mais lindo pedacinho do Brasil
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Trova de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 – 2020

Dos artigos que componho
nas minhas noites sozinhas,
fazes parte do meu sonho
abraçada às entrelinhas.
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Poema de
CLÁUDIA BELCHIOR
Rio de Janeiro/RJ

Minha escultura

É ela a minha escultura
E nela acredito com dedos de sonhos
E com a doçura de como me fez a minha mãe.
Nela acredito íntima e interior
Com olhos profundos
Capaz de entender a alegria e a dor da humanidade.
Nela acredito forte e frágil
E me encanto com seus movimentos
Caminhar apesar de tudo
Mulher, gueixa e poeta.
E é esta argila: rosa, vermelha e azul
A responsável por fazer sempre um novo planeta. 
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Sextilha de
MILTON SEBASTIÃO SOUZA
Porto Alegre/RS, 1945 – 2018, Cachoeirinha/RS

Quando somo, na vida, o meu total,
reconheço, queria fazer mais...
Muitas vezes meu passo foi pequeno,
outras vezes, tremi nos temporais...
Mesmo assim, fiz bastante, e agora eu sei
dar amor, pois amor nunca é demais...
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Glosa de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

MOTE: 
Tu vieste qual guarida
dando sentido ao meu passo.
E passaste em minha vida
qual nuvem, sem deixar traço. 
J. B. Xavier 
São Paulo/SP
 
GLOSA: 
Tu vieste qual guarida 
desde o Plano Superior; 
antes mesmo de nascida, 
incrustavas-me de amor. 

Filha amada, tu chegaste 
dando sentido ao meu passo. 
Eu nem sentia o desgaste 
diante de algum embaraço. 

Por força preconcebida, 
deixaste-me abruptamente. 
E passaste em minha vida 
qual um raio, de repente... 

Não me cabe lamentar, 
esse rude descompasso, 
pois tinhas que aqui passar 
qual nuvem, sem deixar traço.
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Aldravia de
GILBERTO MADEIRA PEIXOTO
Belo Horizonte/MG

luz
divina
Deus
assiste
minha
alma
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Soneto de
GUIMARÃES PASSOS
(Sebastião Cícero dos Guimarães Passos)
Maceió/AL, 1867 – 1909, Paris/França

Teu lenço

Esse teu lenço que possuo e aperto
De encontro ao peito quando durmo, creio
Que hei de mandar-t'o um dia, pois roubei-o,
E foi meu crime em breve descoberto.

Luto, porém, a procurar quem certo
Pode servir-me nisto de correio;
Tu nem sabes que grande é o meu receio
Se em caminho te fosse o lenço aberto...

Porém, ó minha vívida quimera.
Fita as bandas que eu moro, fita e espera,
Que enfim verás, em trêmulos adejos,

Em cada ponta um beija-flor pegando.
Ir pelo espaço o lenço teu voando
Pando, enfunado, côncavo de beijos.
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Poema de
SEBAS SUNDFELD
Pirassununga/SP, 1924 – 2015, Tambaú/SP

Dilema

O coração é uma taça para a festa da vida.
Com ela comemoramos, na embriaguez da euforia,
os esplendores das pompas, o riso da alegria,
a glória encantada dos amores.
Mas o fazemos com tamanha ansiedade,
com tanto medo
de ver a festa em breve terminar,
que, ao fim, quando brindamos à Felicidade,
que um dia há de chegar,
temos cansado o coração
e a taça está vazia.
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Poema de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

O Medo

Sucinto, te sinto
às vezes silente
em raro decanto

ou pressinto teu mavioso canto.
Um instinto quase animal revela
teu êxtase, em peculiar encanto.
Escorres por minhas frestas em
ecos, és o labirinto sacrossanto.
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Reminiscência

O joão-de-barro, a paineira,
e a casinha, ali construída…
Na infância, sobremaneira,
deram-me exemplo de vida!

''São Carlos"... Era o nome da fazenda,
com primaveras, pássaros, paineira...
O cafezal em flor, cena estupenda:
— recordação para uma vida inteira!

No terreirão, na grama em verde renda
- eu com dez anos –, quanta brincadeira!
Na casa simples, mesa com merenda;
dali se via o véu da cachoeira!...

Lembro o balanço no chorão... — Saudade!
Naquele pasto o gado em liberdade;
farto pomar, coqueiro carregado...

Apenas meses e eu nunca esqueci,
da infância a fase que passei ali:
— um tempo mágico do meu passado!
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Soneto de
MIGUEL RUSSOWSKY
(Miguel Kopstein Russowsky)
Santa Maria/RS, 1923 – 2009, Joaçaba/SC

A Vida é Urgente

Se sabes que te quero e sou por ti bem quisto,
o “depois” não importa. O tempo nos dirá.
Viver!... Sentir o amor, é urgentíssimo já!
Não somes ao anseio uma descrença, insisto!

Felicidade... Instante azul!... Apenas isto.
Deixa então, o porvir, às leis do “Deus dará”.
Não penses que o amanhã necessite alvará
para dar luz ao sol, se tudo está previsto.

Aproveitemos agora os encantos da vida,
antes que o fado hostil os sonhos desarrume,
ou às desilusões os teus enganos somes!

A existência esvai-se em célere corrida...
Um dia eu serei pó e tu serás perfume
e o vento soprará sem lembrar nossos nomes.
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Poema de
EUGÉNIO DE ANDRADE 
(José Fontinhas)
Fundão/Portugal, 1923 – 2005, Porto/Portugal

A boca 

A boca,
onde o fogo 
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?) 
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser 
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O corvo e a raposa

É fama que estava o corvo
Sobre uma árvore pousado,
E que no sôfrego bico
Tinha um queijo atravessado.

Pelo faro àquele sítio
Veio a raposa matreira,
A qual, pouco mais ou menos,
Lhe falou desta maneira:

«Bons dias, meu lindo corvo;
És glória desta espessura;
És outra fênix, se acaso
Tens a voz como a figura!»

A tais palavras o corvo
Com louca, estranha afoiteza,
Por mostrar que é bom solfista
Abre o bico, e solta a presa.

Lança-lhe a mestra o gadanho*,
E diz: «Meu amigo, aprende
Como vive o lisonjeiro
À custa de quem o atende.

Esta lição vale um queijo,
Tem destas para teu uso.»
Rosna então consigo o corvo,
Envergonhado e confuso:

Velhaca! Deixou-me em branco,
Fui tolo em fiar-me dela;
Mas este logro me livra
De cair noutra esparrela.»
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* Gadanho = garra.